Algumas declarações de amor

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

O relacionamento não era mais o mesmo. É óbvio, já completavam-se doze anos. E, algumas crises haviam amadurecido aquela convivência entre os dois. Não se brigava mais por quaisquer coisas. Quer dizer, na maioria das vezes. Pois, frescuras, vez ou outra, ainda tiravam-lhes todo o bom senso. Quanto a idade, essa ingrata, trouxera-lhes toda sorte de consequências e até algumas indesejáveis decisões. Os corpos haviam mudado, até bem mais do que fora previsto, em certo sentido. Costumava-se dizer que tudo era elevado a segunda potência numa relação entre iguais. Entre risadas, brincava-se que, neste caso, a marcação do tempo era dobrada, tal como a vida dos cães. E, em meio a tantas provas de amor e declarações, algumas eram bastante especiais: cozinhar, cantar e brincar.

Sem dúvida alguma, cozinhar é uma arrebatadora prova de amor. E a comida que ele fazia era uma delícia só. Até porque seus dotes culinários foram aprimorando-se. Se, antes, absolutamente tudo era separado e picado com bastante antecedência, agora já conseguia coordenar, simultaneamente, quase todas as habilidades de uma cozinha a-ma-do-ra. Entretanto, apenas descascar e picar os tomates e cebolas eram tarefas desmerecedoras de suas delicadas mãos. Tempero não se economizava, os de suaves aromas e os de picante sabor, de modo que eram variados os pratos arquitetados minuciosa e silenciosamente na elegância de sua cozinha e fogão. Sofisticados, diziam alguns. Cuidadosamente apresentados e cada vez mais saboreados na plenitude de um belo ritual, ainda que estivessem a sós.

Santo Agostinho já disse que cantar é próprio de quem ama. Insistia-se, porém, que ele cantasse algo corriqueiro. Qualquer música. Dessas que já tocam por aí. Mas a vergonha vencia-lhe sempre. Por isso, não o fazia. Contudo, era muito perspicaz, no sentido mais sem vergonha da expressão, quando parodiava e cantarolava as mais variadas canções. Do clássico ao bagaceiro, qualquer música tornava-se base para suas originais e divertidas declarações. Elas eram espontâneas e criativas. Algumas eram de elogio, ao passo que outras, a depender do momento, incomodavam também. De qualquer modo, suas versões eram muito mais significativas que qualquer música convencional. Mas, isso não era preciso repetir-lhe sempre, sob o risco de causar-lhe vergonha ou, pior, demasiado envaidecimento.

Destacar, ainda, as longas conversas nos fins de tarde, bem como a sua solicitude, da roupa lavada à informática atualizada, não seria nada incoerente como grandes provas de amor. Dormir de conchinha, então, poderia ser o ápice diário daquela relação. Entretanto, sua capacidade de brincar, ainda que incomodasse e, por vezes, até machucasse demonstrava o carinho do toque e a necessidade de um constante contato. Afinal, cócegas e cutucadas quase inesperadas, inclusive, nos momentos menos apropriados eram temperos apimentados, nem que fossem motivos para um xingamento constante da vítima da vez, de maneira que não passava um dia, pelo menos, sem que a destreza daquelas mãos cheias de dedos se divertissem com as variadas investidas sobre quem costumava fingir não gostar.

Além dos cuidados especialmente recordados, embora soubessem, era sempre merecido reforçar o quanto aquele amor, ainda estranho para muitos, completava a vida cotidiana um do outro. Haja vista que, vez em quando, trocavam-se presentinhos, aqueles bobinhos que só um casal fresquinho poderia um ao outro presentear: o por do sol, uma bela flor, o céu estrelado, a luz do luar. Mas, toda verdade também aqui seja dita, pois, entre choramingues, algumas vezes, reclamava-se por reciprocidade: você não faz mais isso e nem diz mais aquilo, somente eu é que faço. Ah, meu Deus, que encheção de saco. Entretanto, apesar desta ou daquela dificuldade, através das quais as relações são provadas, de uma coisa ainda não se duvidava: eles amavam-se, sem se imaginarem, por muito tempo, distantes.

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