Sinal de bênção e contradição

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal Obl. OSB)

O mundo atual abre-se a essa perspectiva, como se ela fosse uma novidade. Para vários segmentos da sociedade é um direito inalienável a ser garantido. Algumas tradições religiosas a consideram questão lapidada, apaziguada ou plenamente naturalizada. As igrejas cristãs, ainda que raras e a muito custo, sob a insistência de uma teologia de vanguarda, obrigam-se a refletir como já o fizeram com muitos outros temas espinhosos. E em todos os contextos este é um ponto nevrálgico, até porque as crenças e doutrinas, embora criações humanas e históricas, são elementos culturais considerados sagrados. Assim, ao escutar sábios e prudentes e ao contrapor cínicos e algozes, a realidade exige paradigmas alicerçados num maior cuidado com a complexidade humana. 

Não precisamos ir longe para enxergar a respectiva conjuntura, basta olhar ao lado e considerar nossa família ou qualquer outra instituição, da mais tradicional a mais alternativa; basta olhar para qualquer profissão e não precisa ser a mais estereotipada; basta olhar para o nosso círculo de colegas e amigos, inclusive os mais achegados; basta olhar para a nossa comunidade de fé, principalmente lá onde os discursos se inflamam, onde as decisões são monopólio e a disciplina enrijece sem reflexão. Aí estão muitos enrustidos e espalhafatosos desejando viver com dignidade. A sua esperança é que as mais profundas transformações germinam escondidas, crescem discretas, vigoram pisoteadas e maduram com o tempo para que aroma e sabor sejam apreciados, ainda que algum fruto venha a ser amargo.

Envolvidos em uma mudança de época e reféns de práticas nada amorosas, de abusos e de atentados à vida, muitas vezes em nome de um sagrado forjado o qual nem sempre é religioso, essencial e cuidadoso, quando alguém ama de livre e espontânea consciência e quer proclamar aos quatro ventos a intensidade desta boa notícia, independentemente de gênero ou orientação, nada mais profético e justo para os nossos dias que estar ali junto, testemunhando, abençoando, cuidando e confirmando tal escolha, ainda que, a princípio, estejamos na contramão. Aliás, amar, seja filos, eros ou ágape, acaso não é pura subversão? E compreendendo que abençoar significa invocar o que é belo e desejar o que é bom, apesar de todas as consequências, é necessário arriscar, ser sinal de bênção e contradição.[1] 

Se tal exigência urge, se a imensa maioria dos ministros religiosos não realiza, se algumas coisas não vêm de cima e não adianta esperar, eu e Mãe Beatriz de Iemanjá abençoamos a união de Antônio e Douglas. Até porque "quando a gente ama simplesmente ama e é tão difícil explicar".[2] Aliás, se é pra dar testemunho visível e coerente da vida abundante e do amor incondicional, onde quer que seja e cada vez mais, esta Vida Plena vai arrastando-me a estar presente. Quem legitima isso? Aquelas e aqueles que almejam do mais profundo da alma; aquelas e aqueles que sentem à flor da pele o drama e o alívio de serem diferentes; aquelas e aqueles que multiplicam sonhos ao invés de pesadelos e utopias possíveis ao invés de desilusões. Quem legitima isso é o Amor Maior de quem ama por amar.

Assim, naquela noite de festa nós declaramos: vocês já se experimentaram. No juramento que fazem está implícito: este é o meu companheiro. Companheiro é quem come junto do mesmo pão. E isso é um ato profundamente amoroso, um amor sentimental, espiritual e político. Para a nossa cultura é um ato tão sagrado quanto subversivo. Nós testemunhamos, abençoamos e anunciamos a quem, de boa vontade, possa e queira escutar, acreditando que esse mesmo amor tenha nascido da liberdade e da alegria, do desejo e da paixão, da afeição e do cuidado, da entrega e da cumplicidade, da sabedoria e da consciência para que vocês possam viver intensamente sob o axé de seus Guias, sob as forças do Universo, sob a vida do Eterno e sob a misericórdia do Divino que se deixa chamar por tantos nomes.

Notas e referências
[1] Seja sinal de bênção e contradição foi o que recomendou Leonete Cassol, via facebook, em resposta à publicação do que estávamos prestes a realizar, em 28.05.2016.
[2] Cf. BARBOSA, Marcelo; BARRETTI, Bozo. Quando a gente ama. Música interpretada por Oswaldo Montenegro.
[3] Obrigado Veroni Medeiros, Rivy Tarandach, Leonete Cassol, Vera Freitas e Vladimir Freitas por seus comentários motivarem uma reelaboração mais criteriosa deste texto.

Um comentário:

  1. Falar do amor não é fácil. Expor nossas idéias também não. E como hoje isso é fundamental; estamos carentes disso. Julio faz desse momento uma reflexão profunda e atual, de uma sociedade doente por falta de amor e de companheirismo. Obrigada Julio, por trazer suas reflexões, experiências e nossas necessidades!

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