Carta 37 - A paz e os migrantes

D. Irineu Guimarães, OSB
Tournay, 25/01/14.

A vocês todos
EM BUSCA DA PAZ,

Paz!

No dia 19 de janeiro de 2014 celebramos o Centésimo Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado, com o objetivo de sensibilizar a consciência cristã e humanitária para que tomem uma atitude em relação a estes homens e mulheres obrigados a deixar suas terras, na procura de uma vida mais digna. E, no entanto, mesmo com toda esta mobilização, o drama destas pessoas não parece chegar ao fim.

O maior símbolo desta tragédia é uma pequena ilha italiana, a Ilha de Lampedusa, com 20,2 Km quadrados de superfície e com cerca de 5 mil habitantes. Estando localizada a meio caminho entre a Europa e a África, a ilha se tornou uma porta de entrada para aqueles que desejam ir à Europa de modo irregular. Dezenas de milhares de pessoas chegam ali sem a documentação necessária, através de navios chamados de “navios da esperança”, pagando muito caro por isso. Sem nenhuma segurança os imigrantes viajam amontoados como sardinhas em lata. As estimativas falam que mais de 20 mil pessoas já perderam a vida fazendo esta travessia. O caso mais recente é o do dia 03 de outubro de 2013, quando um navio que transportava 500 imigrantes pegou fogo e virou, matando 350 pessoas.

A questão não é nada simples: todos estes imigrantes devem ser acolhidos na Europa? Eles devem ser reenviados aos seus países? Devemos deixá-los morrer? Em 2007 dois capitães de barcos de pesca italianos foram levados à justiça por terem socorrido os "navios da esperança", e foram acusados de terem ajudado os imigrantes ilegais a entrar no território. No dia 08 de julho de 2013 o Papa Francisco foi para esta ilha manifestar sua solidariedade para com todas as vítimas, assim como manifestar sua solidariedade para com a comunidade de Lampedusa que pratica incansavelmente a caridade para os mais necessitados. Nesta ocasião ele nos lembrou da nossa responsabilidade humanitária nesta situação: "Muitos de nós, e eu me incluo neste grupo, estamos desorientados, nós não prestamos mais atenção ao mundo no qual vivemos, nós não nos ocupamos mais do outro, nós não cuidamos do que Deus criou para nós e não somos mais capazes de cuidarmos uns dos outros. E quando esta desorientação assume dimensões mundiais, chegamos a tragédias como esta a que assistimos". Na sua mensagem pela passagem do Dia do Imigrante e do Refugiado, publicada em 05 de agosto de 2013, ele nos convida a "passar de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse e de marginalização – que no final das contas corresponde à 'cultura da exclusão' - para uma atitude que tenha como base a 'cultura do encontro', a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor".

A paz mundial vai depender em grande parte da solução e da resposta que nós daremos à situação dos imigrantes e dos refugiados. Ou a paz vem para todos, ou a paz não virá para ninguém: precisamos estabelecer uma ordem cosmopolita na qual o mundo se transformará numa casa de todos e que todos sejam bem acolhidos em toda parte.

Com as palavras do Papa Francisco, em Lampedusa, assumamos nossa parte de responsabilidade nesta questão:

Senhor, 
nós pedimos perdão 
pela indiferença em relação 
a muitos irmãos e irmãs; 
nós te pedimos perdão 
por aquele que se acomodou 
e se fechou no seu próprio bem-estar 
que leva à insensibilidade do coração; 
nós te pedimos perdão por aqueles que,
através de suas decisões a nível mundial,
criaram situações que conduzem a esses dramas. 
Que ouçamos hoje: "Adão, onde tu estás?", 
"Onde está o sangue do teu irmão?". 
Amém.

Com toda minha amizade,

D. Irineu Rezende Guimarães, OSB
monge beneditino da Abadia Notre-Dame, Tournay, França. 



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