Habilidades do professor de Ensino Religioso

Por Julio Cesar De Lima 
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Diante da premissa da educação integral, o Ensino Religioso, definitivamente, não é mais ou menos importante que os demais componentes curriculares. Esta clara conclusão desafia o respectivo professor a assumir seu devido papel no ambiente escolar, haja vista que este não representa identidade ou carisma de nenhuma instituição, não é o guardião da moral e dos bons costumes, não adere à mediocridade de uns e de outros, não entrega seu período para qualquer atividade, não dá nota pelas boas ações realizadas, não privilegia um eixo temático, tampouco salva o que, até agora, não se fez. Mas, quem é, então, este novo profissional ou professor do Ensino Religioso? Três habilidades parecem compor a base de sua ação pedagógica: a alteridade, a criticidade e a ludicidade.

Ao optar pela educação dialógica, o professor de Ensino Religioso desenvolve um espírito áltero na relação sistemática com os estudantes[1], de modo que o caminho da alteridade pressupõe abertura, diálogo e reverência ao outro enquanto outro[2], ainda que suas crenças e ideias sejam heterodoxas. Alteridade, neste caso, também tem a ver com coerência e honestidade acadêmica. Tal competência precisa amadurecer a ponto deste professor estar devidamente preparado para trabalhar em qualquer escola, independentemente de suas próprias crenças, tal como acontece com profissionais de outros componentes curriculares. Contudo, alteridade não pressupõe, sob hipótese alguma, anulação de nenhuma parte, tampouco significa fuga, omissão ou passividade, mas é preciso saber desenvolvê-la.

Ao integrar as Ciências Humanas, o professor de Ensino Religioso imbui-se do mesmo espírito crítico que orienta os demais professores desta área do conhecimento.[3] Se nem tudo é aceitável humana e pedagogicamente, isto também vale para a religiosidade. É evidente que a respectiva crítica não deve basear-se num mero gostar ou deixar de gostar, nem fundamentar-se no que ameaça as convicções de educador e educandos. Faz-se necessário, portanto, conjeturar e estabelecer relações com as demais ciências, de maneira que urge perguntarmo-nos pelo lugar da crítica no Ensino Religioso. Afinal, esta habilidade não pode resignar-se ou tornar-se refém de um processo de reestruturação curricular a perder de vista, ainda que sob a prerrogativa do diálogo inter-religioso, mas é preciso saber fazê-la.

Ao examinar o fenômeno religioso, o professor de Ensino Religioso entrega-se com espírito lúdico.[4] Entretanto, esta ludicidade não pode perder-se na ingenuidade metodológica, na superficialidade cognitiva e no melodrama afetivo, baseando-se em opções aleatórias. Não significa escolher jogos e sorrisos descontextualizados, fazer da aula uma piada, tampouco promover o uso de tecnologias visando, apenas, uma aula diferente e descontraída, mas deve haver um propósito que justifique toda e qualquer ação pedagógica, bem como o seu devido aprofundamento. A título de sensibilização, compreensão e aplicação de determinados conceitos, pela abstração e complexidade que lhes são próprias, recursos visuais, auditivos e sinestésicos ajudarão neste estudo, mas é preciso saber usá-los.

Entretanto, tais habilidades seriam exclusivas desta ou daquela área do conhecimento? Ou estas são também desafios e necessidades de todo o educador? Quanto ao Ensino Religioso, na prática, este ainda engatinha como componente curricular efetivo. Por isso, aquilo que parece óbvio, vez ou outra, precisa ser revisitado e ratificado. Some-se a isto o advento de uma perspectiva muito mais interativa das Ciências Humanas. De maneira que, ao concedermos o devido destaque a estas três habilidades, reforçamos o novo paradigma do respectivo componente no que tange a alteridade, desafiamos o seu amadurecimento no que se refere à criticidade e redimensionamos uma antiga característica a qual, embora descomprometida e equivocada, por vezes, o diferencia como um espaço para a ludicidade.

Notas e referências
[1] Cf. LÉVINAZ, Emmanuel.
[2] Por não existir um adjetivo para alteridade passo a usar a palavra "áltero" para este fim.
[3] 
Cf. FREIRE. Paulo.
[4] Cf. ALVES. Rubem.

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