Para qualificar a arte da escuta

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A audição é um dos cinco sentidos que nos permitem interagir com o mundo. Biologicamente, via de regra, ela é inerente ao reino animal. Logo, estende-se aos seres humanos. Social e espiritualmente, no entanto, tal qual os demais sentidos, o ato de ouvir precisa ser aprendido, avaliado e mantido. De maneira que esta é uma necessidade para bem convivermos no lar, na escola, no templo, na empresa, no clube, na rua e no parlamento. E, se, por um lado, certa impessoalidade nas relações pode afastar a autêntica disponibilidade para ouvir, por outro lado, o desespero íntimo por ser ouvido também impede que se escute corretamente. Nesse sentido, todos conhecemos quem despeje, de qualquer jeito, qualquer coisa que venha à cabeça, não importando o interlocutor e suas circunstâncias.

Em uma sociedade como a nossa, na qual a visão é mais relevante que a escuta, há quem pague caro para ser escutado a fim de aliviar as suas dores, de juntar os seus cacos e de redimensionar os seus caminhos. Aliás, a escuta, independentemente do lado em que nos encontrarmos, previne e resolve conflitos, cura doenças e salva vidas. Para Lorenz Oken "o olho leva o homem para o mundo, o ouvido leva o mundo para dentro do homem"[1], razão pela qual precisamos escutar e ser escutados, atentamente. Pra começar, enquanto alguém fala o outro cala. Apesar dos inúmeros impasses, este é um exercício tão necessário quanto possível. Do contrário, não haverá diálogo, isto é, palavras que se alternam num certo equilíbrio, e querendo podem amar-se e fecundar-se sempre que se encontrarem.

Sob outra perspectiva, Joachim Berendt estabelece um paralelo entre o ver e o escutar. Segundo ele o ver é masculino e o ouvir é feminino. A pessoa voltada unilateralmente para o ver torna-se agressiva.[2] Isso leva-nos a concluir, então, que a pessoa voltada exclusivamente à escuta torna-se oprimida. Não obstante, Anselm Grün recorda que a audição leva-nos à obediência e é o mais emocional dos sentidos. De maneira que "muitas conversas fracassam porque não somos capazes de ouvir, porque desejamos impor nossos argumentos, sem querer escutar nas palavras do outro o que é novo, o que talvez pudesse nos levar adiante".[3] Hoje, isto também faz sentido frente aos avanços tecnológicos e retrocessos humanos. Assim sendo, a hospitalidade nas relações convoca-nos a encontrar o equilíbrio.

Considerando um caráter mais holístico, ecológico e espiritual, se não é fácil ou possível escutar as pessoas, tanto mais difícil será escutar a natureza, o cosmos, a si mesmo e o divino. Aliás, querer escutar o criador sem escutar a concretude e a materialidade de suas criaturas no mais corriqueiro da vida, na verdade, será algo praticamente impossível, pois o divino, por si mesmo, faz-se mudo para os padrões humanos de escuta. Suas cordas vocais não vibram na frequência que queremos ou estamos acostumados a ouvir. E, desconsiderando o fato dele comunicar-se quando, com quem e da maneira como quiser, qualquer um que o diga escutá-lo convencionalmente seria considerado mentiroso ou esquizofrênico e, por conseguinte, haveria de ser, imediatamente, encaminhado a fazer tratamento.

Para qualificar esta arte da escuta, a fim de construir relações mais significativas, será preciso, então, calar a boca, literalmente, dispor o corpo de um jeito acolhedor, olhando nos olhos, principalmente, e corresponder à fala do interlocutor, sem nada falar. Às vezes, faz-se necessário repetir o que foi dito para que a sintonia se restabeleça. Pedir licença antes de interromper uma pessoa, se necessário, e desculpar-se caso isto aconteça, agregará mais valor às relações. E o exercício constante disso será o segredo para uma escuta cada vez mais natural e fecunda. Entretanto, honestamente, quando as circunstâncias exigirem, também se dê o direito de não escutar. Ainda assim, diga ao outro quando não puder ou não quiser ouvi-lo para que esteja consciente e também faça bem feito quando o fizer.

Notas e referências
[1] OKEN, Lorenz. Apud GRÜN, Anselm. Se quiser experimentar Deus. Petrópolis: Vozes, 2001. p.120
[2] BERENDT. Joachim-Ernst. Apud GRÜN, Anselm. Se quiser experimentar Deus. Petrópolis: Vozes, 2001. p.124
[3] GRÜN, Anselm. Se quiser experimentar Deus. Petrópolis: Vozes, 2001. p.121

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