Reformas das tradições religiosas

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Na história das religiões costuma-se associar a palavra reforma quase que exclusivamente aos protestos contra o Catolicismo Romano, no século XVI, quando Martinho Lutero foi, inegavelmente, um dos mais notáveis protagonistas ou representantes. Contudo, consideremos como reforma os inúmeros movimentos que justificam e dinamizam o fenômeno religioso, originando, a partir de tradições matriciais, subdivisões, ramificações, seitas, facções, segmentos, caminhos, escolas, linhagens, correntes, partidos, grupos, congregações, comunidades, fraternidades, denominações, confissões, igrejas, credos, ritos, ordens, doutrinas e novas expressões religiosas. Afinal, as tradições religiosas são frutos históricos de pequenas e grandes formulações e reformulações. 

Partindo da análise do verbo reformar, concluiremos que este significa formar de novo, renovar, reparar e refazer. E os motivos que provocam tais ações são os mais diversos. Uma análise, ainda que ampla, identificará, por exemplo, questões de ordem ritual, cultural, econômica, política, social, hierárquica e até geográfica, as quais, via de regra, são discutidas em reuniões, encontros, assembleias, capítulos, concílios e sínodos, em âmbito local, regional e mundial. O intuito é observar e ver, refletir e julgar, analisar e avaliar, meditar e orar, decidir e planejar estratégias segundo a proposta do fundador ou do princípio fundante da respectiva tradição. Nessa perspectiva, penso que podemos classificá-las, basicamente, sob duas categorias, a saber: reformas internas e cismáticas. 

As reformas internas partem dos esforços de determinadas lideranças ou grupos religiosos, no intuito de modificar ou atualizar internamente as doutrinas e fundamentos de sua respectiva tradição. Pois, geralmente, num primeiro momento, liderança alguma pretende romper totalmente com a tradição da qual é parte. A intenção é propor uma retomada dos primeiros sonhos e princípios fundantes, muitas vezes esquecidos, perdidos ou corrompidos, garantindo, com isso, novos horizontes a todo o grupo de adeptos ou seguidores que comungam de tais crenças e ideais. A conseqüência poderá ser a confirmação da total unidade ou o surgimento de tendências, movimentos e subdivisões internas, os quais precisarão ser apaziguados constantemente para que não haja maiores rupturas.

As reformas cismáticas partem do descontentamento de determinadas lideranças ou grupos religiosos que, ao desejarem modificar ou conservar suas respectivas doutrinas, optam pela ruptura e desligamento ou são excomungados por decisões hierárquicas temporárias ou definitivas. Tais decisões podem dar origem a novas seitas, organizações, tradições ou instituições religiosas. De maneira que as discordâncias e distanciamentos aumentarão ou diminuirão com o tempo. E, para marcar sua identidade, o novo grupo enfatizará os aspectos causadores da dissidência, sendo reconhecido por estes, a partir de então. Entretanto, uma série de fatores, tais como o número e o poder de seus adeptos, influenciará na definição de seus contornos e de sua visibilidade histórica.

Evidentemente, ambos os tipos de reforma desestabilizam os adeptos e suas respectivas tradições. No entanto, as consequências de uma e de outra são bastante distintas. Reformas internas, quando não resolvidas e consolidadas por seus pares, podem levar à plena ruptura de uma tradição religiosa, seja ela antiga ou recente. Reformadores cismáticos, quando arrependidos, podem ser acolhidos de volta ao seio de suas tradições originais e submetidos à profissão pública de sua fé. Além disso, adeptos e dissidentes de uma mesma tradição podem tornar-se vítimas e causadores de inúmeras atrocidades. E, ainda que contrariem os fundamentos mais sagrados, estas podem ser divina e fanaticamente justificadas, incumbindo aos seguidores mais conscientes e críticos a frágil missão de não repeti-las.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...