Monge para buscar a plenitude

Mosteiro da Santíssima Trindade, OSB
Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Não é curioso constatar que a vida monástica seja encontrada em distintos caminhos espirituais como o Hinduísmo, o Jainismo, o Budismo, o Cristianismo e o Islamismo? Obviamente, guardadas as respectivas nomenclaturas e particularidades de cada tradição. No cristianismo, a princípio, a vida monástica é o caminho e caminhada de quem deseja ardentemente seguir os passos de Jesus Cristo, o filho de Deus,[1] de maneira que o maior desejo de um monge, seja eremita ou cenobita, não é outro senão constituir-se integralmente, buscando unificar sua vida a partir do próprio cotidiano. É, em poucas palavras, fazer-se um na comunhão com Deus e com os irmãos, bem como no cuidado radical da vida no intuito de superar toda a fragmentação. A própria palavra ‘católico’, em sua origem grega,  carrega essa dimensão de totalidade.

Com a intenção de afirmar uma identidade, estabelecemos e assumimos rótulos. E, até certo ponto, a singularização se faz necessária e é também salutar. No entanto, apegar-se a aspectos limitadores em detrimento dos essenciais não contribui com esse crescimento integral. Na perspectiva do Evangelho, por exemplo, difunde-se as práticas de vida ativa e contemplativa. Ou, enquanto alguns fazem outros rezam, de maneira que, se sou isto não sou aquilo. Embora seja esta uma realidade constatada no meio religioso cristão, Jesus não opôs tais dimensões. Ele mesmo procurava integrá-las. Enquanto Maria foi elogiada por ter escolhido a melhor parte, sentando-se a seus pés[2], alguns discípulos foram duramente repreendidos para darem, eles mesmos, de comer à multidão cansada e faminta.[3]

Muitos imaginam fugir do mundo, apegando-se tão simplesmente ao inusitado da vida monástica: o hábito, a grade, o isolamento e, porque não, a certa áurea de santidade. Neste sentido, uma emissora católica de televisão enaltecia o fato de muitos mosteiros estarem repletos de gente jovem vivendo, literalmente, atrás das grades do claustro. Inegavelmente, uma escolha radical, principalmente em nossos tempos. Contudo, a vida monástica, em hipótese alguma se resume a certas excentricidades ou no esteriótipo que a sociedade, em geral, faz dela. Guardadas as devidas finalidades, peculiaridades e proporções, uma comunidade monástica é uma família que escolhe viver junto certos princípios. E, ali, experimenta-se alegrias e tristezas, seguranças e incertezas, bem como os conflitos e reconciliações.

Embora seja muito mais fácil privilegiar, viver e santificar-se a partir de um ou de outro aspecto, parece-me que somos convocados a viver em e para a plenitude. Aqui, não se trata de servir a dois senhores,[4] pois, evidentemente, toda escolha pressupõe renúncias. Mas o que está sendo preterido seria, verdadeiramente, desnecessário ou seria elemento essencial para viver em abundância[5] desde agora e para sempre? Reconciliar o que nos parece oposto, ou seja, integrar nossas luzes e sombras, espiritualidade e corporalidade, oração e trabalho, sagrado e profano não seria este o caminho? Não se trata de respostas prontas e dogmatizadas, mas de perguntar-se sempre novamente pelo sentido da existência, até nos aquietarmos, definitivamente, no Criador, no Divino, na Verdade e na Essência. 

Certas peculiaridades religiosas, portanto, precisam contribuir para a busca plena e incessante do silêncio e da oração, do trabalho e do estudo, da convivência e da entrega, da conversão pessoal e pastoral segundo os fortes apelos contemporâneos do Evangelho. O isolamento, com grade ou sem grade, necessariamente, não é paradigma para a felicidade, até porque a Regra de São Bento, por exemplo, insiste na hospitalidade para que o Cristo seja acolhido na pessoa do irmão.[6] Daí o fato de não existir mosteiro beneditino sem uma acolhedora hospedaria, a ponto dos beneditinos, quando necessário, serem desafiados a largar seus afazeres para sentarem-se aos pés de quem chega, tal qual Maria, e servirem o Cristo, principalmente no peregrino, no pobre e necessitado, a exemplo de Marta.


Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil
51 9914 1456 ou 51 9917 1770

Notas e referências
[1] 
[2] BÍBLIA SAGRADA: Edição Pastoral. Evangelho de Lucas 10,38-42. São Paulo: Paulus, 1990.
[3] _____ . Evangelho de Marcos 6,30-44. São Paulo: Paulus, 1990. 
[4]
[5] REGRA DE SÃO BENTO. Salvador: Bahia, 1958. Capítulo 66.
[6] 

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