Adolescência, um outro desafio

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A palavra adolescer tem origem latina e é formada pelos léxicos ad que significa 'próximo' ou 'perto' e olescer que significa 'crescer', 'fazer grande', ou seja, pessoa 'ainda em crescimento', no sentido de 'quase adulto'; também pode derivar de adolescere a qual dá origem à palavra 'adoecer'. [1] Além desta dupla etimologia, encontramos divergências também entre os estudiosos no que se refere ao sentido bio-psico-sócio-espiritual da adolescência. Haja vista os ritos de passagem para a maturidade, observados por inúmeras sociedades, a adolescência seria uma fase especial da vida ou seria uma construção cultural do mundo contemporâneo? Consequentemente, surgem mais perguntas, críticas e respostas são cogitadas no intuito de refletir sobre esta realidade humana.

Erik Erickson, psiquiatra alemão, a partir do conceito de moratória, caracterizou a adolescência como uma fase especial no processo de desenvolvimento humano. Segundo ele, nesta fase a confusão de papéis e as dificuldades para que a pessoa estabeleça uma identidade própria marcam-na como “um modo de vida entre a infância e a vida adulta.”[2] Contrapondo-o, Contardo Calligaris, psicanalista italiano, afirma ser essa adolescência estereotipada, que surgiu nos anos cinquenta, nada mais que uma invenção cultural, uma criação dos adultos que sobrecarregam os jovens dessa faixa etária com suas próprias frustrações.[3] Entretanto, uma síntese de ambos os posicionamentos poderia ajudar a rever os excessos, tanto de uma visão naturalista quanto de uma visão estereotipada da adolescência.

Apesar das controvérsias, a adolescência é alvo de interesse e pesquisa de áreas como a publicidade, a educação, a segurança e a política. Via de regra, considera-se tais pessoas aborrecentes, alienadas, consumidoras e culpadas. Por outro lado, há quem as considere cidadãs, protagonistas, sujeitos e também vítimas. Entretanto, pouco se sabe sobre a dimensão espiritual na adolescência. E os poucos estudos que se tem nem sempre chegam ao conhecimento de quem trabalha com esta realidade. Não se trata de desprezar e nem de idealizar a adolescência. O fato é que num período suspenso em que natural ou ideologicamente vivem e mergulhadas numa época de liquidez[4], tal como a que vivemos, a pessoa adolescente necessita de um olhar cuidadoso das Ciências da Religião e da própria Teologia.

Nesta perspectiva, Hilário Dick, jesuíta brasileiro, importante conhecedor e defensor das causas das juventudes, adverte que “se quisermos ser portadores da Boa Nova, precisamos ser especialistas, também, na Boa Nova que a realidade juvenil carrega em si. Conhecer a cultura juvenil, para um evangelizador, é reconhecer que no segmento da sociedade chamado ‘juventude’ se encontram as sementes ocultas do Verbo." [5] E chegar a este reconhecimento é um processo que demanda muito empenho. Sabiamente, Dick contribui no que se refere à espiritualidade da juventude como um todo. Esta reflexão, porém, sem muita pretensão, quer desafiar e ajudar no sentido de buscarmos respostas para as perguntas, angústias e anseios espirituais mais precisamente no contexto do ser adolescente.

Partindo do pressuposto de que o cultivo da espiritualidade precisa considerar perspectivas dialógicas e transformadoras que se manifestam interna e externamente ao corpo da pessoa adolescente, a oração, por exemplo, também deverá ser tão profética quanto estas transformações. Neste sentido, Henri Nouwen, teólogo católico holandês, diz que “uma oração na igreja, na mesa ou na escola é apenas um testemunho do que queremos fazer de nossa vida como um todo. Tal oração apenas nos lembra que orar é viver e nos convida a tornar isso uma realidade cada vez maior” [6]. Para tanto, é preciso que haja uma reiniciação e um acompanhamento constante da pessoa adolescente, ainda que à distância, pois esta poderá assumir o estilo de vida que julgar coerente, mesmo que implicitamente.

Confira
LIMA, Julio Cesar De. A espiritualidade da pessoa adolescente. In: Revista Redemoinho. São Leopoldo: Trilha Cidadã. Nº 13 - Abril, 2011.

Notas e referências
[1] Cf. DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Latim-Português/Português-Latim. Porto: Porto Editora, 2012.
[2] Cf. ERIKSON, Erick. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. 1976. P. 128. 
[3] Cf. CALLIGARIS, Contardo. A adolescência é uma invenção cultural Acesso em: 10.04.2011.
[4] Cf. BAUMANN. Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro. Zahar, 2004.
[5] Cf. DICK, Pe. Hilário. O divino no jovem: reflexões sobre a teologia do jovem. Porto Alegre: [s. ed], 2001. p. 14.
[6] Cf. NOUWEN, Henri J. M. Oração, o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

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