Fundadores das tradições religiosas

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Homens e mulheres deixam sua marca na história a partir da experiência extraordinária que fazem ao buscarem transcender. Para estas pessoas, aquilo que estava além dos sentidos e da própria imaginação, isto é, deus, o divino ou a iluminação, por exemplo, é vivido de uma forma totalmente original, de modo que tal experiência pode ampliar a consciência de certa realidade individual e também coletiva, desde que não seja negligenciada e corrompida. E, quando este processo acontece, converte radicalmente a vida de quem nele se envolveu. Institucionalizadas, elas e suas consequências ecoam de geração em geração, ainda contando com quem as faça de modo especial. De tais práticas fundantes vêm o que chamamos, em geral, tradições religiosas ou caminhos espirituais.

Há, contudo, certos protagonistas que foram perdidos no tempo e tornaram-se anônimos para as atuais gerações, bem como culturas, caminhos e tradições religiosas e espirituais que não têm um fundador conhecido ou, ainda, reconhecido, pois elas são fruto de experiências milenares e coletivas e de nada importa saber quem, comprovadamente, as iniciou. Todavia, isto não significa desprezar suas origens. Pelo contrário. Afinal, sabe-se que foram os pais de seus pais e as mães de suas mães, isto é, seus antepassados biológicos ou mitológicos os criadores de seus costumes e crenças. E, isto lhes é suficiente para que faça algum sentido. Este é o caso das religiões étnicas, tais como a Kaingang, a Guarani, a Inca, a Kalash, a Hamar e centenas de outras, além do Xintoísmo e do próprio Hinduísmo.

Quem faz profundas experiências é comum destacar-se dentre os demais. No âmbito da religiosidade também é assim. Tais pessoas tornam-se patriarcas, mestras, gurus, profetas, sábias, mentoras, guias, e mensageiras. Elas tornam-se, então, fundadoras de movimentos, expressões, caminhos, grupos, seitas, tradições, confissões, denominações e instituições religiosas. A pessoa que funda experimenta, interpreta e reinventa, contesta e confirma, cria e estabelece, escolhe e institui alguma novidade. Consequentemente, a opção por outro estilo de vida causa atração e fascínio e, não raro, rejeição e perseguição. O fundador religioso constrói o alicerce. Ele é o pai e a mãe de determinada tradição. E, isto de Abraão à Macedo, sem qualquer juízo de valor, pois onde há discípulo haverá mestres também.

Via de regra, antes de qualquer palavra dita ou escrita, é a vida do fundador que se torna a principal autoridade, motivação e critério para que sejam seguidos ou não. Tal como afirma o dito popular, suas palavras poderão convencer, mas seu testemunho e coerência pessoal podem ser fatores decisivos para confirmar certa empatia e, a partir disso, formar uma comunidade cujas opções e contribuições resistam ao tempo e suas circunstâncias. Dado significativo a ser registrado e analisado de modo mais meticuloso neste processo de construção das tradições religiosas e caminhos espirituais é a presença, envolvimento e influência da mulher, pois embora aconteça sob diversas perspectivas, é abafado, deturpado e desconhecido o protagonismo feminino, de modo a manter-se a supremacia masculina. 

Entretanto, para permanecerem vivas e ativas, as respectivas tradições contam com o engajamento de discípulas e discípulos cativados, escolhidos, convocados ou obrigados a trilhar os caminhos de certos mestres. E quem, de alguma forma, confere sentido a sua experiência sente-se impelido a transmitir tais descobertas às próximas gerações, de forma que seu papel torna-se decisivo para a continuidade ou falência das primeiras crenças e ideais. Ao passar por leves ou substanciosas reinterpretações, qualquer tradição poderá manter-se ligada ou desconectar-se de suas origens, a ponto de não mais ser reconhecida como tal. Isso também dependerá da necessidade do tempo e do lugar, bem como da coerência e ação do discipulado quanto ao princípio fundante no cultivo e reinvenção das tradições.

5 comentários:

  1. Ainn sor, é muito conteúdo pra prova da sétima manhã...(auxiliadora)

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  2. Sor, este é o texto que vc pediu? que ira cair na PA de educaçao religiosa amanha dia 27/04?

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  3. Muito legal seu site,bem completo com as coisas que eu tava com dificuldade,bj

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  4. Marina, aproveite isso, então. Beijo!

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  5. Muito legal sor. No seu blog achei muitas coisas que eu não estava conseguindo achar na Internet pra estudar pros mini testes. Agora já tenho tudo o que estava faltando. ass: Gabi. Turma: 161

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