Sobre páscoas e passagens

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal. Obl. OSB)

Quando a vida germina e prolifera, ressurge e persiste, a força misteriosa que ali existe é admirada, exaltada e cultuada. Inventa-se, então, as festas e os festivais, dança-se a vitória e canta-se a esperança de que este seja um ciclo sem fim. Nessa perspectiva estão os diferentes festivais de páscoa. E, a partir das sociedades que comeram e beberam o dinamismo e as transformações da vida, constatamos, pelo menos, quatro tradições as quais permanecem na sociedade ocidental, e às vezes de maneira sincrética, a saber: a passagem do inverno à primavera, a passagem da opressão pra liberdade, a passagem da morte pra ressurreição e a passagem do consumo ao sentido. E ao recordarmos as origens e os sentidos pascais, perguntamo-nos: qual a relação existente entre elas?

Do inverno à primavera - No equinócio, para celebrar os encantos da primavera, os povos do norte da Europa cultuam Eostre, a deusa da passagem, da aurora e da alvorada. Ela é o espelho da beleza, da pureza e da juventude. É a renovação natural do espírito e da mente. Seu rosto muda a cada toque suave do vento. É o despertar e o renascimento da terra, o equilíbrio da fertilidade depois do inverno. Sob seu olhar estão os animais recém-nascidos, pois seu espírito fértil dá vida à esterilidade. Ela carrega um ovo em suas mãos e observa uma lebre pulando ao redor de seus pés descalços. Nessa época, banha-se com o orvalho a fim de obter purificação e rejuvenescimento; acendem-se fogueiras, acreditando-se que o brilho do fogo tornará a terra frutífera e manterá as casas todas em segurança.

Da opressão à liberdade - A páscoa judaica inicia no primeiro dia da lua cheia da primavera e dura sete dias. Através da memória ritual, enfatiza-se a liberdade e identidade judaica, as quais garantiram sua sobrevivência. Este festival reúne três tradições distintas: dos pastores que ofereciam um cordeiro em holocausto; dos agricultores que entregavam o primeiro feixe da colheita; dos operários que recordavam a passagem do anjo de Javé, quando este matou os primogênitos dos egípcios opressores e poupou os primogênitos dos hebreus escravizados, os quais marcaram suas portas com o sangue de um cordeiro. Por isso, ainda hoje, imola-se um cordeiro, come-se pão ázimo e ervas amargas a fim de recordar sua história, sua libertação, sua aliança com D´us, assim como o ingresso na terra prometida.

Da morte à ressurreição - Os cristãos observam um período de preparação ao tríduo pascal chamado quaresma, quando fazem penitências, revisam seus projetos de vida, buscam a reconciliação pessoal, com os outros e com Deus. Na páscoa da ceia, o próprio Cristo faz-se alimento, banquete e sustento. Na páscoa da cruz, ele faz-se o cordeiro imolado, entrega total para resgatar a dignidade humana. Na páscoa da ressurreição, celebrada no domingo da primeira lua cheia da primavera, ele faz-se fogo novo, luz que nunca se apaga, eliminando, de uma vez por todas, o desespero e a escuridão. Por sua ressurreição, a morte já não mata, pois é vencida definitivamente pela vida. Com esse espírito, canta-se e dança-se o amor maternal e incondicional de Deus, o qual resgata cada uma das suas criaturas.

Do consumo ao sentido - Não é novidade que as leis do mercado deram outro sentido à páscoa. De uma festividade religiosa e sagrada, a páscoa foi transformada em um feriado comercial. Estimula-se o consumismo, que vai da necessidade de trocar presentes à extravagância das comidas e bebidas. Aqui, preserva-se o coelho, mas perde-se o anúncio da renovação, conserva-se o ovo, mas abafa-se a alegria pelo desabrochar da vida. Obriga-se a comer peixe na sexta-feira santa, outrora alimento de pobre, e acentuam-se as diferenças sociais. Incorporaram-se as delícias do chocolate asteca, mas não se adoça melhor as relações. Troca-se, enfim, a gratidão profunda por um cumprimento vazio de “feliz páscoa”, enquanto muitas pessoas continuam oprimidas, tristes e desesperadas, sem sentido pra viver.

Dos cultos pagãos, celebrando a transição do inverno para a primavera, originou-se a páscoa, pois na primavera comemora-se a fertilidade, quando os seres despertam do repouso do inverno e a terra se enfeita. Com isso, não se pode ignorar o desafio das comunidades judaicas e cristãs do hemisfério sul, pois o que prevalece enquanto data comum é o tempo da primavera no norte, quando inicia o outono no sul. Ou seja, o ciclo da natureza ao sul da linha do equador é contraditório ao sentido original da festa. Logo, celebra-se de modo mais racional que natural. Todavia, para além da ignorância, mortos e ressurgidos e da opressão libertados, somos convocados a celebrar nossas páscoas em comunhão com a mãe terra e o universo, renovados pela energia amorosa do divino que faz novas todas as coisas.

Notas e referências
BONDER, Nilton. Pessah: um manual. São Paulo: Imago, 1990.
GUIMARÃES. Marcelo. CARPANEDO, Penha. Dia do Senhor: guia para as celebrações das comunidades: ciclo pascal: ano ABC: v2. São Paulo: Paulinas: Apostolado Litúrgico, 2003.
WIKIPEDIA. Eostre. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eostre. Acesso em 02.04.2014.
WIKIPEDIA. Páscoa. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1scoa. Acesso em 02.04.2014.
VOCÊ SABIA. Curiosidades sobre a primavera. Disponível em: http://www.vocesabia.net/curiosidades/curiosidades-sobre-a-primavera. Acesso em 02.04.2014.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...