Ofício e eucaristia pela paz

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Muitas comunidades, com base na tradição da Igreja, unem a oração pela paz à prática do Ofício Divino ou Liturgia das Horas. Trata-se de um tempo dedicado a uma ação muito concreta e ao alcance de todos os que desejam cumprir, e nem sempre sabem como, a palavra do evangelho que proclama“felizes os que trabalham pela paz.”[1] E a celebração da eucaristia, como fundamental sustento da comunidade cristã, sem dúvida, é a oportunidade ideal para evidenciar e ajudar o povo de Deus a experimentar esta mística que extrapola o rito da paz que precede a comunhão. Em vista disso, propomos um pequeno ofício a ser celebrado comunitária ou individualmente, no dia a dia ou em momentos especiais, bem como alguns elementos próprios para a celebração da eucaristia.

O ofício tem início com o convite para que o Senhor nos ajude celebrar e construir um outro mundo possível. Em seguida, são recordadas as situações que o ameaçam e impedem a consolidação dos processos de paz, de perto e de longe, como também os esforços de muitas pessoas e grupos que fazem a diferença nesta obra. Escutar, orar, meditar e cantar a Deus por sua própria palavra de paz é o que se faz com alguns salmos e textos bíblicos que suscitam a manifestação dos desejos pessoais e coletivos de uma nova realidade. Reza-se o Pai Nosso, concluído com a proclamação da glória e do poder de Deus que, além de dar um caráter ecumênico, relativiza os absolutismos humanos. Por fim, pede-se a bênção para que o Senhor nos ajude a continuar trabalhando e lutando incansavelmente.

A eucaristia, por sua vez, é o autêntico memorial da vida de Jesus Cristo, a fim de tê-lo como nosso saboroso, abundante e perfeito alimento. Ela é a expressão da realidade dos que se reúnem no prazer e na alegria para celebrar o mistério de sua morte e ressurreição. Por isso, o ato penitencial, a liturgia da palavra, as preces, a oração eucarística, de modo especial sob reconciliação, o rito da paz, o comer e o beber, por exemplo, são elementos a serem considerados na perspectiva da mística e da luta pela paz. Pois, se Cristo se identifica com seu povo, denunciar sua morte e proclamar sua ressurreição é denunciar uma cultura de violência que despreza, machuca e mata, bem como proclamar uma cultura de paz e não-violência que restaura, dignifica e garante vida em abundância para a criação inteira.

A liturgia das horas e a liturgia eucarística são momentos celebrativos distintos, sendo que o ofício, apesar do esforço constante para devolvê-lo ao povo, ainda não é uma prática conhecida e usufruída por grande parte de nossas comunidades eclesiais. Por isso, unir a realização do ofício pela paz com a celebração da eucaristia é uma oportunidade para aprender. Assim, seguindo os passos do Ofício Divino das Comunidades, pode-se fazer a abertura, a recordação ou revisão da vida e cantar um hino apropriado. Na liturgia da palavra, pode-se dedicar um pouco mais de tempo à salmodia e as preces podem contemplar de modo mais explícito as causas em torno da paz e da não-violência. A partir da apresentação das oferendas, segue-se o que foi sugerido anteriormente para a celebração eucarística.

De acordo com antiga tradição cristã, o ósculo ou o abraço que precede a comunhão tem a dimensão de um sacramento da paz. Não se trata, portanto, de uma saudação ou cumprimento corriqueiro, vazio ou superficial. Este rito sinaliza a reconciliação verdadeira que parte de nossas relações e chega ao mundo inteiro como sinal profético de quem ama e assume a não-violência de Jesus Cristo, de modo que as comunidades encontrem na liturgia uma dimensão formadora e transformadora da consciência, provocando-as a progredir no compromisso concreto em favor da justiça, do bem comum e da libertação ao permitirem-se converter mente e coração. E, assim, os seguidores de Jesus consagrem-se, em cada experiência litúrgica, como sacerdotes e sacerdotisas, como artífices e pontífices da paz.

Confira
GUIMARÃES, Marcelo; LIMA, Julio Cesar De. Celebrações e orações pela paz. São Paulo: Paulinas, 2005. Coleção Liturgia no Caminho. Série Celebrações Populares. 127 p.

Referências
[1] Cf. MATEUS 5,8

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