Peripateia das religiões: uma proposta

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Peripateia ou περιπέτεια, no grego, deriva de peri = ao redor, em volta de + patein = errante, ambulante, itinerante, ou seja, ‘caminhar ou andar ao redor’. O termo define a maneira pela qual o filósofo grego Aristóteles costumava ensinar, por volta de 336 a.C.. Conta-se que o mesmo costumava lecionar empiricamente, caminhando de forma compassada pelo perípatos, isto é, ensinava andando debaixo dos portais e corredores do Liceu de Atenas, além de ler e fazer preleções ao ar livre, perambulando pelas imediações, debaixo de um bosque consagrado ao deus Apolo,[1] razão pela qual seus discípulos eram chamados peripatéticos e seu método conhecido por escola peripatética. Aliás, esta prática também não era comum a certos mestres religiosos do passado?

Inspirados nessa experiência os professores Gilbraz Aragão, Vanderlei Lain, Luiz Moura e Artur Peregrino, da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP, a cada semestre, realizam com seus alunos dos cursos de Humanidade e Transcendência, bem como de Ciências da Religião o que chamam, muito apropriadamente, peripateia das religiões abraãmicas. Segundo os mesmos professores, o passeio por espaços representativos das religiões abraâmicas é uma caminhada rumo ao diálogo com as tradições espirituais presentes na região metropolitana do Recife, no intuito de partilhar e discutir as visões do sagrado dos outros, procurando superar preconceitos e aprofundar conceitos na perspectiva da construção de uma cultura de paz,[2] a partir das tradições religiosas.

Visitar diferentes espaços sagrados, como laboratório de estudo, não é uma prática comum. Por isso, é preciso superar o proselitismo religioso, as sombras do medo, o desconhecimento metodológico e as dificuldades logísticas para que esta deixe de ser episódio e consolide-se como método. Nesse sentido, desde o início de minhas atividades docentes, em Sinimbu[3] e Rio Pardo[4], também vejo isso como necessidade e desafio. Até porque, para a maioria dos estudantes, é uma oportunidade ímpar de admiração e estranhamento do universo religioso para além do que estão acostumados, a fim de ampliar seus horizontes culturais num mundo tão diverso. [5] Contudo, o Ensino Religioso, ao centrar-se na releitura do fenômeno religioso, transcende qualquer adesão ou diálogo inter-religioso. 

Segundo os professores da UNICAP “é preciso disposição para ir ao encontro do outro e conhecê-lo, fazer-se próximo; é necessário deslumbramento com o rosto da alteridade que nos interpela com seu jeito de viver e acreditar; é urgente focar na cura das feridas humanas e na cultura de compaixão.”[6] Em vista disso, então, seja feita uma cuidadosa preparação das pessoas envolvidas. O anfitrião e os visitantes devem ser sensivelmente respeitosos e isto também passa pelas regras do lugar onde se está, isto é, por melhor que seja a acolhida evite-se constrangimentos, inclusive quanto ao uso do celular. É preciso que o outro surpreenda-se positivamente e a cordialidade sobreponha-se a toda e qualquer rusga. E quanto aos conteúdos, não há por que esgotá-los sob o pretexto de voltar.

Nessa mesma perspectiva, elaboramos uma lista de instituições religiosas localizadas na região metropolitana de Porto Alegre, tentando contemplar a maior diversidade possível. Embora tenhamos encontrado certa indiferença, desconfiança e despreparo por parte de algumas lideranças religiosas, a maioria demonstrou-se muito amistosa, acolhedora e solícita, de modo que, devidamente agendado, é possível disporem-se a receber grupos de estudantes, tal como alguns já o fazem. Aliás, hoje, os bons líderes já não fazem mais proselitismo, mas consolidam diálogos. Com isso, fica o desafio para cada educador elaborar um roteiro religioso do seu próprio bairro, cidade ou região, a fim de realizar uma significativa peripateia das religiões e conhecer a diversidade que, certamente, aí também existe.

Referências
[1] Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_peripat%C3%A9tica. The Stanford Encyclopedia of PhilosophyThe Lyceum. Acesso em 15.12.2014.
[2] Disponível em: http://www.unicap.br/observatorio2/?p=1351#sthash.fhtR3BHY.dpuf. Acesso em 15.12.2014.
[3] Curso Normal do Colégio Nossa Senhora da Glória, das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição de Maria de Bonlanden, Sinimbu, RS, 1999 a 2004.
[4] Ensino Médio do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, Rio Parto, RS, 2000 a 2005.
[5] Nosso roteiro compreendia um templo budista, um terreiro de batuque, um centro islâmico, um mosteiro cristão e uma sinagoga, ou seja, extrapolava as religiões abraâmicas.
[6] Dispinível em: http://www.unicap.br/observatorio2/?p=1351#sthash.fhtR3BHY.dpufAcesso em 15.12.2014.

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