Por que rezamos pela paz

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Segundo René Guerre, era costume do povo de Israel fazer da assembleia litúrgica um momento oportuno de intercessão pela paz[1], da mesma forma que os judeus o fazem, ainda hoje, em seu serviço religioso. Shalom, então, tem um sentido bastante amplo e é uma expressão recorrente nas súplicas e bênçãos judaicas, das cotidianas às especiais. Ela carrega em sua essência um sentido de inteireza e plenitude: comida e abundância, segurança e não-violência, saúde e longevidade, para citar apenas alguns. Em consequência disso, também, o compromisso com a justiça e a paz tornou-se dimensão fundamental dos seguidores de Jesus de Nazaré. Afinal, se o reinado de Deus Pai é o centro de sua vida e ministério, a paz só poderá ser gestada nas entranhas deste projeto.

Quando Jesus nasceu, os anjos anunciaram: “Paz na terra à humanidade amada por Deus”.[2] Ao povo ele exortava: “Felizes os que promovem a paz porque serão chamados filhas e filhos de Deus”.[3] A seus discípulos, incumbe-lhes, antes de tudo, o anúncio coerente da paz.[4] Ao afirmar: “não vim trazer paz à terra, mas a espada”[5], dá ao compromisso com a não-violência uma dimensão profética. Sabendo que seria morto injustamente, diferencia a paz que se impõe e a paz que se constrói, dizendo: "A paz que eu dou a vocês não é a paz que o mundo dá”.[6] Preso, recusou qualquer atitude violenta ordenando a Pedro: “Guarda tua espada na bainha. Pois, todos os que usam a espada, pela espada morrerão".[7] E, ressuscitado, sua primeira bênção foi desejar: “A paz esteja com vocês”.[8]

Com esse mesmo espírito, as primeiras comunidades não tardaram proclamar Jesus Cristo como "a nossa paz"aquele que destruiu, de uma vez por todas, o muro do ódio entre os povos[9] e agradeciam, a cada dia, ao Pai dos céu pelo Sol da Justiça que guiava seus passos no caminho da paz.[10] Os formulários disponíveis mostram que os primeiros cristãos tinham esta dimensão muito presente ao incluírem a paz, geralmente, como primeira das intenções, dizendo: “Supliquemos a paz, dom de Deus”.[11] De modo que reunir-se na assembleia de irmãs e irmãos na fé tornou-se o espaço de intercessão pela paz da pequena comunidade, a qual sofria trágicas perseguições, bem como pela paz do mundo inteiro. E, assim, orar pela paz torna-se um sólido fundamento para a tradição cristã.

Para o bispo luterano Werner Krusche: “A oração da Igreja pela paz não é um ornamento piedoso (mas no fundo supérfluo) de tudo que ela faz por outros meios pela paz, mas é uma participação nesta obra e nada pode substituí-la. Tudo que se faz pela paz do mundo não vale nada sem a oração da Igreja. É pela oração que se deve expulsar as resistências reais e insondáveis. É necessário orar pelo discernimento, paciência, o estabelecimento da confiança, para reencontrar a liberdade de ação face aos obstáculos inerentes à tecnologia e que levam à fabricação de armamentos, para não citar senão alguns temas entre outros. A oração exerce de toda maneira uma função exorcizadora na luta pela paz”[12], de modo a tornar-se um forte apelo à conversão constante dos nossos costumes violentos.

Embora fruto de muitas mãos e exigindo a mais corajosa ação, acreditamos que a paz, primeiramente, é um dom de Deus. Por isso, requer a nossa oração. Para João Paulo II: "Os cristãos devem estar no primeiro plano dos que rezam todos os dias pela paz; e devem educar também a rezar pela paz." Isto vem ao encontro do que proclama o salmista: "Se o Senhor não constrói a nossa morada, em vão trabalharão seus construtores. Se o Senhor não vigiar nossa cidade, em vão vigiarão as sentinelas."[13] Orar pela paz, portanto, é um ato de inteira confiança no Deus criador e transformador o qual deseja que todas as suas criaturas, ainda que jamais se conheçam, vivam relações de profunda solidariedade; é também provocar e confirmar a intenção pessoal e comunitária de quem sintoniza ações e utopias. 

Confira
GUIMARÃES, Marcelo; LIMA, Julio Cesar De. Celebrações e orações pela paz. São Paulo: Paulinas, 2005. Coleção Liturgia no Caminho. Série Celebrações Populares. 127 p.

Notas e referências
[1] Cf. GUERRE, René. Théologie de la paix. Paris: Éditons du Cerf, 1997, p. 91
[2] Cf. LUCAS 2,14
[3] Cf. MATEUS 5,9
[4] Cf. LUCAS 10,5-6
[5] Cf. MATEUS 10,34
[6] Cf. JOÃO 14,27
[7] Cf. MATEUS 26,52
[8] Cf. JOÃO 20,21
[9] Cf. EFÉSIOS 2,14
[10] Cf. LUCAS 1,79
[11] Cf. HAMMANN, Adalbert. A oração dos primeiros cristãos. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 140.
[12] Cf. KRUSCHE, W. Accueillir la paix du Christ, travailler à la paix dans le monde. In: CONSEIL DES CONFÉRENCES ÉPISCOPALES D’EUROPE et CONFÉRENCE DES ÉGLISES EUROPÉENES, Les Églises d’Europe. L’engagement oecuménique, documents des rencontres oecuméniques européenes - 1978-1991, Paris: Éd. Du Cerf, 1993, p. 115-116.

[13] Cf. SALMO 126 (127)

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