Ao morrer, para onde vou?

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A morte e a vida, de uma maneira ou de outra, se distanciam e se entrelaçam continuamente. E, ao considerarmos toda a sua diversidade cultural, o que os humanos acreditam acontecer após a morte será tão diverso quanto o que sua própria vida poderá ter experimentado aqui nesta terra. Contudo, ainda que sejam encontradas diferentes variações, ao analisar-se as respostas escatológicas constatamos quatro possibilidades básicas as quais orientam e movem a humanidade em seu desejo profundo de transcender e eternizar-se: o ancestralismo, o reencarnacionismo, o ressurreicionismo e o niilismo. Sendo assim, de forma bastante resumida, vejamos em que consistem tais crenças e em quais culturas e tradições elas são recorrentes. Mas e você, em que tradição acredita?

Ancestralismo - Ancestral é um antepassado, uma pessoa da qual se descende. O culto aos ancestrais, feito através de orações e oferendas, é uma prática baseada na crença de que o espírito continua existindo após a morte e tem a capacidade de influenciar a sorte dos vivos. Para isso, os vivos mantém viva a memória de seus ancestrais e os ancestrais cuidam dos seus descendentes. A eles pedem-se favores como assistência e proteção. Venera-se também para cultivar valores, tais como piedade filial, lealdade familiar e continuidade da linhagem. Para a maioria das culturas o culto aos ancestrais difere-se do culto aos deuses. Tais práticas são encontradas em muitas tradições tribais da América, África, Austrália, bem como no Confucionismo, no Taoismo, no Xintoísmo e na Seisho-No-Iê.

Reencarnacionismo - A palavra reencarnação deriva do latim e significa ‘entrar na carne novamente’. É um conceito religioso e filosófico de que, após a morte biológica, a alma ou espírito inicia uma nova vida em um novo corpo, podendo ser humano, animal, mineral ou espiritual. Pode ser um processo de expiação, evolução ou involução, o qual dependerá do carma, ou seja, da qualidade moral das ações da vida precedente, pois qualquer ação acarreta inevitáveis consequências. Com suas respectivas particularidades, pode ser chamado renascimento, metempsicose, palingenesia e transmigração. Tal crença é encontrada, por exemplo, no Hinduísmo, Budismo, Jainismo, Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Teosofia, algumas sociedades tribais e em muitos movimentos religiosos contemporâneos.

Ressurreicionismo - Ressuscitar é fazer nascer de novo, dar nova existência, renovar, fazer ressurgir. Em grego, diz-se anástasis, ou seja, ‘levantar' ou 'erguer’. Para esta crença volta-se a viver após a morte, mas não há retorno à terra. Ela é vista sob três sentidos: a) crença na ressurreição imediata de cada alma junto a Deus; b) crença na ressurreição de todos os mortos no fim do mundo; c) crença de que cada vitória sobre as injustiças é sinônimo de ressurreição. No entanto, o debate teológico segue no que diz respeito a que tipo de ressurreição acontece após a morte: ressurreição espiritual, pela qual só o espírito permanece vivo ou ressurreição material, pela qual o corpo todo é restaurado. Tal crença é encontrada em tradições religiosas como o Judaísmo, Cristianismo, Islamismo e Bahaísmo.

Niilismo - Em latim, a palavra nihil significa ‘nada’. De modo geral, este sistema considera a ausência de finalidade e resposta aos porquês da existência, pois nada tem sentido. E, se nada tem sentido, a morte será o fim de tudo. Nessa perspectiva, enquanto espécie, nascemos, evoluímos, ou não, e morremos. Não há espírito, nem seres sobrenaturais. O que existe é o físico e o corpo é o início e o fim da existência. Ao morrer, tudo se transforma ciclicamente enquanto matéria. Há um declínio, um ressentimento e uma incapacidade de avançar. Embora não haja uma religião niilista, atribui-se esta compreensão da vida e da morte a uma pequena, embora crescente, parcela da humanidade composta por cientistas, filósofos e pessoas das mais diversas culturas, tradições, profissões e posições sociais.

Ao conhecermos as quatro respostas básicas dadas pela humanidade à pergunta sobre a vida além da morte ainda vale ressaltar que, por equívoco ou ignorância, necessidade ou coerência, pessoas ou grupos de uma mesma tradição religiosa podem dar diferentes respostas a essa questão, de modo que a ressurreição dos mortos não é o padrão escatológico a todas as tradições abraâmicas, tampouco é aceita da mesma forma entre os cristãos. Dentre os reencarnacionistas há diferentes nuances no que se refere ao desprendimento e ao retorno da alma. O povo Serere, por sua vez, tem uma relação com seus antepassados de forma distinta de um taoista. Analisar e compreender esta complexidade é um dos instigantes desafios das Ciências da Religião, bem como do próprio Ensino Religioso, atualmente.

Notas e referências
BETIATO e SANCHES. Navegando nos Caminhos da Fé. Curitiba: M. Baretto, 1997.
BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000. p. 436.
CLEMENT, Catherine. A Viagem de Théo: romance das Religiões. São Paulo: Cia das Letras, 1997.
FONAPER. Ensino Religioso: capacitação para um novo milênio, C4. O fenômeno religioso no Ensino Religioso.
PECORARO, Rossano. Niilismo. Rio de Janeiro: JZE, 2007.

2 comentários:

  1. Professor, Escreves Muito bem!! com carinho seu aluno Murilo - LSSA

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  2. Murilo, meu querido. Que saudade de ti e de vários colegas teus. A gente acabou nem se despedindo. Obrigado pelo elogio sobre o texto acima. Fiquei muito orgulho de perceber que você continua acessando esse blog. Um aluno como você faz muita diferença. Te cuida. Abraço.

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