Ostensório que apenas ostenta

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Creio, Senhor, 
eu creio até demais! 
Não precisa aumentar minha fé, 
mas intensifica minha empatia 
pelos Corpos violados todo dia: 
Corpo dos pobres, teu Corpo.
Abre meus os olhos 
e amplia minha consciência
humana, ecológica e solidária. 
Trava totalmente minha língua 
quando detono os Direitos Humanos 
e falo mal de quem os defende... 
Abre minhas mãos e meus braços, 
sobretudo, hoje em que celebramos 
a festa do teu Corpo... 

Corpo caído nas esquinas
e encolhido debaixo de viadutos... 
Corpo que revira o contêiner do meu lixo
diante do prédio onde moro... 
Corpo jogado ao relento de uma noite fria,
por ordem judicial, a cinco quadras da minha cama... 
Corpo esfolado pela truculência infame
da polícia militar que se esconde na obediência tirana... 
Corpo debochado pelas autoridades
da política nacional, estadual e municipal... 
Corpo que se enche de cachaça, crack, mcdonalds,
coca-cola e enlatados cheios de veneno... 
Corpo que perde vaga na escola,
mas já tem garantida no presídio... 
Corpo que tem seu salário atrasado e parcelado
por quem desgoverna e ganha até demais... 
Corpo indefeso e condenado à morte
ainda no ventre materno-paterno... 
Corpo espezinhado pelo empresário que não paga
o que deve ao estado e ainda quer sugar mais... 
Corpo alienado por lideranças que se dizem religiosas,
até mesmo dentro da minha própria igreja... 
Corpo que é constantemente ameaçado
de perder suas terras ancestrais... 
Corpo surrado porque se sente atraído
por outro Corpo quase igual... 
Corpo zombado por quem acha
que tem o dom de fazer graça... 
Corpo vulnerável às campanhas podres
dos que se acham "cidadãos de bem"... 
Corpo que leva porrada,
que leva gás na cara para defender outros Corpos... 
Corpo... Corpo... Tantos Corpos...
Corpo da irmã e do irmão...
Corpo da vida e da morte...
Teu Corpo... Meu Corpo... Nosso Corpo... 

E se estes não forem o teu verdadeiro Corpo 
o qual comungo incondicionalmente, 
recaia sobre mim o deboche
de passear pelas mesmas ruas e praças, 
imaginando que tu te encontras
aprisionado num ostensório lindo,
mas tão digno de pena...
ostensório que apenas ostenta...
ostensório sem os verdadeiros corpos...
ostensório que te obriga a estar
presente apenas num farelo de pão... 
Amém.

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