Pressupostos do retiro espiritual

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Retirar-se era uma prática muito comum a Jesus de Nazaré. Os evangelhos contam que, seguidamente, ele afastava-se das multidões. Assim o fez ao iniciar sua vida pública,[1] ao dividir os pães e os peixes,[2] ao transfigurar-se[3] e ao ser preso,[4] por exemplo. Compreendendo que retirar significa tirar de novo e retiro significa sair de onde se estava, podemos dizer que o retiro espiritual cristão é um tempo favorável para tomar-se pela mão e levar-se novamente a um cara a cara com o que há de mais sagrado na vida; é olhar o próprio poço interior e retirar dele o entulho que esconde o frescor da água pura. Para isso, certas predisposições são essenciais, tais como: ruptura do cotidiano, entrega ao silêncio e escuta à palavra, assumindo a conversão como movimento constante.

Retiro é um tempo de ruptura do cotidiano. Predispor-se a esta ruptura é colocar-se à margem a fim de obter as respostas para as perguntas que o cotidiano não tem obrigação alguma de responder, pois ele é turbulento, disperso e anestesia a nossa vontade de sentir e saborear a vida. Então, em nome do equilíbrio e da saúde integral, pára-se. Interromper a rotina faz-nos ver melhor o horizonte. Isto não significa fugir dos infortúnios, mas tem a ver com afastar-se e, a partir de um lugar especial, olhar-se à distância e despojar-se do desnecessário. Em vista disso, há quem prefira uma casa especializada ou mosteiro, onde a natureza exuberante e o clima são naturalmente propícios. Porém, conheço quem prepare o próprio quarto ou lar, o que poderá exigir mais disciplina, mas não deixa de ser uma saída.

Retiro é um tempo de entrega ao silêncio. Predispor-se a esta entrega é captar, de forma privilegiada, as manifestações e apelos do Espírito Santo de Deus no aqui e agora da vida. Ao acostumarmo-nos a viver com os sentidos cada vez mais contaminados qualquer coisa parece preencher-nos e satisfazer-nos. Aliás, também há quem permita-se tal poluição para disfarçar seu vazio existencial. Por isso, uma descontaminação dos sentidos, com base num silêncio profundo, verdadeiro e criativo, religará de novo nossos fragmentos essenciais. Indiscutivelmente, o silêncio limpará ou trocará nossos filtros. Nele, a palavra não se corrompe, tanto a que entra quanto a que sai. Esse exercício exterior e interior, principalmente, refaz o equilíbrio do ser para dele brotar a mais intensa ação, oração e contemplação.

Retiro é um tempo de escuta à palavra. Predispor-se a esta escuta é confrontar a vontade de Deus e as escolhas que precisamos fazer constantemente. E, garantir uma leitura orante da bíblia e da vida ajudará refletir e reavaliar nosso relacionamento com o divino que perpassa livremente o dia a dia, misturando-se à realidade de todas as suas criaturas. Afinal, via de regra, o pai de Jesus Cristo é um ser surpreendente: ele é a tensão entre a exigência e a misericórdia, entre o incômodo e o aconchego. Seus critérios não são os nossos. Sempre haverá algo a ser verificado e ajustado. Suas vontades nos deixam em crise para que possamos criar e recriar. E sua palavra de vida nos arrasta de volta à trilha, geralmente a mais desafiadora, a fim de que possamos reconstruir, com Jesus, a civilização do amor. 

Numa perspectiva cristã, então, penso que ruptura, entrega e escuta, bem como cotidiano, silêncio e palavra, são os fundamentos para um retiro espiritual engajado e transformador. Também perceba-se nisso uma identidade a ser resguardada, de maneira que muitas experiências por aí realizadas não passam de um lindo faz de conta, ou seja, divertidos passeios, profundas palestras e inesquecíveis dinâmicas de grupo as quais, é verdade, tem reconhecido valor, mas não são propriamente retiros espirituais de quem têm no Cristo a sua razão de viver. Portanto, cabe-nos estar bem atentos aos instrumentos de cultivo espiritual pelos quais optamos a fim de evitar o desmerecimento do essencial da tradição a qual deve estar ao inteiro serviço de um engajado processo de amadurecimento na fé.

Referências
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[2]
[3]
[4]

4 comentários:

  1. mt cool ssor!!!

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  2. Eu MORRO até achar um único e mísero pentagrama nesse blog. DE CRISTIANISMO TEM UM MONTE, MAS NEOPAGANISMO QUE É BOM, NADA, NÉ???!
    u.u

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    1. Ainda estou elaborando a postagem sobre simbologia. Verifique a coluna da direita (Tradições Religiosas) e encontrará sugestão de site sobre Wicca, por exemplo. Até loguinho!

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