Um corpo além do ostensório

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Creio, Senhor! 
Eu creio até demais! 
Não, não precisa 
aumentar minha fé. 
Intensifica, entretanto, 
a minha frágil empatia 
por tantos Corpos violados: 
Corpo dos pobres, 
o teu Corpo. 
Abre os meus olhos 
e amplia minha consciência 
humana, ecológica e solidária. 
Trava totalmente a minha língua 
quando detono os Direitos Humanos 
e falo mal de quem os defende. 
Abre minhas mãos e meus braços, 
sobretudo, hoje, na festa do teu Corpo: 
Corpo caído nas esquinas 
e encolhido debaixo de viadutos; 
Corpo que revira o contêiner 
do meu lixo diante do prédio onde moro; 
Corpo jogado ao relento de uma noite fria, 
por ordem judicial, 
a cinco quadras da minha cama; 
Corpo esfolado pela truculência infame 
da polícia militar que se esconde 
no sorriso de uma obediência tirana; 
Corpo debochado pelas autoridades 
da política nacional, estadual e municipal; 
Corpo que se enche de cachaça, 
crack, mcdonald, coca-cola 
e enlatados cheios de veneno; 
Corpo que perde vaga na escola, 
mas já a tem garantida no presídio; 
Corpo que tem seu salário 
roubado, atrasado e parcelado 
por quem desgoverna e quem ganha demais; 
Corpo indefeso e condenado à morte 
ainda no ventre materpaterno; 
Corpo espezinhado pelo empresário 
que não paga o que deve ao estado 
e ainda quer sugar mais; 
Corpo alienado por lideranças 
que se dizem religiosas, 
inclusive da minha própria igreja; 
Corpo que é constantemente ameaçado 
de perder suas terras ancestrais; 
Corpo surrado porque se sente atraído 
por outro Corpo quase igual;
Corpo que é machucado covardemente
em sua inocência e vulnerabilidade
por quem mais deveria cuidar;
Corpo zombado por quem acha 
que tem o dom de fazer graça; 
Corpo passivo às campanhas podres 
dos que se acham "cidadãos de bem"; 
Corpo que leva porrada, 
que leva gás na cara 
pra defender outro Corpos. 
Corpo. Corpo. Corpo. 
Tantos Corpos. 
Corpo da irmã e do irmão; 
Corpo de vida e de morte. 
Teu Corpo. 
Meu Corpo. 
Nosso Corpo. 
E se estes não forem 
o teu verdadeiro Corpo 
o qual desejo comungar 
incondicionalmente, 
recaia sobre mim o deboche 
de passear pelas ruas e praças 
onde exibicionistas se amontoam, 
imaginando que tu te encontras 
aprisionado num rico ostensório, 
mas tão digno de pena, 
ostensório que apenas ostenta, 
ostensório sem teus corpos, 
ostensório que te obriga 
a estar presente apenas 
num mísero farelo de pão. 
Amém.

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