Quando os donos são os animais

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Ter um bicho de estimação não é costume recente. Mas, esta prática, nos últimos tempos, parece ter aumentado consideravelmente. De maneira que pessoas de todos os tipos ostentam, igualmente, animais de todos os jeitos. Aliás, tanto na personalidade quanto na aparência, eles parecem bastante com seus donos. Ou seria o contrário? A onda "eu amo o meu pet como um filho" não seria, também, uma tentativa desesperada para suprir certas carências humanas nesses modernos tempos? Além disso, relacionar-se com eles, dizem alguns, é bem mais fácil que se relacionar com outros seres humanos. Neste caso, eu tenho pena... dos animais, é claro. Pois, não acho ecologicamente correto tratá-los sob o excesso dos cuidados domésticos.

Estudos apontam que a relação saudável com os animais pode ser muito benéfica à reabilitação de pessoas. Quanto a isso, obviamente, não há problema algum. Contudo, certos limites podem e devem ser mantidos. Não se pode confundir as coisas. Um rato não é uma vaca. Da mesma forma que não dá para tratar um cachorro como ser humano. Acho isto, inclusive, falta de respeito com os próprios animais. Algumas declarações rotineiras, em qualquer esquina, evidenciam algo tão inusitado e esdrúxulo quanto insano, tais como: "Hoje, o dindo não trouxe um brinquedinho pra ele!", "Tava com saudade da vovó, tava!?". E uma distinta senhora diz a sua cachorrinha: "Que coisa linda... que coisa querida... vem aqui com a mamãe!". Mas, o que aconteceria se eu, por acaso, a chamasse de cachorra?

Fato que também interfere no bem estar coletivo é a imundice encontrada nas calçadas, praças e praias. Tanto que tirar o calçado ao entrar em casa tornou-se prática necessária. Um dia desses, por exemplo, chamei a atenção de um vizinho quando seu cachorro cagou em frente ao portão do prédio onde moro. Embora, preso à coleira - não sei se ele ou seu cão - o sujeito fez pose de que estava em sua própria casa e, descaradamente, foi saindo de mansamente. Ia embora sem recolher as fezes do animal. Enchendo-se de razão, num tom ameaçador, ainda respondeu-me que eu não precisava ter chamado sua atenção. Mas, se o bom senso não prevalece naturalmente, uma lei municipal, por sinal, estampada em vários pontos da mesma rua, regulamenta. Aliás, quem deve fiscalizar essas coisas?

Hoje, evidencia-se uma nova mentalidade ecológica a qual, a partir da teologia judaico-cristã, parece ter afastado o ser humano do centro da criação. Embora nova para os padrões ocidentais, ao menos, na perspectiva da preservação das espécies e do próprio planeta, como um todo, esta releitura não deve afligir. Pois, ela tampouco contradiz a essência da teologia da criação. Pelo contrário. Ela reposiciona o ser humano, colocando-o em seu devido lugar, ou seja, criatura entre as demais. Afinal, o humano foi criado e convocado a admirar e a contribuir de modo inteligente para o cuidado integral da criação. E, nesse sentido, haveremos de convir que uma conversão faz-se necessária e urgente. Mas, por que nossa cultura costuma restringir tal prática quase que exclusivamente a gatos e cães?

Sempre tivemos animais em casa. Geralmente, eles tinham papeis bem definidos. E todos eram muito bem tratados. Provavelmente, aquela também fosse uma relação utilitária. Pois, os bois puxavam a carroça e o arado, das vacas tirava-se o leite, os porcos davam o salame e a banha, as galinhas garantiam os ovos, os cachorros cuidavam os arredores da casa e os gatos deixavam os galpões livres dos ratos. Entretanto, por trás da relação atual, encontra-se também um bem-sucedido mercado, incentivando e lucrando com muitas manias extravagantes, ou seja, roupas, acessórios, comidas, festas, taxidermias, enterros e terapias. Com frequência, tal realidade leva-nos a questionar: diante do cavalo maltratado que puxa a carroça do humano desfigurado, qual deverá ser a atitude da gente?

2 comentários:

  1. oi sor é a Mary Teixeira da 164 do CMA adorei o seu blog ele ta d+ bjs!

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  2. Oi sor, dei uma olhada no seu blog, e li algumas coisas, achei bem interessante. E também concordo com o texto ''Detesto gente espaçosa'' haha. Beijos.
    Brenda Petersen, 184 CMA.

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