EDUCAÇÃO PACIFISTA

Mahatma Gandhi

POR UMA CULTURA DE PAZ

Dom Irineu Guimarães, OSB
(Marcelo Rezende Guimarães)

A queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria não significaram para a humanidade a instauração de um período de paz. O fracasso de uma modernidade que desejava a tolerância e o emergir de um sem número de guerras étnicas e religiosas colocou a temática da paz como um dos principais pontos da agenda contemporânea.

A cultura global favoreceu a percepção das necessidades mundiais e o desenvolvimento de tecnologias da comunicação possibilitou a integração e a interdependência entre os membros do planeta. O conceito de cidadania se ampliou, de modo que o conflito no Oriente Médio é experimentado como algo que se passa no quarteirão vizinho. Ao mesmo tempo, o desmantelamento dos blocos econômicos provocou um processo de desvelamento da realidade circundante, um desnudamento da pobreza e uma tomada de consciência da miséria. O contexto da degradação do meio-ambiente, da economia e da cultura faz a humanidade experimentar o problema do debilitamento do ser e levantar uma agenda ética comum.

A paz tem emergido, hoje, não apenas como clamor universal, mas como um dos campos onde opera certo consenso, no qual a civilização ocidental exprime sua ideia de bem. Os estudos sobre a paz começam a se libertar do domínio dos estudos militares e políticos ou sobre a guerra, para ganhar autonomia e abrangência própria. A própria problemática da paz está sendo circunscrita de forma abrangente, desde questões do psiquismo humano ou da organização socioeconômica e política, atingindo também o plano cultural. As análises compreendem desde a recusa categórica de que a guerra esteja inscrita no programa genético humano até a proposição de novas perspectivas, passando pelo desvelamento dos mecanismos de formação de uma cultura de violência e pelo conhecimento do papel de certas agências, na expressão e produção da cultura de violência. Este interesse mundial fez a ONU declarar o ano 2000 como “Ano Internacional por uma Cultura de Paz”, a década de 2001-2010 como “Década mundial por uma cultura de paz para as crianças do mundo” e manter, através da UNESCO, um programa específico para promoção da cultura de paz.

A UNESCO define cultura de paz como o conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e modos de vida fundados sobre uma série de aspectos, como, por exemplo, o respeito à vida, ao princípio de soberania, aos direitos humanos, à promoção de igualdade entre homens e mulheres e à liberdade de expressão; o compromisso de resolver pacificamente os conflitos; os esforços desenvolvidos para responder às necessidades planetárias; a promoção do desenvolvimento dos e entre os povos.

O conceito de cultura de paz reconhece que a paz tem, além de raízes sociais, econômicas e políticas, uma base cultural. A cultura, por um lado, diz respeito às expressões produzidas e criadas pela humanidade e, portanto, como uma realidade ligada ao ato de aprender, criar, transmitir, educar; por outro, como aquilo que subjaz a estas mesmas expressões. Aqui o conceito de paradigma – como uma realidade que é lógica, pré-lógica, supra lógica - poderia ser esclarecedor.

O currículo oculto: 

a produção cultural da violência


É importante detectarmos, coletivamente, os processos culturais de produção da violência. Não apenas vivemos numa sociedade violenta, mas, sobretudo, numa cultura violenta, produzida e, ao mesmo tempo, difundida, por inúmeras instâncias da sociedade: os meios de comunicação, a escola, a família, as instituições religiosas, os partidos políticos, os clubes, os sindicatos, etc. Há um currículo oculto[1] baseado no paradigma bélico, que nos educa para a violência e que, qualquer ação contra a violência e pela paz, não pode desconhecer. Eduardo Galeano, num livro recente, para expressar esta realidade, criou a metáfora da escola do mundo ao avesso: “não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes... O mundo ao avesso gratifica o avesso: despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos e alimenta o canibalismo... Os países responsáveis pela paz universal são os que mais armas fabricam e os que mais armas vendem aos demais países...”.[2]

Entre as tantas características deste paradigma da modernidade, está o fato de ele constituir-se, também, como uma razão bélica e beligerante. E esta compreensão é de suma importância para o entendimento do fato social da violência. A violência, nas sociedades modernas, não é episódica – algo que está acidentalmente no caminho –, mas metódica – algo que perpassa todo o caminho. Faz parte da racionalidade moderna e é expressão do paradigma dominante.

As promessas de paz formuladas pela modernidade não só não foram cumpridas – “enquanto no século XVIII morreram 4,4 milhões de pessoas em 68 guerras, no nosso século morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras, mas levou ao desenvolvimento tecnológico da guerra e ao aumento sem precedentes do seu poder destrutivo”.[3] Eric Hobsbawn afirma que a história do século XX é a era das ilusões perdidas e que nele mataram-se mais seres humanos do que em qualquer outra época e nele se chegou a níveis de bem-estar jamais vistos na experiência humana.[4]

A não-violência e a paz 

como o paradigma emergente


A violência não é, entretanto, a última palavra dada. Para autores como Boaventura de Souza Santos, “entre as ruínas que se escondem atrás das fachadas, podem pressentir-se os sinais, por enquanto vagos, da emergência de um novo paradigma”.[5]

Escutamos frequentemente a afirmação de que a violência tem crescido. É uma afirmação de difícil verificação: qual violência? onde? quando? No entanto, podemos comprovar que a consciência da violência tem crescido. E a consciência da violência tem crescido porque, no horizonte do mundo, desenha-se um novo senso comum emancipatório e uma prática social eminentemente não-violenta.
Este paradigma pode ser vislumbrado em documentos, tais como a Declaração Universal de Direitos Humanos – patamar qualitativo da história da humanidade –, operando e estabelecendo um consenso em torno da dignidade humana; no sem número de organizações que constituem atualmente o movimento pacifista e que têm trabalhado em campos, como a luta contra o armamentismo, a luta pela cidadania, a educação para a paz, a contestação do serviço militar obrigatório, o campo da não-violência, a solidariedade aos povos em conflito; em uma série de movimentos – como os sociais, feminista e de afirmação sexual, ecológico, de afirmação cultural, de libertação. Este conjunto todo deu essencial contribuição na construção de um novo senso comum civilizatório.

A educação para a paz 

como mapa na transição paradigmática


Nesta tensão que se estabelece entre o paradigma dominante e o paradigma emergente, podemos recorrer, como o faz Boaventura de Souza Santos, à linguagem da cartografia. Segundo este autor, na transição paradigmática, precisamos de mapas de emancipação social e subjetividades com capacidade e vontade de usá-los.

Entre estes mapas, inclui-se a educação para a paz, a qual tem emergido na interlocução da comunidade internacional como uma alternativa à violência. Tarefa mundial, exigência indiscutível, componente importante dos programas educativos, são alguns dos atributos referidos à educação para a paz. Quase que desconhecida no Brasil, a educação para a paz constitui-se, no entanto, em um verdadeiro movimento organizado e mobilizado em torno da educação para a paz. Multiplicam-se, em muitos lugares, associações de educadores para a paz e centros de educação para a paz, tendo florescido, nos últimos anos, uma abundante bibliografia, especialmente nos Estados Unidos, Espanha e Itália. Em algumas escolas, como na Inglaterra, a educação para a paz constitui-se em parte integrante do currículo escolar, sendo que, na Espanha, a educação para a paz integra um dos assim ditos temas transversais. Cursos sobre educação para a paz são promovidos por universidades na Itália, Alemanha, Bélgica, Cuba e Costa Rica. As escolas com filosofia inspirada em Célestin Freinet e Maria Montessori contam com comissões especiais de educação para a paz. Muitas organizações não-governamentais ligadas ao movimento pacifista têm se dedicado à educação para a paz, promovendo oficinas e cursos sobre a temática, na busca de soluções dos conflitos nas áreas onde atuam.

Embora a educação para a paz constitua-se num conceito abrangente, abrigando as mais diversas experiências, tanto na educação formal como não-formal, sob os mais diversos títulos, podemos constatar um núcleo comum de preocupações comuns, tais como:

a) Criar referenciais não-violentos e fortalecer conexões. A educação para a paz apresenta-se como um espaço onde as pessoas firmam-se como pacifistas, inserindo-se no quadro global da humanidade que caminha para a paz e fazendo repercutir para o seu cotidiano aquilo que é a busca das pessoas comprometidas com a paz no mundo. Fundamentalmente, torna-se uma experiência de descoberta e de articulação com o movimento pacifista e de suas múltiplas frentes, como a luta contra o armamentismo, o movimento de objeção de consciência e de desobediência civil, o esforço de solidariedade para fim dos conflitos, os trabalhos de educação para a paz e as ações em defesa da vida e em prol da cidadania.

b) Formar consenso para a paz. A educação para a paz como um espaço de debate, diálogo e negociação para que a humanidade opere um consenso em torno da paz, como operou, por exemplo, em torno dos direitos humanos. Como muito bem afirmou Jody Willians, prêmio Nobel da paz 1997 por seu trabalho para eliminação das minas terrestres: “A paz já não é uma expressão da vontade dos poderosos, mas uma expressão da vontade coletiva de se viver em paz. Todos juntos somos uma superpotência!”

c) Fortalecer pessoas para serem ativistas de não-violência. A possibilidade da paz funda-se na habilidade humana, não apenas para agir, mas para agir em concerto, constituindo-se em uma das mais decisivas experiências humanas. Autores, como Hannah Arendt, chamam a isto de poder, entendendo-o não como prerrogativa do Estado ou dos grupos dominantes, mas como condição da própria humanidade. A educação para a paz apresenta-se, assim, como espaço de empoderamento, isto é, o fortalecimento da capacidade de poder que todos temos como caminho de superação da violência.

d) Abolir preconceitos e estereótipos. A cultura de violência, como construção humana, se fundamenta nos preconceitos e estereótipos que produz. O reconhecimento e a crítica a ambos – e à sua força de falsear a realidade – constituem um passo importante para a solidariedade e cidadania mundial.

e) Instrumentalizar a resolução não-violenta de conflitos. Tradicionalmente, o conflito costuma ser encarado como algo ruim e negativo. No entanto, o conflito não é, em absoluto, obstáculo a uma cultura de paz. Os conflitos são inerentes aos processos sociais e são forças propulsoras básicas da sociedade, também se constituem em fatores do crescimento humano. A resposta que se dá aos conflitos é que os torna negativos ou positivos, construtivos ou destrutivos. A questão é como resolvemos os conflitos, se por meios violentos ou não-violentos. “Para construir uma cultura de paz é preciso mudar atitudes, crenças e comportamentos, até se tornar natural resolver os conflitos de modo não violento (por meio de acordos) e não de modo hostil”.[6]

f) Diminuir o potencial de agressão. Há uma diferença entre agressividade e violência. A agressividade constitui-se a força vital de cada pessoa, necessária para superar os obstáculos e limitações próprias do cotidiano. “A sua ausência provoca passividade. Em princípio ela é neutra, mas através de condicionamentos sócio-culturais (educação, trabalho, história ou sistema social) provocam comportamentos violentos ou não-violentos”.[7] O importante, então, é trabalhar esta energia de forma construtiva, diminuindo o potencial de agressão.

g) Criar aversão à violência, com atitudes antimilitaristas e rejeição da violência. Segundo Boaventura de Souza Santos, o pensamento crítico, para ser eficaz, tem de assumir uma posição paradigmática para, partindo, de uma crítica radical do paradigma dominante, tanto dos seus modelos regulatórios como dos seus modelos emancipatórios, desenhar os primeiros traços dos horizontes emancipatórios em que eventualmente se anuncia o paradigma emergente.[8] Trata-se de fortalecer uma atitude crítica a esta cultura de violência que nos é imposta, fornecendo instrumental para perceber como a violência e o militarismo atuam em diversos canais, como, por exemplo, nos meios de comunicação, brinquedos e jogos de guerra.

Dessa forma, a educação para a paz apresenta-se como um dos mapas sociais que possibilitam orientações novas, reorientações e mudanças de posicionamentos em relação à violência e, ao mesmo tempo, um espaço onde as pessoas firmam-se como militantes pacifistas e de direitos humanos, inserindo-as no quadro global da humanidade que caminha para a paz e tornando-se uma experiência de descoberta e de articulação com as múltiplas frentes de promoção dos novos paradigmas.

video

Notas e referências
[1] Currículo oculto - conceituado como “a distribuição tácita, pela escola de normas, valores, tendências e conhecimentos educacionais aceitos, de maneira inconsciente, permanecendo nas mentes dos alunos.” In APPEL, Michel. Ideologia e Currículo. São Paulo: Brasiliense, 1982.
[2] GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L& PM Editores, 1999, p. 5- 7.
[3] SANTOS, Boaventura de Souza. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000, p. 56.
[4] HOBSBAWN, Eric.A era dos extremos. São.Paulo: Companhia das Letras, 1999.
[5] SANTOS, op. cit.,  p. 15-16.
[6] MALDONADO, Maria Tereza. Os construtores da paz: caminhos da prevenção da violência. São Paulo, Moderna, 1997, p. 96.
[7] AGUILLERA, Beatriz et alii. Educar para la paz.Madrid: Centro de Investigación para la Paz, s/d.,p.16.
[8] Idem, p.16.
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