Existe vida após o parto?

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Conta-se que, ainda na barriga de sua mãe, um dos gêmeos perguntou a seu irmão: será que existe vida após o parto? Esta pitoresca metáfora remete-nos à escatologia humana, à pergunta sobre a realidade última de nossa existência: para onde vamos? O que será de nós? Há vida após esta vida ou a morte é o nosso total e definitivo aniquilamento? Haverá uma resposta verdadeira ou todas não passam de mero delírio e ilusão? Todas as pessoas experimentarão as mesmas possibilidades ou acontecerá a cada uma conforme acreditou durante toda a sua vida? Afinal, para onde vamos quando formos embora daqui? Tantas são as perguntas e única é a nossa certeza: a morte é inevitável. Cedo ou tarde ela é consequência da nossa vida e iguala quem quer que seja.

Antes de ser uma questão religiosa, a morte é uma questão biológica e afetiva, a partir dos laços de pertença que determinado indivíduo tinha com sua família, parentes, amigos e conhecidos. Pois, nenhuma outra experiência desestabiliza tanto o ser humano quanto a realidade da morte. Ela é uma descoberta feita ao longo de um processo evolutivo, de modo que, ao deparar-se constantemente com a morte, o ser humano tentou e aprendeu dar-lhe sentidos e até hoje busca alternativas. O tempo foi passando e tal experiência tornou-se cada vez mais especial, apesar de inexplicável. E, as culturas e tradições a celebraram como o ápice desta existência na terra. Por essa razão é impossível falar do sentido da morte sem ponderar as questões que envolvem o sentido da vida e vice versa.

Por princípio, a morte ignora toda e qualquer diversidade. Ela atinge todo o ser que vive e que respira. Contudo, há uma grande diferença entre a morte trágica, antecipada, provocada e negligenciada e a morte natural, consequência de uma vida vivida com o máximo de dignidade, existida em plenitude. Analisar tais questões é algo tremendamente complexo, pois cada cultura e tradição religiosa, a partir dos seus respectivos contextos, ou seja, do lugar e da época em que se encontra, deu novos matizes a essa experiência tão singular, de maneira que todas as nossas crenças são consequências do que já foi experimentado. Se a morte, então, é inevitável, não há unanimidade alguma no tratamento que se dá a ela, desde os ritos funerários até a possibilidade do que pode haver depois.

O ser humano vive sob uma atmosfera a ser, um dia, desvelada por completo. Porém, tanto para o feto quanto para quem já nasceu, o que está por vir é apenas misteriosa possibilidade. Ainda que a maior parte da humanidade esteja esperançosamente convencida de que haja sinais que antecipem a continuidade da vida além da morte, o que garante tal verdade é indubitavelmente a fé. Por mais que queiram uns e outros, não há certezas comprovadas cientificamente. E precisaria? Por isso, a vida além da morte é uma das questões fundamentais das religiões, sem necessidade de comprovação científica. Refletir sobre a morte é ponderar a dimensão religiosa do ser humano. E, para responder a indagação pela realidade última da vida, há tantas concepções quanto à própria diversidade humana.

Nesse sentido, há quem acredite e também quem não acredite em vida após a morte. Para quem acredita na sobrevivência do espírito ou de uma identidade pessoal para além dessa vida, estaríamos apenas de passagem pela terra. E esta seria uma parte de uma imensa e vasta existência, Tais pessoas dividem-se em três grupos, a saber: ancestralistas, reencarnacionistas e ressurreicionistas. Para aquelas que não acreditam haver nada além da morte, tudo surgiria e acabaria com o fim do corpo físico e material. Estes são os niilistas. Entretanto, o fato é que, rechaçada ou acolhida, ignorada ou ressignificada, a única confirmação que a maioria tem é a do parto e a da morte. Para além disso, tudo é mistério da fé, até que se experimente, quando chegar a hora, a morte e o morrer.

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