Agentes litúrgicos na escola

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

O desafio do fazer litúrgico no contexto escolar difere-se de outras realidades. Dentre as razões está o fato da escola, na contemporaneidade, ainda que confessional, abrigar uma ampla diversidade cultural e religiosa. Some-se a isto o despreparo de muitos agentes de pastoral, primeiros responsáveis pelo amadurecimento evangélico-litúrgico-espiritual da comunidade educativa, ainda que sejam consagrados ou ordenados e, por isso, quem sabe, sentem-se sabedores inquestionáveis da litúrgica cristã. Em tais realidades vemos crianças, adolescentes e adultos conduzidos a um faz de conta litúrgico exaustivo, racional e entregues a ritualismos medíocres e descontextualizados, de maneira que isto deveria inquietar-nos um pouco mais, se é que nos inquieta.

A partir da Pastoral Escolar faz-se necessário e possível a construção de uma espiritualidade litúrgica inspiradora e transformadora, integradora do corpo, da alma, da mente e do outro, onde crianças e adolescentes, principalmente, possam ensaiar seu protagonismo também nessa dimensão da vida. Contudo, sem psicologismos, nem dinâmicas de grupo, pois a isso não deveria prestar-se a liturgia cristã. Nessa perspectiva, uma vez por mês, experimentamos convidar alguns estudantes do Ensino Fundamental para motivar seus colegas e professores a um momento de oração pela paz.[1] E, tornando-nos cada vez mais cientes de contribuirmos para a formação de um povo sacerdotal, rezando a vida e suscitando novas lideranças religiosas, mais tarde tal experiência se ampliou.[2] 

O serviço litúrgico escolar, então, passou a ser formado por cinco estudantes de cada turma, um para cada dia da semana, confirmados por seus colegas num breve e significativo rito de acolhida e de envio. A esses estudantes passamos a chamar Agentes Litúrgicos. Todos os dias, no início das aulas, pela manhã e também à tarde, o objetivo de cada agente era motivar e conduzir uma brevíssima oração com suas respectivas turmas. Um dado curioso era termos, constantemente, dentre os agentes, crianças e adolescentes de diferentes denominações religiosas e, até mesmo, quem se considerasse ateu. Mas, isso nunca foi problema para nós. Ao considerarmos a significativa fase de descobertas na qual se encontram as pessoas nessa idade, porque não se descobrirem seres humanamente integrais?

Tendo por fundamento inquestionável os tempos litúrgicos da Igreja, nosso ponto de partida era os elementos do Ofício Divino das Comunidades[3], ou seja,  experimentava-se por alguns dias o silêncio, a abertura, a recordação da vida, um hino, um salmo, versículos bíblicos, preces pré-elaboradas, orações espontâneas, o Pai nosso, a bênção, a partilha de alimentos, o acendimento de uma vela e a admiração de algum ícone. Pois, além de não se tornar enfadonho, uma vez conhecidos tais elementos, quando o ofício era rezado integralmente, todos os elementos já estavam assimilados. Para tanto, os Agentes Litúrgicos reuniam-se, sistematicamente, em pequenos grupos, com o objetivo de rezar, estudar, exercitar, avaliar e planejar suas ações, resultando disso alguns valiosos subsídios.

Ora, para a tradição cristã católica a liturgia é o fundamento de toda a sua espiritualidade. E, na perspectiva da civilização do amor, o novo reinado de Deus, cabe à Pastoral Escolar olhar com maior fidelidade e perspicácia a vida e a caminhada de suas crianças, adolescentes e jovens, bem como dos próprios adultos envolvidos em tal contexto, ensinando-os a serem apóstolos de seus semelhantes, sujeitos de libertação e protagonistas de um jeito sempre novo de viver, amar e rezar. Entretanto, a eficácia dessa vivência litúrgico-pedagógico-pastoral dependerá, em grande parte, da capacitação e persistência de agentes que, ao levarem em consideração o bom senso, reinventem cuidadosamente a tradição, a fim de possibilitar e testemunhar maneiras profundas e coerentes de cultivo espiritual.

Notas e referências
[1] Colégio Auxiliadora, das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, ICM, Rio Pardo, RS, 2000 a 2005, com a parceria inestimável de Ir. Terezinha Volpato e Prof. Mariza Baierle.
[2] Colégio Santa Inês, das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, IENS, Porto Alegre, RS, 2004 a 2012, com a parceria inestimável de Ir. Veroni Medeiros e Ir. Josete Rech.
[3] VÁRIOS AUTORES. Ofício Divino das Comunidades. São Paulo: Paulus, 1994.

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