Etimologia: um desafio interdisciplinar

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

O conhecimento é uma construção quase totalmente coletiva. Apesar disso, certos saberes podem parecer-nos encerrados em si mesmos, simplesmente porque assim nos foram ensinados. A própria função de cada componente curricular é recortar certas realidades a fim de proporcionar um aprofundamento específico daquilo que se considera relevante num determinado contexto. E tão somente isto. Sendo assim, ajudar o estudante a estabelecer relações é tarefa de todos os professores e componentes, de maneira que uma boa ferramenta para isso é o domínio do vocabulário que envolve as diferentes áreas do conhecimento. Aliás, se prestarmos mais atenção na linguagem veremos o quanto há palavras específicas a cada segmento, ao passo que outras são de uso bastante abrangente. 

É evidente que a formação de um determinado idioma se dá histórica e dinamicamente, isto é, com o passar do tempo, inúmeras influências agregam-se ocasionando sutis ou profundas transformações ao mesmo. A língua portuguesa, por exemplo, tal qual a francesa, a espanhola, a italiana, a romena e seus respectivos dialetos, tiveram sua origem na língua latina, a qual também foi substancialmente influenciada pela língua grega. O latim e o grego, por sua vez, baseiam-se no antigo idioma indo-europeu. No Brasil, o vocabulário teve, ainda, significativa influência de línguas indígenas e africanas, dentre outras. Logo, para melhor compreendermos o sentido das palavras usadas nas diversas áreas e contextos, faz-se necessário buscarmos não apenas os seus sinônimos, mas também a sua etimologia.

A começar por ela mesma, sabemos que a palavra etimologia tem raízes na grécia.[1] Étymon ou ἔτυμον significa verdadeiro, essencial, original. Lógos ou λόγος significa palavra, ciência, tratado e estudo.[2] Etimologia, portanto, é o ramo da gramática que trata da origem das palavras e explicação de seus significados através da análise dos elementos e das regras que as constituem historicamente.[3] Todavia, para além desse aspecto mais técnico, a etimologia é uma atividade fascinante, pois essa descoberta pode transformar-se num jogo em que o encaixe de cada peça faz-nos ver a alma por trás de letras aparentemente vazias. Aliás, ao sabermos o significado de determinado étimo, isto é, raiz, prefixo e sufixo, descobriremos o significado, ao menos parcialmente, de inúmeras outras palavras.

Tal estudo mostra-nos que os vocábulos obedecem a certos ciclos, isto é, nascem, desenvolvem-se, têm um apogeu e, às vezes, morrem ao caírem em desuso, inclusive, desaparecendo com seu idioma inteiro. Ao longo desse processo, seu sentido e sua forma podem alterar-se profundamente,[4] assim como também podem reaparecer tempos depois, tendo migrado de um idioma a outro. Exemplo disso é a palavra deletar, aparentemente um neologismo. Porém, o verbo deletar vem de delere que, em latim, significa apagar[5] e migrou do francês para o inglês no século quinze. No português, acabou derivando o adjetivo indelével, ou seja, o que não se apaga e, finalmente, na transição do milênio, na forma de verbo e com o sentido original, deletar reapareceu na língua portuguesa, vindo do inglês.[6]

Considerar a etimologia como ferramenta básica da sala de aula lembra-me o depoimento ofegante de um grupo de crianças que venceu uma tarefa de gincana, bem como o entusiasmo de adolescentes que retornam contando o quanto isto lhes é útil. De maneira que a busca pela origem das palavras para que se compreenda os conceitos pode tornar-se extraordinário instrumento de uma construção cada vez mais interdisciplinar do conhecimento. E, tanto quanto saber de cor, no sentido etimológico, isto é, saber de coração, prontamente e sem qualquer consulta,[7] é preciso sempre identificar os contextos. Por isso, muitos conteúdos estudados nos diversos componentes curriculares, ao serem fundamentados na etimologia, trarão grande contribuição a todo o processo de ensino-aprendizagem.

Notas e referências
[1] Cf. ORIGEN DE LAS PALABRAS. Disponível em: http://etimologias.dechile.net/. Acesso em: 05.03.2015.
[2] Cf. DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Dicionário Grego-Português/Português-Grego. Porto: Porto Editora, 2008.
[3] Cf. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Editora Objetiva, 2001.
[4] Cf. ORIGEM DA PALAVVRA. Disponível em: http://origemdapalavra.com.br/site/#home_desc. Acesso em: 05.03.2015.
[5] Cf. DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Dicionário Latim-Português/Português-Latim. Porto: Porto Editora, 2012.
[6] Cf. SCHÜTZ & KANOMATA. Disponível em: http://www.sk.com.br/sk-hist.html. Acesso em: 05.03.2015.
[7] Cf. DICIONÁRIO INFORMAL. Disponível em: http://www.dicionarioinformal.com.br/saber%20de%20c%C3%B3r/. Acesso em: 05.03.2015.

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