Lágrimas anunciam ressurreição

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Já sabíamos que ele encontrava-se enfermo e que ELA o santificava a cada dia. Mas o que era para ser sofrimento, apenas, tornou-se conversão e louvação, fez-se enredo e samba, tornou-se, enfim, apoteose. Entretanto, hoje, somos Martas e Marias cujo irmão querido acabou de partir. Também somos os próprios Lázaros, Marcelos ou Irineus. Somos com ele, nesse sentido, o Cristo companheiro querido, que não foge e vai ao encontro da morte. Por isso, acredito que em todos os tempos as lágrimas também anunciam a ressurreição. Aliás, hoje, o choro não é de desespero, pois Dom Irineu já se encontra, em definitivo, na Paz que ele, outrora, inspirou-nos a querer, ensinou-nos a buscar, desafiou-nos a entender, arrastou-nos a multiplicar e por ela convenceu-nos a orar e a lutar.

Hoje, aquele bocão que se enchia de canções e de sabedorias, de amenidades e de coisas que nem sempre entendíamos, enche-se com o sorriso da eternidade. Aquelas mãos que nos abençoaram e ampararam tantas vezes, que nos enxugaram lágrimas imaturas, que nos escreveram cartas de elogio e de cobrança, que nos encaminharam, que faziam questão de preparar e partilhar alguma comida, aquelas mãos que empunharam bandeiras pela paz - paz que não era pomba, mas era oliveira, que não era ausência de guerra, mas era construção cotidiana e coletiva, que não era sentimento, mas era suor - são as mesmas mãos que o receberão lá, no outro lado da avenida, pois elas só poderiam ser instrumentos que o próprio Deus usou para nos amar e mostrar o que e como fazer dali pra frente.

Hoje, aquele corpo que se enchia de orações e transpirava liturgias, que nos ensinava a ler a Escritura Sagrada sob a perspectiva da paz, a partir de suas próprias qualidades e limitações, erros e acertos, sonhos e desilusões, sem sequer camuflá-los, nem mesmo desmenti-los, confirma-nos que nem tudo podemos e nada somos sozinhos. Cheio de paixão e utopia, mestre e doutor e, às vezes, tão frágil e inocente, mostrava-nos por ele mesmo que o nosso Deus é carinhoso, mas também muito exigente, que é compreensivo, mas tremendamente crítico e chato, que quer nossa liberdade, mas, às vezes, enche-nos de responsabilidade e intermináveis tarefas quando, em certos momentos, nós estamos, apenas, querendo ser meninos e meninas, cidadãos do presente, protagonistas, sim, mas, nem tanto.

Hoje, o nosso monge deve estar extasiado diante de São Bento, Mahatma Gandhi, Luther King, Dorothy Day, Oscar Romero e Ricardo Wangen. Sim, Dom Marcelo-Irineu, agora corpo ressurgido, a essa hora, já deve ter entrado no Sambódromo da Paz Definitiva. Artista e arteiro, já deve ter retocado o vestido de Maria, cutucado uma dúzia de santos e, depois, recolhido-se num canto para escrever alguma coisa. Já deve ter conhecido o cozinheiro do paraíso e combinado que, no próximo domingo, ele mesmo ajudará preparar o banquete. Já deve ter, até, saudado o próprio Cristo, dizendo: "oi, cara de boi", como fazia com a gente. E já deve estar com o dedo indicador dobrado entre os dentes, bem preocupado com aquele nosso último rito solene, aquele cara a cara com o Senhor da Paz e da Vida.

O que continuamos sendo, conhecendo e fazendo, seja muito ou seja pouco, permanece impulsionado pela memória daquela criatura que já regressou aos braços do seu criador: o nosso Marcelo cara de marmelo ou Irineu cara de pneu. Não, não. Agora, cara de céu...!? Aliás, quando os mestres partem os discípulos é que se tornam herdeiros da missão, de modo que não temos mais por quem esperar. Somos tão somente ou todos nós. Se isto é assustador? É evidente que sim. Afinal, não somos mais os jovens de ontem, somos os adultos de hoje, com a mesma idade que ele tinha quando quis nos juntar para que, no Cristo Jesus, caminhássemos em busca da paz. Continuaremos este caminho espiritual? E o que estamos fazendo será suficiente para que amanhã nossos companheiros continuem sem nós? 

3 comentários:

  1. Júlio, lindo texto, belíssima memória na dança lúdica da vida, o que o Marcelo tanto nos ensinou: viver intensamente! Abraço

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  2. Você descreveu o Marcelo/Irineu com esmero e precisão. Vibrei com cada linha do teu artigo e me vi diante do Marcelo/Irineu, tal foi a forma que você o retratou. Aquele espírito irrequieto nos deixou grandes lições e grandes missões. Que nós consigamos percorrer ao menos metade do caminho que apontou! Cláudio Rezende Guimarães, irmão do Marcelo/Irineu, email: crgplus@hotmail.com

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  3. Quase não tenho palavras para exprimir o que senti lendo esse texto. É lindo, diz tudo que sabia e não sabia ao mesmo tempo, de uma pessoa admirável como Dom Irineu Rezende Guimarães, (antes, Padre Marcelo). Mesmo distante de nós, cinco anos que não o víamos, mas sempre mantendo contato, sentíamos bem ouvindo-o, vendo pela internet! Agora saudades e as nossas preces.

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