Ele sabe quem eu sou

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Rubem Alves, teólogo, educador e escritor brasileiro, afirma que Deus costuma ver o mundo com os olhos de uma criança.[1] Não obstante, acredito que Ele também veja o mundo e a vida com os olhos de uma pessoa adolescente, pois, às vezes, esconde-se por estar envergonhado e revela-se exageradamente de uma forma que não temos capacidade para entender muito bem. Ele quase não faz nada sozinho, sempre deseja contar com a companhia dos seus amigos. Às vezes, entra em crise, faz muitos planos, idealiza coisas, sonha grande, deixa o tempo fluir. É crítico e chato, nem tudo lhe agrada. É agitado e também pacato, faz de conta que não nos escuta e responde quando bem quer. Aliás, é um sujeito que não tarda em tirar a nossa paciência. Afinal, sua lógica é outra.

Nosso Deus é dinâmico, transforma-se na relação individual e coletiva. E, por agir dessa forma, não se deixa enquadrar ou manipular. Ninguém sabe ao certo o que surgirá de suas entranhas. Ele é mistério, é surpresa, é sempre o mesmo e é também sempre novo.[2] Por isso, admite Rubem Alves: “Meu Deus: que belos e infinitos são os teus nomes! Tu és sempre chamado pelo nome do nosso desejo mais intenso”.[3] E quando ele confia também escuta, alegra-se e responde pelo mais íntimo apelido que receber. Ele achega-se. É capaz de passar muito tempo escondido no quarto, ouvindo música, jogando, experimentando-se; batendo-papo, dando um rolê com os amigos, tomando chimarrão com pipoca, ensaiando namoros e transgressões, bagunçando ou nada além do que estar ali junto, simplesmente

Não é de estranhar que o salmista reconheça que Deus lhe é tão íntimo e o conhece profundamente. Aliás, desde as entranhas de sua mãe, quando o tecia misteriosamente. Por isso, ele encanta-se: “meu coração penetras e lês meus pensamentos; se sento ou se levanto, tu vês meus movimentos, de todas as minhas palavras, tu tens conhecimento”.[4] Sendo assim, o pai de Jesus Cristo, por acaso, seria capaz de abandonar qualquer uma de suas criaturas? Não, ele jamais o faria, principalmente enquanto estas ainda estiverem em fase de criação, precisando de seu toque, de sua beleza, de seu acabamento constante, de sua energia e do seu sopro divino. De fato, assim podem encontrar-se aquelas pessoas adolescentes: crescendo, desabrochando, transformando-se nas entranhas de sua mais intensa vida.

Segundo John Conger, psicólogo norte-americano, a adolescência é um tempo de transformações imediatas e intensas como “em nenhuma outra fase da vida, dos dois anos de idade em diante”.[5] Com ressalva a certas nuanças culturais, a radicalidade desse processo atinge a integralidade do humano, ou seja, suas dimensões física, psíquica, espiritual e social. Por isso, as pessoas adolescentes podem sentir-se inseguras, angustiadas, desnorteadas, desconfiadas e estranhas a tal ponto de nem conseguirem nomear suas próprias emoções e sentimentos. Afinal, suas células estão em acelerada multiplicação e o corpo não é mais o mesmo; a capacidade de abstrair dá asas à imaginação e os pensamentos deliram; as relações ganham novas referências e os amigos assumem o lugar dos pais.

Então, porque a dimensão espiritual estaria alheia a este alucinado processo de transformação? Ao concebermos um ser humano integral, todas as suas dimensões estarão entrelaçadas, dependendo-se e influenciando umas às outras. Por essa razão, as imagens e analogias que se tinha do divino também sofrerão alterações em vista de um processo de amadurecimento na fé. Nessa perspectiva, Ludwig Feuerbach, filósofo alemão e pai do ateísmo contemporâneo, diz que "a consciência de Deus é autoconsciência; o conhecimento de Deus é autoconhecimento. A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação de seus pensamentos íntimos, a confissão aberta dos seus segredos de amor”.[6] Até porque não há como falar do divino a não ser recorrendo aos nossos eus.

Confira
LIMA, Julio Cesar De. A espiritualidade da pessoa adolescente. In: Revista Redemoinho. São Leopoldo: Trilha Cidadã. Nº 13 - Abril, 2011.

Notas e referências
[1] Cf. ALVES, Rubem. Espiritualidade. 3 ed. Ampliada. São Paulo: Papirus, 2004. p. 34.
[2] Cf. SANTO AGOSTINHO. Confissões. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
[3] Cf. ALVES, Rubem. Pai nosso: meditações. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 44
[4] Cf. VELOSO, Reginaldo. Ofício divino das comunidades. São Paulo: Paulus, 1994. p. 185
[5] Cf. CONGER, John. Adolescência: geração sob pressão. São Paulo: Harbra, 1979.
[6] Cf. FEUERBACH. Lwdwig. Apud ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 1999.

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