Religiosidade: do prescrito ao praticado

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal. Obl. OSB)

Para quem estuda, nenhuma definição é completa o bastante para pressupor-se verdade inquestionável e definitiva. Em uma constante dialética, conceitos são criados, reinterpretados e também refutados. Ora, as ciências da religião, e com base nelas o componente curricular de Ensino Religioso, integram a área das ciências humanas. Contudo, para além da polêmica entre sociólogos, antropólogos e teólogos sobre a chamada religiosidade popular, em contraposição à religiosidade elitizada, é sensato assumirmos com Henk Driessen[1] os termos religiosidade prescrita e religiosidade praticada[2], visto que nosso principal objetivo aqui é discutir o envolvimento dos adeptos das tradições religiosas e caminhos espirituais no que se refere ao cultivo de sua busca transcendental.

Religiosidade prescrita - É a religiosidade preestabelecida, ordenada, ensinada e cobrada por uma determinada tradição a fim de que seus adeptos tenham noção do caminho a seguir. Uma hierarquia, oficial ou não, procura garantir a prática desta religiosidade prevista e padronizada. Esta prescrição busca manter uma coerência doutrinal institucionalizada. Nesse sentido, a escrita torna-se importante instrumento para canonizar, regular e definir tais doutrinas no intuito de que a mesma orientação seja válida para todos os adeptos, onde quer que estejam, tal como foi estipulada. Contudo, a oralidade também procura garantir objetividade e rigidez. E, caso algum membro da respectiva tradição não cumpra os preceitos estabelecidos, corre o risco de ser advertido, excomungado, torturado ou morto.

Religiosidade praticada - É a religiosidade assimilada e praticada, consciente ou inconscientemente. Ela poderá ser prescrita e regrada oficialmente por uma determinada hierarquia ou manter-se livre para incorporar novas práticas e doutrinas quando bem quiser. Na prática, o adepto assumirá uma coerência muito mais pessoal que institucional. Pessoas e tradições religiosas que não possuem uma hierarquia definida para supervisioná-las têm muito mais liberdade para reinterpretar suas crenças segundo suas próprias necessidades psicológicas, antropológicas, teológicas ou sociais. Se isto poderá ocorrer sob uma definição escrita, tanto mais será sob uma definição oral. De maneira que a prática está propensa a um sincretismo mais imediato, pois é mais aberta no entendimento e vivência da fé.

Religiosidade sincrética - É a religiosidade que une várias práticas e prescrições. Há quem acredite na ressurreição quando sua tradição oficial fundamenta-se na reencarnação. E o contrário é, ainda, mais comum. Há quem obtenha graças, curas e milagres por intercessão de santos, mesmo que estes não sejam reconhecidos institucionalmente. Há quem acredite em assombração, comunique-se com anjos e espíritos, submeta-se a cirurgias espirituais, acredite em mau agouro, faça mapa astral, não passe debaixo de escadas, receba a eucaristia e alimente-se de Ave Marias, prescrições desaconselhadas por sua tradição. E, há quem na quarta-feira receba um passe, na quinta vá à sessão do descarrego, na sexta bata cabeça no congá, no sábado frequente o rito maçônico e no domingo vá à missa comungar. 

Segundo Sérgio Ferretti toda cultura, como toda tradição religiosa ou caminho espiritual, “constitui fenômeno vivo, dinâmico, contraditório, que não pode ser enclausurado numa visão única, cartesiana, intelectualizada, petrificadora e empobrecedora da realidade.”[3] Nessa perspectiva, poderíamos citar muitos mestres fundadores, seus discípulos e demais seguidores os quais iniciaram suas respectivas tradições e instituições reinterpretando outros sistemas religiosos, de maneira que, diante da tradição anterior, esse novo grupo praticaria algo não prescrito o qual, mais tarde, passou a ser oficializado sob outras decisões e regramentos. Contudo, por que alguém que deseja comer pão reuniria todos os ingredientes para fazer uma feijoada? E, não bastando isso, substituiria o feijão por leite ou bacalhau?

Notas e referências
[1] Henk Driessen é professor de Antropologia Cultural.
[2] DRIESSEN Apud FERRETI.
[3] FERRETTI, Sergio. Religião e cultura popular: estudo de festas populares e do sincretismo religioso. Disponível em: Acesso em: 05.04.2015.

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