O registro do conhecimento religioso

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Ao perguntar-se quem é, de onde vem, para onde vai e o que faz aqui, o ser humano sistematiza certas respostas que lhe serão favoráveis na experiência do seu cotidiano existencial.[1] Nesse sentido, o registro de tais experiências também irá determinar muitas nuanças culturais, revelando um desejo escondido e, quem sabe, singularmente humano de eternizar-se. De maneira que, no componente curricular de Ensino Religioso, os educandos também serão desafiados a ler e a escrever o contexto das coisas, seu complexo emocional, o conjunto das informações disponíveis, os seus posicionamentos e os questionamentos que darão continuidade a sua busca por respostas. Estas, por sua vez, poderão ser ferramentas valiosas para lidar com os muitos desafios que a vida proporciona.

O contexto -  O contexto é aquilo que situa determinado objeto ou fato, estando junto ou ao redor deste, de maneira a influenciá-lo. São, ainda, as condições e as circunstâncias em que as coisas acontecem. Para Maria Cristina Villanova Biazus, o contexto é como uma teia que liga ou relaciona as coisas da vida, as quais estão sempre mudando.[2] Contextualizar, portanto, é caracterizar, da maneira mais exata possível, a realidade em questão, pois, indubitavelmente, isto poderá alterar toda a compreensão dos fatos. No Ensino Religioso, a descrição do próprio contexto ajudará o educando a fazer conexões com o ambiente e os recursos utilizados, com a presença de colegas e educador, com a família e o todo da escola, com os conteúdos religiosos e com os demais componentes curriculares.

A emoção - A emoção é um impulso, explosão, sensação e alteração fisiológica ou corporal imediata, causada por estímulos internos e externos, sem que se possa controlá-lo.[3] Para Antônio Damázio, as emoções dão origem aos sentimentos.[4] E, num período de intensas e complexas transformações, quantas emoções passam pelo corpo de uma pessoa adolescente ao longo de um único dia? Aprender reconhecê-las e nomeá-las, bem como a expressar adequadamente os próprios sentimentos, poderá contribuir para transformar uma sensação assustadora e incômoda em algo definível e que faz parte da vida. Sendo assim, alegria e euforia, raiva e confusão, medo e decepção, por exemplo, tornam-se experiências que todo mundo tem e com as quais se pode lidar com muito mais tranquilidade.[5]

A informação - A informação é o resultado da manipulação e organização de dados, de tal forma que represente um acréscimo ao conhecimento da pessoa que a recebe. Genericamente, ela está ligada às noções de comunicação, instrução, significado, estímulo, percepção,[6] explicação, aviso, nota, argumento[7], conceito, ideia e opinião. Quanto mais informações estiverem disponíveis maior será a superação de uma visão ingênua, fechada, dogmatizada e, muitas vezes, incoerente e distorcida, inclusive do fenômeno religioso. Contudo, há de se investir no contraponto entre as informações, os conhecimentos e saberes do educando, dos colegas, do educador e dos estudiosos da área para que a informação transparente e contextualizada possibilite reflexões coerentes e escolhas conscientes.

A posição - A posição é o lugar onde uma pessoa ou coisa encontra-se ou está situada.[8] Posicionar-se, portanto, significa colocar-se diante do outro, expressando-se com propriedade e clareza, com abertura e respeito, na intenção de trocar saberes e, em último caso, convencê-lo. É refletir sobre as informações anteriormente organizadas, fazendo conexões, argumentando, apontando afinidades e incoerências. Segundo Madalena Freire, não existe reflexão “que não leve sempre a constatações, descobertas, reparos, aprofundamentos. E, portanto, que não nos leve a transformar algo em nós, nos outros, na realidade.”[9] No Ensino Religioso, isso desafiará o educando a novos posicionamentos, tais como diálogo e reverência diante da própria vida e da diversidade cultural em que está inserido.

A pergunta - A pergunta é o rompimento do equilíbrio intelectual.[10] Sua origem encontra-se na dúvida, na confusão, no equívoco e na desconfiança. Uma boa pergunta provoca o estranhamento do já conhecido e declara-se como uma ignorância ativa na intenção de encontrar o ainda desconhecido como resposta. Entretanto, no senso comum, o ato de perguntar ou questionar parece não combinar com religiosidade. E, ao fazê-lo, há quem sinta-se perdendo a fé ou considere-se cético. Entretanto, a pergunta traz a crise e esta a criatividade e a maturidade, pois, segundo Elli Benincá, a pergunta é fonte de transcendência.[11]. Ela pode retirar o entulho ao redor da fé e conduzir à Essência e à Verdade Última. Aliás, para que serviria o Ensino Religioso senão para contribuir com tal propósito?

Ora, este processo de desconstrução e reconstrução do conhecimento religioso é um trabalho intenso e desafiador, tanto para educandos quanto para educadores. E, aqui, a ênfase dada ao ato de escrever faz-se necessária porque, como diz Freire, este “deixa marca, registra pensamento, sonho, desejo de morte e vida. Escrever dá muito trabalho porque organiza e articula o pensamento na busca de conhecer o outro, a si, o mundo.”[12] Todavia, duas ações podem complementar substancialmente este processo. A primeira é que os educandos sintam-se protagonistas porque, de fato, o devem ser. A segunda é a socialização parcial ou integral de sua produção. Sendo assim, desafiados e orientados construirão e reconstruirão, se preciso for, não só textos, mas a si mesmos e o mundo no qual vivem.

Confira
LIMA, Julio Cesar De. O registro do conhecimento religioso. In: KLEIN, Remi (Org.). ER: diversidade e identidade. V Simpósio de Ensino Religioso. São Leopoldo, Sinodal, 2008.

Notas e referências
[1] FONAPER. Ensino Religioso e o conhecimento religioso. [S.I.]: 2000. p. 23. (capacitação para um novo milênio, 3)
[2] BIAZUS, Maria Cristina Villanova. Contextualidades e o Ciberespaço. Acesso em 2 mar. 2008
[3] WIKIPEDIA. Emoção. Acesso em: 26 fev. 2008.
[4] DAMAZIO, A. Apud SCHMIDT, Maria do Carmo. Emoções no grupo de trabalho: um estudo de história oral. Acesso em: 26 fev. 2008.
[5] GOTTMAN. J. Apud SERPA, Fabíola Alvarez Garcia. Emoções e sentimentos. Acesso em 3 mar. 2008.
[6] WIKIPEDIA. Informação. Acesso em: 28 fev. 2008.
[7] BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000. p. 436.
[8] CUNHA. Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4. Ed. Revista pela nova ortografia. Rio: Lexikon, 2010.
[9] FREIRE, Madalena. Observação, registro, reflexão: instrumentos metodológicos I. São Paulo. EP, 1996. p 39. (Série Seminários, 1)
[10] FONAPER, 2000. p. 23.
[11] BENINCÁ, Elli. O conhecimento religioso. Passo Fundo: Mimeo, 1996.
[12] FREIRE, 1996. p. 38.

4 comentários:

  1. Professor, você tem toda a razão no que disse hoje em aula. Muitos alunos não tem maturidade para estar na 7ª série só querem ficar na moleza. Os trabalhos e os testes que você nos dá, são essenciais. Muitos vezes são difíceis mas são importantes para agora e para o nosso futuro. Adoro o seu método de ensino, os alunos PRECISAM se esforçar se não, não irão a nenhum lugar. Os alunos (alguns) deviam ter mais respeito com você. Você é o professor, você tem o seu método e vejo o quanto se esforça para nos ensinar.
    Agradeço desde já, aluna da 171 LSSA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Minha querida aluna, fico imensamente contente em saber que há pessoas, adolescentes como você, pensando além do senso comum. Há uma certa geração de adultos, cujos filhos estão na adolescência, por exemplo, que ainda não se deu conta do quanto precisa rever seu jeito de educar os filhos. Ser educador é desafiador. E, obviamente, gosto desse desafio.

      Excluir
  2. Esse blog é ótimo, acho que você deveria reunir algumas desses tópicos a respeito do fenômeno religioso em um livro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma ideia muito interessante. Muito obrigado pela dica!

      Excluir

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...