O bosque das tradições espirituais

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Segundo o educador brasileiro Rubem Alves, “pela analogia, o pensamento pula de uma coisa que ele conhece para uma coisa que ele não conhece. Aquilo que desconheço é ‘como’ isso que conheço. ‘Como’ não é a mesma coisa que ‘igual’. Na analogia eu não afirmo que aquilo é ‘igual’ a isso. Digo que é ‘como’. É só parecido. A analogia não dá conhecimento preciso sobre o desconhecido, mas o deixa familiar".[1] Assim, ao levarmos em consideração o pressuposto de que o humano é um ser espiritual e religioso, pois pode-se vê-lo recriando e cultivando infindáveis formas para superar as suas angústias e ignorâncias existenciais, estabeleceremos uma analogia entre estas tradições espirituais e religiosas e um bosque milenar a fim de facilitar a compreensão do respectivo fenômeno.

A partir desta comparação, imaginemos que tudo teria começado com uma semente invisível que, ao encontrar as devidas condições, germinou e cresceu, floriu e frutificou. No denso bosque das tradições espirituais há plantas graciosamente frondosas, incontáveis brotos discretos, bem como inúmeros galhos secos. Este abriga e alimenta incalculáveis criaturas. Poderá ser esplendoroso e, ainda assim, estar repleto de espécies parasitárias, tirando-lhe o vigor. Nele, há também plantas flexíveis aos ventos, qual bambu, e aquelas que aprenderam a resistir as tempestades, como os carvalhos. Algumas isolam-se à beira dos penhascos, enquanto outras rodeiam-se de muita diversidade. E o que correria em seus caules, anônima e silenciosamente? Seria a seiva preciosa da vida, por toda a sua existência?

No bosque da religiosidade existem árvores espinhentas e venenosas, pois elas não desejam certas aproximações, ainda que produzam grande variedade de porquês. Outras, além de agradar aos olhos, são acolhedoras e abrem-se aos aconchegos da proteção. Algumas crescem livremente, basta-lhes uma gota de umidade e uma réstia de sol. Outras necessitam de podas e mais podas E, quanto mais são contidas, mais brotos surgem ali, cobrindo-lhes com os tons de uma esperança misteriosamente intrínseca a sua razão de existir. Sim, o bosque das religiões sempre sofreu podas superficiais, cortes profundos e rupturas irreversíveis, inclua-se nisso muitas tentativas de extermínio. Mas ele conhece os segredos do ciclo da vida pela força contida nos elementos e pelos cuidados do seu jardineiro fiel.

Enquanto algumas árvores espirituais e religiosas só oferecem sombra, abrigo e beleza, outras se entregam em frutos, cheiros e sabores. E aquelas que se enchem de fruto desejam, cheias de bravura, multiplicar-se rápido e para sempre. De certo, há frutos mais adocicados que outros, embora tenham crescido no mesmo galho. Mas, seria possível encontrar aqueles que se esqueceram de onde vieram ou que apodreceram sem propiciar algum deleite? E, por que se encheriam de soberba por habitarem um galho mais pujante, sendo que a energia que os sustenta é a mesma que conserva toda a planta? Entretanto, nem todo fruto produzido é confiavelmente comestível, exigindo atenção e cuidado. E, haveria aquelas que, por tantas razões, não produzem fruto e nem semente, são estéreis em essência?

Considere, agora, tudo o que sabe sobre o fenômeno religioso, seus elementos e imbricações, dirija-se a alguma planta, bosque ou jardim e continue a analogia com as tradições espirituais e religiosas, observando tudo o que ali contém: sua localização e diversidade, seu potencial e contribuição, bem como seus limites e contradições. Detenha-se em algum galho, árvore ou arbusto e, a partir daí, reflita sobre o surgimento do que denominamos por tradição. Estabeleça as mais diversas relações, inclusive aquelas que parecerem mais absurdas, pois estas poderão, quem sabe, ser as melhores. Descreva o que descobrir e imaginar. Registre também suas dúvidas e perguntas. Nada passe despercebido a seus sentidos. Assim, você terá elementos substanciais e suficientes pra refletir e em seguida compartilhar.

Notas e referências
[1] ALVES, Rubem. Ao professor com o meu carinho. Campinas: Verus, 2010.

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