Dimensões inerentes ao humano

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

que é inerente ao humano? Algo o torna peculiar em relação aos demais seres? Sendo sapiens, como este situa-se diante das descobertas a seu respeito, bem como de outras espécies? Qual é, de fato, a sua essência? É possível ignorar o que se sabe ou faz-se necessário redimensioná-lo constantemente? Várias abordagens podem dar-nos algumas respostas. Aliás, é imperativo que consideremos a integralidade e a complexidade humana em detrimento de concepções precipitadas, parciais e fragmentadas. Assim sendo, qual gênero humano que sabe que sabe, podemos concebê-lo sob quatro dimensões fundamentais, a saber: corporal-biológica, social-ecológica, mental-psicológica e transcendental-escatológica. Mas, não são verificados tais aspectos em outros seres vivos? 

Corporal-biológica - Esta dimensão refere-se ao corpo material, anatômico, fisiológico e orgânico. Compreende os sistemas motor, digestório, vascular, ósseo, respiratório, neurológico, reprodutor e hormonal, além das funções e disfunções dos órgãos e suas inter-relações; os órgãos sensoriais: pele, olhos, nariz, língua e ouvido, responsáveis pela interação com o cosmos. Aqui se pressupõe uma relação entre os átomos. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua corporalidade pela alimentação, respiração, movimentação, higiene, preservação, prevenção e tratamento de doenças, trabalho e repouso, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Social-ecológica - Esta dimensão refere-se às relações entre todos os seres e com nossa casa comum. Compreende os fenômenos que acontecem nas interações pessoais, grupais, comunitárias, étnicas, considerando-se fatores políticos, econômicos, trabalhistas, jurídicos e educacionais, bem como a afetividade, a sexualidade, a segurança pública, a não-violência e a justiça social. Aqui se pressupõe uma relação entre os seres. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua sociabilidade pelo contato físico, o companheirismo, a alteridade, o diálogo, a compaixão, a moral, a ética, a garantia dos direitos e dos deveres, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Mental-psicológica - Esta dimensão refere-se às funções cerebrais superiores e neuropsicológicas. Compreende a personalidade e o comportamento motivados por certas instâncias inconscientes, pré-conscientes e conscientes; memória, pensamento, raciocínio, intelecto; vontades, desejos, emoções e sentimentos, bem como a necessidade de realização, autoestima e pertença. Aqui se pressupõe uma relação consigo mesmo. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua mentalidade através do aprendizado, autoconsciência, resiliência, administração das emoções, superação dos vícios, inseguranças e desejos, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Transcendental-escatológica - Esta dimensão refere-se àquilo que dá sentido à vida e à existência. Compreende a necessidade do eterno, a saudade do infinito e a busca do que está além das sensações e dos sentidos; aí se encontra o desejo de unificar-se e fazer-se parte do universo; é a experiência de uma energia arrebatadora que faz a vida fluir; é o mistério que o corpo e a mente não sabem dizer. Aqui se pressupõe uma relação espiritual. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, esse ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua espiritualidade através do silêncio, meditação, oração, admiração, contemplação, confiança e esperança enquanto busca a verdade. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Perceba-se que as respectivas dimensões estão precisamente interligadas e, por vezes, não se tem clareza dos seus limites. Aliás, cedo ou tarde, de maneira mais ou menos incisiva, o que acontece a uma terá repercussão sobre a outra. Contudo, caberia ao ser humano optar por ter esta ou aquela dimensão? Considerando-se o alto grau de complexidade dos fenômenos humanos, inclusive daquilo que se mostra como produção e patrimônio cultural ou como cultivo consciente e agregador de sentido, não cabe a este decidir o que lhe é inerente. Mas, no exercício do seu livre arbítrio, qual homo sapiens sapiens que é, este mesmo humano poderá decidir como administrar tais dimensões, ou seja, reconhecendo, exercitando e aperfeiçoando-as ou ignorando, interrompendo e atrofiando-as.

Notas e referências
BEKOFF, Marc. Animais têm consciência: trate-os como iguais. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/animais-tem-consciencia-trate-os-como-iguais?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_super. Acesso: 13.04.2014.
BIRCK, Bruno Odélio. Fenômeno religioso. In: GHELLER. Erinida. Cultura religiosa: o sentimento religioso e sua expressão. Porto Alegre: Edipucrs/Mundo Jovem, 2000.
CAVALCANTI, José Gilson. O ser humano como unidade. Disponível em: http://www.libertas.com.br/site/index.php?central=conteudo&id=412. Acesso em: 13.04.2014.
CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Leopoldo: Sinodal, 1987.

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e crescimento pessoal. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FERREIRA, Cristiane. As quatro dimensões do ser humano. Disponível em: http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=28108. Acesso em: 13.04.2014.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...