As festas de um ciclo sem fim

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Desde tempos antigos, a vida e suas circunstâncias chamou a atenção do ser humano. Para o professor Renato Las Casas,[1] um observador atento percebia que, de tempos em tempos, o sol mudava sua rota, a lua não se mostrava sempre igual, as sombras se moviam, frio e calor se alternavam,[2] flores e frutos amadureciam, as fêmeas entravam no cio, os seres nasciam, cresciam, multiplicavam-se e morriam. Para compreender tais ciclos, nos mais diversos contextos, os humanos identificaram, relacionaram, registraram e estabeleceram sistemas e rituais, de maneira que surgia a consciência do tempo e a construção dos calendários os quais definiam e celebravam períodos, crenças, pessoas e acontecimentos especiais, depois entendidos como manifestações culturais religiosas.

Ligadas aos diversos ciclos da vida, tais manifestações assumem caráter público. Entendo que elas celebram a natureza e suas estações: sol e lua, luz e escuridão, caça e pesca, semeadura e colheita, chuva e estiagem, frio e calor; celebram o humano e suas relações: nascimento e morte, maioridade, casamento e consagração, fatos e crenças, testemunhos e personalidades, ideologias e libertação; celebram o divino e seus mistérios: passado e futuro, criação e conservação, revelação e ascensão, interferência e destruição. Nesse sentido, as memórias e os princípios que orientam determinada tradição religiosa são ritualizados com datas e expressões exclusivas. Entretanto, muitas festas, ao longo da história, ganharam novos significados e contornos ao serem assumidas por outras tradições.

Estas celebrações diferem de outras comemorações por causa de seu caráter espiritual, imanente e transcendente. Ou seja, as festas e festivais religiosos são atualizações dos mitos. Elas representam o que os deuses fizeram, fazem ou farão. Algumas duram um dia, enquanto outras chegam a estender-se por semanas ou meses. Assim, os calendários religiosos caracterizam-se por uma sucessão de solenidades e dias festivos. Tais acontecimentos são demonstrados através de símbolos e rituais. Nesta perspectiva encontramos jejuns e privações, graças e oferendas, comidas e bebidas, roupas e objetos, promessas e sacrifícios, procissões e romarias, músicas e danças, silêncios e cantorias, súplicas e louvações, de modo que todos estes elementos são usufruídos de maneira extraordinária.

Para Émile Durkheim[3], nos dias de festa a vida atinge grau de excepcional intensidade e estes teriam surgido da necessidade de separar o tempo em dias sagrados e dias profanos.[4] Para Sérgio Ferretti[5], tais comemorações constituem, sim, assunto fundamental na realidade cotidiana das diversas camadas populares. E, concordando com Durkheim, Ferretti afirma que “a rotina diária é interrompida muitas vezes ao longo do ano, pela organização ou a participação em diversas festas, que assinalam a quebra periódica desta rotina. Para os que as organizam, as festas não representam propriamente momentos de lazer, mas de trabalho, intenso e prazeroso, no seu preparo e na sua realização.”[6] Contudo, ainda podemos nos perguntar: qual é mesmo o sentido da festa e do festejar?

Ao tornar célebres os ciclos da vida, o ser humano faz a manutenção de suas relações e se recoloca no mundo. Afinal, toda celebração tem um componente ancestral que reconcilia mitologicamente as pessoas consigo mesmas e com seus semelhantes, com os elementos da natureza e com as forças do universo, com o sentido de sua existência e com aquilo que a transcende. As festas fazem dos desejos individuais opções coletivas, abrindo espaço para sonhos e projetos comuns. Desde o ponto de vista social, psicológico, teológico e antropológico, celebrar contribui para reafirmar laços. E, ao manifestar publicamente suas crenças e convicções, determinado grupo social ou tradição religiosa fortalece as suas pertenças.[7] Daí, a conclusão de que os ritos são a força da cultura, o que a faz viver e reviver.

Escute
O Império do divino. Samba enredo do GRES Império Serrano, 2006. https://www.youtube.com/watch?v=MK_tyn8XUhY&app=desktop

Notas e referências
[1] Renato Las Casas é físico e professor da Universidade Federal de Minas Gerais.
[2] LAS CASAS, Renato. Calendário. Disponível em: http://www.observatorio.ufmg.br/pas39.htm. Acesso em 01.02.2015.
[3] 
Émile Durkheim foi sociólogo, psicólogo social e filósofo francês (1858-1917). 
[4] DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Paulinas, 1989. p. 372-373.
[5] Sérgio Ferretti é professor de Antropologia da Universidade Federal do Maranhão.
[6] FERRETTI, Sergio. Religião e cultura popular: estudo de festas populares e do sincretismo religioso. Disponível em: 05.04.2015.
[7] VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Curitiba: Nossa Cultura, 2013.

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