Luteranismo versus Tomismo

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A Teologia Católica de Tomás de Aquino, padre dominicano-aristotélico, imbuída do espírito Iluminista do século XIII, nasce da aproximação entre a doutrina cristã e a filosofia grega. Nesta concepção teológica, “o conhecimento do mistério de Deus e da purificação do homem em seu entendimento se condicionam graças ao conhecimento”. É reflexão sobre a Escritura, é ciência da fé e sabedoria espiritual.

A isto se contrapõe a Teologia Protestante, no século XVI. Para Martinho Lutero, monge agostiniano-platônico que iniciou uma reforma na Igreja Católica, sendo, por isso, excomungado, “a verdadeira teologia é prática”. Nesta concepção a teologia não é feita de especulações, não é um academicismo estéril. A teologia é o resultado do seguimento concreto e integral de Jesus Cristo. É a reflexão sobre as experiências do povo a caminho, à luz da Palavra de Deus. Para o Luteranismo, as necessidades e os anseios do mundo de hoje são pontos de partida para a reflexão e o fazer teológicos. Portanto, a Teologia tem na prática da fé o seu nascedouro. Há nisto, um compromisso dialético entre o mundo e o Evangelho.

Segundo o teólogo católico Cassiano Floristán, em seu livro ‘Teologia Prática’, o Tomismo é uma concepção teológica cuja tentação e perigo, residem em anunciar os objetos da fé por meio de estruturas tão somente racionais e abstratas. Nessa direção também segue a orientação do Papa Bento XVI, quando diz: “É verdade que existe uma forma arrogante de fazer teologia, uma soberba da razão, que se coloca acima da Palavra de Deus. Mas o trabalho racional da verdadeira Teologia é motivado pelo amor a Deus”.  Não se trata, no entanto, de um desprezo à razão, mas a necessidade de colocá-la a serviço da vida e da esperança, pois “teologia é o êxodo do povo de Deus na esperança da promessa", afirma o teólogo protestante Jürgen Moltmann.

Segundo o professor Renato Machado, nisso se encaixa a ideia de “Teologia Pública”, defendida por vários teólogos contemporâneos na linha das teologias de contexto, para citar algumas: da libertação, de gênero, feminista, étnica, da paz. Na América Latina, pelo menos, de modo geral, o catolicismo romano ou boa parte dele reconheceu a urgência do seguimento de Jesus, ainda que na contramão. E, hoje, no fazer teológico de Católicos e Protestantes, apesar das diferenças e inquietações em torno da Mesa, há mais convergências que divergências. E, ecumenicamente, colocando a razão no seu devido lugar, encontramo-nos como Igreja no êxodo, ou seja, na vida, nas lutas, nas derrotas e nas vitórias do povo.

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