Recordando para dizer obrigado

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Vi uma fotografia do clero de Santa Cruz do Sul, diocese a qual me sinto ligado afetivamente. Afinal, minha família encontra-se lá, fui criado no meio desse povo, meu destino aí foi traçado, minha missão aí se configurou e, hoje, minha sede de Deus, de vez em quando, é saciada no Mosteiro Beneditino da Santíssima Trindade. Quanto à foto, minha primeira reação foi de surpresa e a segunda de gratidão. Fiquei surpreso porque a idade chegou para aqueles homens que conheci quando eu também era mais jovem. Logo, chegou para mim. E grato pelas lembranças que guardo como raízes profundas de uma árvore que anseia, constantemente, dar frutos que encham de horizontes a estrada daqueles que, debaixo de sua ramada, ousarem abrigar-se.

Na foto, procurei por Padre Antônio Puhl. Há muito não o via. Mas, nunca me esqueci daquele jeito tranquilo, despojado e bonachão. Quando o vi pela primeira vez estava sentado na escada de acesso à casa canônica. Recém havia chegado para assumir nossa paróquia. Depois de ter preparado um chimarrão e termos conversado sobre meu ingresso no seminário, voltando pra casa, meu pai comentou: este padre gosta do povo. Alguns dias depois, nos acompanhou até o Seminário Sagrado Coração de Jesus, em Arroio do Meio. Sempre que possível nos visitava e aquele seu jeito orante e acolhedor até inspirava-me a imitá-lo, para fazer graça, presidindo as celebrações. No Natal e na Páscoa eu gostava de ficar com ele. E, embora, hoje, distante o tenho como alguém muito especial.

Entre todos, Padre Zé Renato Back é com quem ainda tenho mais contato. Ao chegarmos a Arroio do Meio, foi ele quem nos acolheu, abrindo-nos a porta, literalmente. Ao tocarmos a campainha, um guri loiro apareceu para atender-nos. Pensei que fosse algum colega. Mas, na verdade, era o novo reitor do seminário. Chegamos juntos naquele ano. Sua energia motivava a gurizada ao futebol. Quanto a mim, não via sentido algum naquilo. Contudo, sua alegria, seu jeito de tratar as pessoas, de lidar com a liturgia, de tocar e cantar, de incentivar-nos a preparar bem as orações e celebrações era e continua sendo um grande testemunho. Hoje, aqui e acolá, nos encontramos e muito me alegro por perceber que comungamos dos sonhos e ideais de justiça e solidariedade para este mundo tão fragmentado.

Padre Dionísio Kist também estava na foto. Foi ele quem me acolheu na paróquia Santa Tereza, em Vera Cruz, quando saí de Arroio do Meio para concluir o Ensino Médio no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Santa Cruz do Sul. Aquele ano era tudo o que eu queria e precisava: aprendi tocar violão para ajudar na animação das comunidades, iniciamos o grupo de coroinhas, acompanhávamos as equipes de celebração e meu gosto pela liturgia amadureceu, graças ao incentivo do Didi, muitas vezes, sem dizer uma única palavra. Mas, sua orientação dava-se na liberdade para arriscar e nas breves dicas e solicitações pastorais que fazia. Com ele experimentei o dia a dia da paróquia e aprendi a necessidade de investir na formação de lideranças leigas se quisermos um povo sacerdotal.

Outros padres também cruzaram o início do meu caminho, mas estes estão tatuados em minhas memórias mais antigas. E meu coração será sempre agradecido por terem sido presença tão marcante e motivadora, cada um a seu jeito, em diferentes épocas, maturidades e necessidades minhas. Por isso, gostaria de ser um dos leprosos que volta para agradecer e para dizer o quanto o trabalho e a missão de cada um se reflete nas escolhas, no trabalho e na missão de educar que exerço, hoje. E não tenho dúvida de que também ecoa em outras pessoas que se fazem anônimas, nos seus tantos anos de presbitério provado e desafiado pelo divino da vida e do tempo. Talvez, escrever e ler estas despretensiosas palavras não mude nada. Mas, é sempre bom dizê-las, porque sempre é bom saber.

2 comentários:

  1. Traudi Sehnem25/9/15 19:18

    Pois é Júlio... Lendo este seu texto, também me senti na obrigação de agradecer.. Agradecer a você que me convidou e me motivou a participar da liturgia, animação e catequese pelo qual me apaixonei tanto... Um pouco afastada da catequese, mas na liturgia e animação continuo ativa e amo por demais... Obrigada mais uma vez.. Abraço.

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  2. Traudi, minha irmã querida, quanta risada já demos juntos, hein!? Você foi e continua sendo uma mulher de fibra, uma liderança que qualquer uma de nossas comunidade se orgulharia de ter. O bom é quando a gente se deixa usar pelo Divino... Nem sempre deixamos... Isso eu não sabia... que você continua... E, é sempre bom saber... Meu beijo fraterno, mais uma vez!

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