A linguagem dos símbolos religiosos

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

No humano há um espaço do simbólico. Aí encontra-se a religiosidade. A psique e a própria linguagem passam por tal dimensão. O olhar superficial, porém, não distingue símbolo, alegoria, metáfora, parábola, ícone, marca, sinal, emblema e arquétipo, sendo este um desafio dado o entrelaçamento das nuances e tradições simbólicas. Assim, para Ione Buyst “todos os símbolos são sinais, mas nem todos os sinais são símbolos.[1] Isto porque os símbolos são subjetivos enquanto os sinais são objetivos, isto é, símbolos podem ser e sinais são o que representam. De modo que plantas e animais, tempos e lugares, objetos e pessoas, cheiros e sons, obras e ações, palavras e alimentos, fenômenos e eventos, ideias e arquétipos, emoções e sentimentos podem ser simbólicos.

Segundo Marcelo Guimarães, na antiguidade, o símbolo era uma pequena tábua de argila quebrada por dois indivíduos que faziam um contrato e num dado momento, quando necessário, juntavam-na para expressar a aliança outrora feita.[2] Neste caso, a concretude do objeto de argila era por eles reconhecida como a expressão de tal relação e compromisso. Daí a própria etimologia da respectiva palavra: sym = junto + bolon = lançado[3], ou seja, o que é colocado junto, o que reúne, unifica e congrega.[4] De maneira que, no símbolo, o invisível se faz ver, o inaudível se faz escutar, o intocável se faz tocar, o insosso se faz saborear e o inodoro se faz cheirar. Ele exprime valores, ensinamentos e cria um sentimento de solidariedade e identidade entre os seguidores de uma determinada tradição.

Na mesma perspectiva, Rubem Alves afirma que os símbolos mostram a presença de uma ausência.[5] São pontes e mediações. Sua finalidade é ajudar a desvelar segredos e mistérios, o insondável e inefável da transcendência ou das coisas do além, pois os caminhos espirituais ou tradições religiosas são, por excelência, realidades simbólicas. E, como tais, afirma Francisco Catão: “apelam para 'a parte invisível' da realidade 'lançada junto' com o que se vê, designando a parte visível de um todo não manifesto, inseparável da totalidade do real”[6]. Então, é para isso mesmo que servem os símbolos sagrados, ou seja, para unificar, juntar-nos uns aos outros, ligar-nos com a história e com o que está além de nós mesmos. E assim cumprem a função de estabelecer ligações e criar relações perceptíveis.

Por representarem mais que aparentam, os símbolos são realidades incompletas. Uma estátua de Buda, Jesus, Xangô ou Vishnu, por exemplo, reúne uma série de impressões e recordações, mas não é o que está representado. Ou seja, a foto de minha avó não é a minha avó, apesar da saudade que posso sentir dela. Não dá pra confundi-las. Os símbolos, então, servem para fazer-nos conscientes ou para lembrar-nos de coisas importantes. E esta é uma necessidade humana, pois, ainda que necessite representá-la materialmente, o ser humano acredita que há outras realidades para além dos cinco sentidos as quais enchem de sentido sua vida e existência. Por esta razão, os símbolos manifestam certo poder e acabam influenciando a vida das pessoas, em boa parte, por evocarem o desconhecido.

Embora haja símbolos universais, como toda linguagem, de tempos em tempos, de lugar para lugar, de tradição para tradição, eles podem modificar-se tanto na forma quanto no sentido. Também podem ser criados e abandonados, sacralizados e dessacralizados, entrelaçados e sincretizados por diferentes culturas e tradições. Um símbolo positivo pode transformar-se em negativo e vice-versa. O tridente, por exemplo, o qual representava o poder de Poseidon para os gregos foi reinterpretado e colocado na mão do diabo como símbolo do mal para os cristãos. A cruz, por sua vez, instrumento de tortura e morte para os romanos, passou a significar a vitória da vida para o cristianismo. Por isso, é de grande importância e sabedoria não desprezar o contexto do objeto analisado a fim de evitar algum equívoco.

Notas e referências
[1] Cf. BUYST, Ione. Celebrar com símbolos. São Paulo: Paulinas, 2001.
[2] Cf. GUIMARÃES, Marcelo Rezende. A vida é um rito. In: IPJ. (Org.). Cultivando a mística: 32 roteiros de oração para jovens. Porto Alegre: IPJ, 1998, p. 7-15.
[3] Cf. BECKER, Udo. Dicionário de símbolos. São Paulo: Paulus, 1999.
[4] Cf. DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Dicionário Grego-Português/Português-Grego. Porto: Porto Editora, 2008. 
[5] Cf. ALVES. Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 1999.
[6] Cf. CATÃO. Francisco. Símbolos religiosos: elos com a transcendência. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, nº 51 – Ago/2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...