Carta 02 - As recentes inundações

Tournay, 28/01/2011

Queridos amigos e amigas
EM BUSCA DA PAZ,

Paz!

As recentes inundações que assolaram especialmente o sudeste do Brasil, com suas centenas de mortos e milhares de desabrigados, puseram a descoberto a face desorganizada de nossas cidades, que expõem grande parte de seus moradores a uma situação de risco. Estes acontecimentos, como outros, revelam a face violenta de nosso desenvolvimento urbano: nossas cidades, por sua própria (des)organização se tornaram centros de violência, onde se desenvolvem violências de todas as formas, seja direta, seja estrutural, seja também cultural.

Como o salmista podemos dizer: “na cidade só se vê violência e discórdia; dia e noite circundam seus muros, dentro dela há maldades e crimes; a injustiça e a opressão moram nela! Violência, impostura e fraudes já não deixam suas ruas e praças.” (Sl 54 (55), 10-12). Esta situação me faz convidar vocês, durante este mês de fevereiro, a clamarmos a Deus pela paz em nossas cidades.

O que significa rezar pela paz para nossas cidades senão também deixarmo-nos envolver pela “visão de paz” que Deus tem para cada cidade? Na Bíblia, a palavra “Jerusalém” significa exatamente “visão de paz”. E os livros sagrados se encerram exatamente com a visão de uma nova Jerusalém, que desce do céu à terra, como presente de Deus para seu povo (Ap 21,2.10). Esta cidade não terá portas porque nenhum mal habitará nela (Ap 21,25). Também não precisará de nenhuma iluminação porque será iluminada pela glória de Deus (Ap 21,23). E ninguém que pratique a mentira e o mal poderá nela morar (Ap 21,27).

Este projeto de Deus engaja a cada um de nós a imaginarmos e a nos empenharmos por cidades para a paz. Poderíamos, rapidamente, dizer que, entre outras coisas, uma cidade para a paz seria aquela na qual: promovem-se os direitos humanos, justiça social e desenvolvimento sustentável; fomenta-se a criação de comunidades solidárias; leis e normas estruturam-se a partir dos valores de uma cultura de paz e dos princípios da justiça restaurativa; desenvolvem-se diálogos e comunicação voltada para a paz; os espaços públicos possibilitam a vivência e a experiência democrática; os diferentes suportes urbanos – monumentos, praças, prédios, etc. - apresentam-se como promotores de uma cultura de paz; organizam-se parcerias com grupos culturais que promovem a paz; existem espaços para aprender e debater a cultura de paz; existem políticas públicas voltadas para a cultura de paz; capacitam-se pessoas para participarem de iniciativas para a construção de uma cultura de paz; etc.

Sobretudo, uma cidade para a paz é aquela onde as pessoas que nela vivem se comprometem a promoverem a concórdia, a reconciliação e a paz em suas vidas e ações. O que dá à nossa oração por cidades de paz uma dimensão pessoal, de transformação de nossos corações e mentes. Rezemos, então, assim:

Ó Deus,
tu criastes o ser humano
para a vida em comunhão
e desejas que cada cidade e agrupamento humano
seja uma “visão de paz”.
Nós te pedimos por nossas cidades
tão feridas por um desenvolvimento urbano desigual
e por todas as formas de violências.
Transforma nossas mentes e corações,
para que possamos construir cidades de paz,
onde todas as formas de justiça,
reconciliação e fraternidade
sejam experenciadas e multiplicadas.
Isto te pedimos por Jesus,
teu Filho, nosso Senhor, Deus contigo,
na unidade do Espírito Santo.
Amém!

Com toda minha estima e amizade,

D. Irineu Rezende Guimarães, OSB
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

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