O dilema das perseguições cristãs

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal. Obl. OSB)

Inúmeros conflitos registrados no mundo envolvem questões religiosas, seja direta ou indiretamente. E o Cristianismo, considerando as suas múltiplas faces, igrejas ou denominações não se encontra fora dessa estatística. Até porque algumas tradições religiosas carregam uma semente de exclusividade salvífica que, ao cair sobre o chão da insegurança, ser regada a fundamentalismos, adubada com fanatismos sob a luz de autoritarismos, só poderá vingar e dar frutos sangrentos. Dificilmente as suas sombras abrigarão alguma diversidade sob a acusação de incômodo e ameaça à fé vigente. Nesse sentido, poucas tradições podem eximir-se da ambiguidade sádica e histórica da perseguição, ciclo vicioso que parece não ter fim: quando não são perseguidas estão perseguindo.

O próprio Jesus foi perseguido e morto. Muitos de seus seguidores o foram também. Alguns porque, tal qual o Mestre, desafiaram sistemas opressores. Outros por serem cristãos, o que, por si só, em certos contextos, já é um ato transgressor. Atualmente, países como Irã, Iraque, Paquistão, Sudão, Afeganistão, Quênia, Líbia, Nigéria, Etiópia, Síria, Indonésia e Coréia registram alto índice de violência contra o Cristianismo. Em geral, são países onde o Islamismo mantém instâncias de domínio e poder. Segundo o Vaticano, cerca de cem mil cristãos, de várias confissões, são assassinados anualmente. Mas também no Brasil, dezenas de irmãos e irmãs enfrentam a morte por denunciarem, por exemplo, a devastação ambiental, a grilagem da terra, o extermínio de jovens e a truculência policial-militar.

Contudo, como cristãos, não podemos olhar para a barbárie dos outros, tal como para os grupos extremistas islâmicos, sem enxergar nosso próprio passado, quando também fomos protagonistas da intolerância, do terror e da carnificina, pois ao estabelecer-se como religião oficial, muitos de nossos antepassados na fé perseguiram e mataram. Provavelmente, alguns até estejam sobre nossos altares. Acaso, poderíamos ignorar a inquisição e as cruzadas, a perseguição aos protestantes europeus e aos puritanos durante a colonização norte-americana? Há pouco tempo, na Irlanda do Norte, por exemplo, católicos e protestantes não se contentavam em excomungar-se e matavam-se mutuamente. Tal prática, verdadeiramente, sob quaisquer formas, é incoerente, cruel, abominável e desnecessária.

Quando nossa própria história nos condena fica difícil detectar, de maneira simplista, bandidos e mocinhos, de modo que os extremistas desta ou daquela tradição religiosa não são perigosos somente para os outros. Mas, há quem se envergonhe, arrependa-se, desculpe-se e aprenda com os próprios erros. Outros, porém, rumam aos velhos equívocos, como a Igreja Universal do Reino de Deus e seu exército recém criado. Pois, quando religiosidade e militarismo se juntam já deveríamos saber o resultado que dá. Em nada difere das Cruzadas Católicas, do Estado Islâmico e do Exército Israelense. Evidentemente, tais barbáries nunca foram unanimidade entre os seguidores de quaisquer tradições, pois sempre há quem veja com um pouco de lucidez e procure estabelecer outras formas de relação. 

Para a mãe Igreja somos santos e pecadores, mas no esforço da conversão pessoal, todo dia. E, desconsiderando as exceções, ainda que não sejam poucas, como católicos, vivemos um tempo de reflexão institucional sobre a nossa verdadeira vocação no mundo: “dê a outra face”, “guarda a tua espada na bainha”, isto é, experimente e mostre que outro jeito de viver e conviver é possível, de modo a redescobrirmo-nos filhos da paz, a fim de interromper o espiral da hipocrisia, do abuso e da violência escondia sob o manto do sagrado, reforçado nos púlpitos, nas mídias e nas escolas. E isso só é possível ao considerarmos certa crítica e a autocrítica, pois nesses novos tempos, nada justifica a tortura e a morte de qualquer ser humano. Menos ainda sob a prerrogativa de que assim Deus o quer.

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