Pra não perder a sensibilidade

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Certas pessoas, provavelmente, jamais mudarão sua posição quanto aos famintos, ainda que mantenham diante dos olhos, diariamente, aquela repugnante e desgraçada imagem do urubu ao lado de uma criança africana moribunda. Elas tampouco mudarão suas concepções reacionárias e sanguinárias diante da estupidez e da covardia no que se refere aos atuais imigrantes que chegam aos milhares à Europa, ao Brasil e ao Rio Grande do Sul, por exemplo, ainda que divulguemos, a todo o instante, a imagem nua e crua de Aylan Kurdi, o menininho sírio encontrado morto na praia, vítima de um acidente com a embarcação quando seus pais tentavam refugiar-se. É evidente que não estou sugerindo tampar o sol com a peneira, fazer vista grossa, ou seja, deixar de denunciar as violações históricas e constantes dos direitos humanos básicos, em qualquer parte do mundo. Nada disso. Aliás, esta é obrigação de todos que tiverem um pingo de consciência e humanidade. A questão é outra. O que por ora questiono é a exposição desnecessária e tão desumana, em respeito às próprias vítimas. Sei que muitas vezes reagimos com indignação, no intuito de que que tais situações nunca mais voltem a se repetir. Entretanto, penso que certas realidades, tais como as mídias e nós mesmos ajudamos a divulgar, nos fazem perder, ainda que devagarinho, a sensibilidade que nos resta, ainda que seja em nome de uma boa causa. Onde está o limite entre denúncia e propaganda? Há situações que são óbvias o bastante. Ou deveriam ser. Outras, inclusive eu que faço a crítica, nelas me perco.

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