Sala de aula: espelho do que se quer

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

O que define, exatamente, uma sala de aula? Suas quatro paredes, os quadros onde projeta-se todo tipo de conteúdo, as cinco ou seis colunas em que trinta ou quarenta alunos passam boa parte do dia olhando para a nuca uns dos outros? Por acaso, as quadras de esportes, laboratórios, pátios, biblioteca, cantina, corredores, estacionamento e arredores da escola não são também lugares de aprendizagem? E qual seria o espelho de classe ideal, ou seja, o lugar exato de cada estudante em tais circunstâncias? A resposta pode ser resumida em três possibilidades, a saber: deixando o estudante fazer aleatoriamente as suas próprias escolhas, delegando esta responsabilidade tão somente ao professor ou, então, firmando um acordo pedagógico entre os envolvidos no processo.

A primeira possibilidade pode ser arriscada a quem não tem inteira responsabilidade para assumir as conseqüências de seus atos. Ela pode estabelecer-se como anomia, séria inquietação dos professores. Afinal, a sala de aula formal não é extensão da casa da gente, menos ainda de nossos quartos. Nesse sentido, convencionamos que determinadas coisas sejam feitas em lugares específicos por uma questão de organização e convivência. De maneira que não convém sentar-se, inclusive em outros lugares, como se estivesse vendo televisão no sofá de casa, bocejar como se estivesse saindo da cama, falar como se estivesse na balada, circular como se estivesse no shopping, comer como se estivesse na cantina, manusear o celular como se estivesse no playground, sem consequência alguma.

Por outro lado, a sala de aula também não é hospital para que haja silêncio terapêutico, não é quartel para se obedecer cegamente, nem tabuleiro de xadrez para jogar esse ou aquele de um lado a outro e, ao final, dar um xeque mate. Nesta segunda possibilidade, uma simples troca de lugar feita ao bel prazer ou por necessidade do professor solucionará os reais problemas ou estes serão eficientemente amenizados, camuflados e deslocados? Até porque a aparente tranqüilidade, sem conflito algum, não é sinônimo de transformação. E, ainda que haja boa aceitação, para Paulo Freire, essa heteronomia é condição e situação de paternalismo, sectarismo, conformismo, alienação, bem como dependência emocional em relação ao opressor, seja governante ou educador, de modo a ser admirado e imitado.

A terceira possibilidade é compreender a sala de aula como espaço social de aprendizagem, onde há troca de informações e questionamentos, experiências e sentimentos. A partir dessa disponibilidade, o lugar exterior será importante, contudo, secundário diante do lugar interior. Numa pedagogia da autonomia, o espelho de classe e seus desdobramentos servem para promover o equilíbrio e instigar a plena participação. Este exercício consciente, isto é, o ato desafiador de ensinar de dentro pra fora trará mudanças demoradas, mas reais e eficazes. E, estar em colunas ou em círculo, individualmente ou em grupo, na cadeira ou no chão, desde que haja cumplicidade pedagógica para repensar atitudes incoerentes, sempre que necessário, dentro ou fora da sala de aula, será, então, motivo de libertação.

Além da incontestável superação da anomia, Paulo Freire lembra que o educador deve "estar atento à difícil passagem ou caminhada da heteronomia para a autonomia". Nela o estudante se emancipará daquilo que restringe ou anula sua autodeterminação. E qualquer sistema social, político, econômico, religioso e educacional deve ser ferramenta para a construção de condições em que todos sejam, de fato, seres de si para os outros. Para isso, o constante debate de ideias, a valorização do pensamento crítico e os métodos participativos estimularão a consciência e o esforço pelos direitos e deveres de todos. Assim, não se criará seres egoístas, desobedientes e autossuficientes, mas pessoas capazes de entender a razão das regras e rejeitar sistemas opressores, abertos ao diálogo e às justas mudanças.

Notas e referências
ARAÚJO, Ulisses Ferreira de. Assembleia escolar: um caminho para a resolução de conflitos. São Paulo: Moderna, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 38 e 78.
ZATTI. Vicente. Autonomia e educação em Immanuel Kant e Paulo Freire. Porto Alegre: PUCRS, 2007.

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