Ele foi o meu primeiro pedagogo

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Minha mais significativa memória do primeiro dia de aula não está relacionada à professora, nem aos colegas, menos ainda à escola onde estudaria por cinco anos. O que guardo, carinhosamente, em minhas lembranças é a atitude do meu primeiro pedagogo, daquele que me conduziu na direção dos saberes. Pois, um pouco diferente do sentido que damos hoje, na Grécia Antiga, pedagogo era quem levava as crianças para tornarem-se discípulas de algum mestre. De modo que meu primeiro ano letivo começou no mês de março. Eu tinha seis anos de idade. E, naquela tarde, o sol quente trazia muito mais possibilidades para nos aventurar num mar de emoções. Fui para o banho, almocei e fiquei pronto para a longa jornada que estava por começar.

Nossa casa não ficava perto da escola. Mas, também, não era tão longe assim, de maneira que, algum tempo mais tarde, percorreríamos sozinhos aquela distância. Porém, no primeiro dia de aula eu precisava de alguém que me acompanhasse. Minha mãe, provavelmente, preveniu-me de uma série de coisas, preparou-me algum lanche: grôstoli, broa ou um pedaço de pão com chimia, talvez. Não lembro o que foi. Mas, bem me lembro daquele que me conduziu aos cuidados da professora. Foi ele meu primeiro pedagogo, segundo a etimologia da palavra. Pegou-me pela mão e levou-me à escola. Na época ele também estudava. De dia trabalhava na roça e, à noite, de bicicleta ou a pé ia à cidade para fazer um curso técnico em contabilidade, certamente exigindo-lhe um esforço redobrado.

Venha sempre por aqui. Siga por esse caminho. Dizia-me ele, logo ao sairmos pelo portão lá de casa. E, atravessando um potreiro gramado, eu segurava sua mão calejada, enquanto ele continuava a insistir: faça isso, cuide aquilo. Pulamos, então, sobre um pequeno córrego, subimos e descemos uma breve lombada, andamos debaixo de algumas árvores e um segundo córrego foi superado. Não sei se foi proposital da parte dele, mas ainda sinto algo bem lúdico naquele caminho. Passamos por um grande portão de madeira e arame farpado, o qual era sempre difícil e chato para abrir e fechar. Continuamos, coxilha acima, por uma trilha que precisava ser constantemente roçada para o conforto, mas principalmente para a segurança de quem por ali passasse, de modo especial das crianças.

Meu pai falava-me com tanta tranquilidade, clareza e segurança que suas orientações, de imediato, convenciam-me. Mesmo porque, ai de mim se não as seguisse. Apesar de que ele não costumava nos bater. Só se fosse absolutamente necessário. De qualquer modo, ele tornava-se minha referência. Não esqueça de tomar cuidado com os cachorros do Tio Agnelo, preocupou-se àquela altura, eles podem estar soltos e avançar pra morder a gente. E essa informação tornava-se a parte mais assustadora daquele caminho. Ao chegarmos à estrada principal, alertou-me para os carros. Sendo que, para minha segurança, eu deveria andar pelo acostamento, praticamente pela valeta. E, deixando-me, enfim, na escola, sob os cuidados da professora Tânia, voltou para casa, para continuar sua lida.

O que passava pela cabeça do meu pai, em seu caminho de volta, não tenho certeza alguma. Hoje, apenas cogito. Mas, lembro-me que nos anos seguintes, diariamente, eu faria aquele mesmo trajeto. Exatamente como fui orientado. O tempo, entretanto, voou e desafiou-me a traçar os meus próprios caminhos. E, ainda que não tenham sido sempre tão lúdicos, bem traçados e seguros, aquele, o primeiro, sempre permanecerá emblemático. Oxalá, os filhos, apesar de quaisquer condições, não frustrassem todas as expectativas de seus pais. Apenas as necessárias. E mais algumas, quem sabe. De maneira que não posso saber, pois não os tenho. O que, talvez, eu tenha são alguns discípulos, os quais recebem, indiretamente, o que ficou em minha memória das mãos abençoadas de meu pai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMENTE, DEIXANDO NOME E E.MAIL PARA CONTATO. OBRIGADO!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...