Um presépio bastante inusitado

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Era advento e um calor já intenso levava embora o último frescor da primavera. Entretanto, bem fora de contexto, os pinheirinhos ganhavam contornos de nevasca. No shopping, animais e estrabarias, quando havia, eram pura pompa e brilho sem luz. Ali, o único coitado mesmo era o Noel, obrigado a vestir roupas de inverno lapônico, ainda que derretesse em suor. Vitrines anunciavam: pague, leve, tenha! O tempo de comprar já chegou! Sequer esperávamos! Aleluia! Eis aqui nossos bens! Na escola, conteúdos terminavam, provas aconteciam, recuperações aproximavam-se, professores encaravam a malandragem atrás de nota e driblavam papais e mamães sem noção. Estresse. Ansiedade. Tensão. E no coração do educandário cujo nome era de santa construía-se algo bem inusitado

Por ali, inevitavelmente, transitava toda a comunidade escolar. Curiosidade nos olhares. Expectativa. Cooperação. Alguns desejavam compreender. Outros, mantinham um já conhecido desdém. Vergonha, principalmente por parte da ala de professoras, irmãs e coordenadoras que não se deixavam tocar pelo essencial da história que a cada ano é contada outra vez, justamente para que se tenha mais uma oportunidade de conversão. Cortinas velhas cobriam a improvisada, estranha e intencional armação. Deixado por perto e forrado de farrapos, um cocho, recipiente onde se dá comida ao gado. Tijolos delineavam a construção. Assoalho de tábua surrada. Paredes de papelão. E um relógio nem um pouco discreto, desde o início da obra, tictaqueava pendurado deixando o nosso tempo passar. 

O que vocês estão fazendo? Será que as crianças vão entender? Parece uma casa! É um barraco, uma tenda! Que tal cobrir aquela ponta? Assim ficou feio! Agora melhorou! Aquela porta poderia estar fechada! Se tivesse areia no chão ficaria interessante! Que tal um bombril na ponta daquela antena? Olha lá, mãe! Você viu, filho!? Eu estava distraída e, ao passar, fiquei procurando de onde vinha a música quando meus olhos foram parar num presépio em construção! O que vai acontecer aqui? Acho que estão preparando um lugar para Jesus! Posso arrumar esses panos? Isto é a manjedoura, não é? Aquelas franjinhas não estão boas! Que tal um chinelo na porta? Vocês poderiam colocar um papel pardo pintado pra parecer pedra! E se fosse pedra de verdade? Mas, algumas latinhas ficariam bem. 

Quando vai ficar pronto? É para nossa celebração de encerramento do ano, por acaso? Por que vocês estão fazendo desse jeito? Não havia outros materiais? Olha só, não está ficando simples demais? Este lugar ficou muito perto dos banheiros! Lá na outra escola onde trabalho o presépio está muito lindo! Ao invés de cajado, que tal uma bengala ali no canto? Ótima ideia! Poxa, muita gente continua indiferente! Mas, as crianças estão vibrando! Vocês estão deixando alguns adultos de cabelo em pé! Apesar dos sorrisinhos amarelos precisamos repetir isso no ano que vem! Tem certeza que tudo ficou pronto? Está incompleto! Acaso não está faltando uma criança nesse presépio? Cadê Jesus? Vocês não vão colocá-lo ali, não? As pessoas precisam vê-lo, pois no Natal, aqui na escola, não haverá ninguém. 

Vinte dias, praticamente, passaram. Tudo havia sido construído pedagógica e propositadamente, bem devagarinho. Em mutirão, sem dúvida alguma. Se era evidente o propósito, o resultado não se sabia. E naquela gestação arquitetônica a fim de despertar quem cochilava, a cada dia um novo objeto transbordava-se de sentido. Mas, nada escolhido sem razão. Quanta pergunta, resposta e provocação. Alguns compreendendo, outros voltando para conversar. Tudo alarmantemente simples, contrastando com o que se via por toda a cidade, inclusive nas igrejas, residências e colégios cristãos. Tudo quase real. E tão somente à espera do natal de uma criança pobre que nos faz pensar. Sonhar. Alienação superada? Desde que se insista que, para a chegada do divino, é preciso que se tenha os pés no chão.

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