Entre demônios e exorcistas

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Passava da meia noite. Antes de dormir, porém, em uma ininterrupta troca de canais, deparei-me com o que parecia ser uma reportagem sobre religiosidade, mais precisamente sobre as tradições de matriz africana, tais como Candomblé, Batuque, Umbanda e Quimbanda. Aliás, na madrugada, muitas vezes, há programas mais educativos que os veiculados de dia. Curioso, por tratar-se da minha área de estudos, percebi, contudo, que se tratava de um desses programas que atiçam o preconceito, a intolerância e a perseguição religiosa. Embora indignado, assisti com exclusividade à entrevista dada por um demônio ou encosto, tal como era chamado. Sim, o ilustre entrevistado do pastor neopentecostal era nada menos que um ser oriundo das trevas.

O dito ser diabólico, de voz grave e rouca, era acusado de destruir a vida de um jovem casal. Sua argumentação, porém, impressionava, causava temor e fascínio, raiva e empoderamento nos membros da igreja, de maneira que o ápice do rito, em resumo, foi o seu suposto exorcismo, seguido da imediata libertação da mulher. Agora, tudo fora resolvido. Depoimentos de supostas “ex-mães-de-encosto” faziam coro àquele jogo apelativo e alienante, numa ferrenha lavagem cerebral contra as tradições afro-brasileiras. De maneira quase insana, pessoas e ritos, oferendas e feitiços, orixás e espíritos tidos como “coisas do capeta” eram lançados ao "fogo do Senhor", que os queimava sempre, sem nenhuma escolha, respaldando o sucesso do exorcista e a credibilidade da respectiva instituição.

Lembrei-me, com isso, de uma reportagem que li, há algum tempo, relatando a experiência de um guerrilheiro colombiano e católico o qual pedia a sua Virgem Maria, a mãe de Jesus Cristo, a firmeza necessária para não errar o alvo inimigo. Lembrei-me também do discurso inflamado e combativo de um presidente norte-americano e metodista, o qual pedia para que seu Deus salvasse a América, enquanto suas tropas aniquilavam indiscriminadamente os supostos terroristas e opositores de seu país. Obviamente, é preciso que nos perguntemos: onde está o maligno? No espírito, entidade ou divindade que, supostamente, concede isto ou aquilo ou em quem faz tais pedidos? E o que seria de muitos religiosos e tradições sem o outro como vítima de suas ignorantes e fragmentadas doutrinas?

É bem verdade que nem tudo precisamos aceitar e a crítica mútua é necessária e saudável. Afinal, sujeitos aos mais diversos equívocos, todos nós, vez ou outra, precisamos repensar nossas concepções e práticas, principalmente aquelas crenças e ações carregados de maldade e violência, verdadeiramente diabólicas, isto é, que dividem, que separam, que desunem, tal como a palavra diabolo, em seu significado grego original. Atitudes como estas comprometem nossas relações e deturpam o pacifismo perdido na história de muitas tradições religiosas. Pois, quem não busca compreender a essência de sua religiosidade torna-se um câncer no seio de sua comunidade, torna-se o próprio diabo. E entre malucos e fanáticos, demônios e exorcistas ficam os fiéis carentes e lascados.

Oxalá compreendêssemos que todos estamos no mesmo mar da vida, algumas vezes calmo, outras revolto, e que ninguém de nós tem certeza científica ou absoluta do porto onde vamos ancorar. Assim é a fé e a religião. Navegamos em tantos barcos diferentes, carregando apenas uma pequena parte de um imenso segredo, de uma verdade cujo desejo de plenitude nos impulsiona a buscá-la. Mas, a qualquer custo? Nossos ritos e nossas crenças, sem querer relativizá-los, não passam de bússolas, hipóteses necessárias e fundamentais. Quem dera continuássemos escolhendo, com toda a liberdade que nos é humana e divinamente garantida, o barco para podermos navegar, a fim de que a nossa existência, em busca de um porto seguro, se encha de um sentido que valha à pena vivê-lo juntos.

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