Pare agora o extermínio juvenil


Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Os números da violência, sobretudo nas regiões metropolitanas, há tempo colocam o Brasil no topo do ranking dos países que mais fazem vítimas entre as suas juventudes. Segundo o relatório da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, por volta de cinquenta e cinco jovens são assassinados todos os dias. Nesse mesmo sentido, outro estudo inédito divulgado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal brasileiro revelou que em sete anos mais de trinta e três mil adolescentes e jovens foram assassinados no país. E a Organização das Nações Unidas constata que são os jovens entre quinze e vinte e quatro anos os que mais sofrem tais agressões, principalmente a juventude negra e pobre das periferias. Entretanto, esta não é a perspectiva veiculada pela maior parte da mídia dominante.

Diante da perversidade deste quadro, os próprios jovens, via de regra, têm se posicionado com medo e pavor, outras vezes com resignação e há também quem esteja consciente ou inconscientemente alheio e indiferente a essas questões, de maneira a não perceber as consequências e os riscos que todos corremos. Poucos são os que, sozinhos, conseguem força e coragem para buscar alternativas para a superação dessas violências, muitas vezes, compreendida como natural e epidêmica, isto é, algo que, inevitavelmente faz parte da vida e do cotidiano, necessitando, aqui e acolá, apenas alguma medida paliativa ou repressiva. Tais posturas conduzem ao crescimento do sentimento de impotência, desânimo e mal-estar diante da própria vida e diante da perspectiva de uma justa vida em sociedade.

Não há dúvida de que as medidas para o fim da violência e implementação da paz terão alcance muito reduzido se permanecerem no campo restrito da resposta à violência. Inúmeras experiências ao longo dos séculos nos dão prova disso. Basta verificarmos, por exemplo, os esforços e orçamentos das nações, em geral, no que diz respeito à construção de escolas se comparado à construção de presídios. A superação da violência exige, sim, uma transformação cultural. Para isso, é preciso ações de sensibilização, conscientização e regulação dos órgãos públicos; acompanhamento e denúncia das violações de direitos humanos praticadas pela mídia e outras estruturas sociais; organização permanente de atividades que visibilizem tal realidade e, sobretudo, formação para os valores da paz.

O preâmbulo da constituição das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a UNESCO,  por sua vez, desafia-nos a essa perspectiva: “Como as guerras nascem na mente humana, é na mente humana que devem ser erguidas as defesas da paz”. Portanto, para alcançar uma solução eficaz, faz-se necessário criar pólos positivos de não-violência. Tal movimento pressupõe a implementação de novos projetos e o reconhecimento dos que já existem; investimento de recursos materiais e humanos, bem como o acompanhamento sistemático e criterioso, a fim de mudarmos os históricos paradigmas violentos com os quais nos acostumamos. É preciso acreditar e trabalhar para que, a partir das novas gerações, seja possível vislumbrar possibilidades de vida plena sobre a face da terra.

Um trabalho de ativação do potencial transformador das juventudes, em nível de suas motivações mais profundas, é o caminho para uma inversão desse quadro de violência e, a longo prazo, uma significativa contribuição nesse processo de transformação cultural. Para isso, faz-se necessário um sólido programa de formação para a paz e não-violência, através de métodos que reconheçam o protagonismo juvenil. Ainda que isoladas ou em processo de expansão, poderíamos citar uma série de experiências bem sucedidas, mundo a fora, apoiadas por pessoas e organizações, as quais acreditam que crianças, adolescentes e jovens imbuídos do suporte teórico e prático da educação para a paz reestruturarão profundamente suas vidas, assegurando a tão sonhada dignidade a muitas gerações.

Confira
LIMA, Julio Cesar De. Pare o extermínio juvenil. In: Enfoque Notre Dame, Canoas, RS, Dez, 2013.
LIMA, Julio Cesar De. Pare o extermínio juvenil. In: Mais Petrópolis, Porto Alegre, RS, Abr, 2011.

Notas e referências
CONSELHO NACIONAL DE IGREJAS CRISTÃS. Cultura de paz: guia para a transformação social. São Paulo: Salesiana, 2005. 
CAMPANHA NACIONAL CONTRA A VIOLÊNCIA E O EXTERMÍNIO DE JOVENS. Juventude contra a violência. Acesso em: 17.04.2014.
GUIMARÃES. Marcelo Rezende. Aprender a educar para a paz: instrumental para capacitação de educadores em educação para a paz. Goiás: Clai/Rede da paz, 2006.
JUVENTUDE EM MARCHA CONTRA A VIOLÊNCIA. Juventude em marcha. Acesso em: 12.01.2013.

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