O estudo da religiosidade na escola

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A opção por esta ou aquela escola para os filhos, geralmente, baseia-se numa série de critérios. E para muitas famílias, inegavelmente, o aspecto religioso da instituição é levado em consideração, pois, além do pedagógico, a escola assumiria a educação da fé dos seus filhos, haja vista que esta nem sempre é considerada, iniciada e acompanhada pela família contemporânea. No entanto, o que dizer quando um colégio católico, luterano, adventista, israelita ou, ainda, estatal, não ensina suas próprias crenças, valores e ritos, mas abre-se para o estudo e o conhecimento de todas as formas da humanidade buscar, definir e relacionar-se com a transcendência? Eis o paradigma atual do componente curricular de Ensino Religioso, sem forma alguma de proselitismo.

Em primeiro lugar, consideremos o ser humano formado por quatro dimensões fundamentais, a saber: corporal, mental, social e espiritual as quais, evidentemente, poderiam ser nomeadas e agrupadas sob outras maneiras. Entretanto, não cabe ao ser humano optar por ter esta ou aquela dimensão. Se for humano, assim será constituído. Do contrário, talvez, estaríamos falando de uma outra espécie. Não obstante, Albert Camus afirma que “o ser humano é o único animal que não quer ser o que é”. Neste sentido, o que poderá ser escolhido, consciente ou inconscientemente, é a maneira de lidar com tais dimensões, ou seja, ignorando-as ou aperfeiçoando-as. Dizendo de outra forma, não é razoável, por exemplo, afirmar que não temos ou não somos corpo, mas pode-se escolher cuidá-lo ou desprezá-lo.

Partindo deste princípio, o ser humano, inevitavelmente, também é um ser espiritual, ou seja, ele não se contenta somente com o que cheira, saboreia, toca, ouve e vê. As coisas que o levam para além dos cinco sentidos e para além da própria imaginação o complementam e o realizam profunda e, quase, inexplicavelmente. Elas fazem sentido à vida, embora pareçam e, por vezes, sejam absurdas. Porque é espiritual, o ser humano quer evoluir, quer ultrapassar todos os limites estabelecidos, enfim, quer transcender. Por isso, criou e recria diferentes jeitos de se relacionar com aquilo que está além dele mesmo, seja qual for o nome que lhe der: Deus, Divino, Luz, Luminoso, Sagrado, Vida, Sobrenatural, Cosmos, Universo, Buda, Transcendente, Orixá, Grande Espírito, Totalmente Outro, Verdade Última.

Em segundo lugar, se a dimensão espiritual é inerente ao ser humano, de alguma forma, ela tornar-se visível no cotidiano pessoal e coletivo, precisamente na cultura, isto é, nos costumes e no jeito das pessoas e grupos viverem e, consequentemente, nas marcas que os povos, sociedades e tradições deixam por onde passam. Tal fenômeno, até onde se conhece, singularmente humano, também é constatado por estudiosos, pesquisadores e críticos, muitos dos quais considerados ateus. E, ainda que a religião seja tratada como fruto da imaginação, ópio do povo, neurose e instrumento de alienação, inegavelmente, ela é um fenômeno, ou seja, mostra-se, é visível, audível, palatável e detectável. Aliás, é impensável compreender determinada cultura desconsiderando seus princípios espirituais. 

Assim, cabe à escola, como espaço privilegiado para observar e refletir, construir e sistematizar o conhecimento na sua totalidade, o desafio de reler o fenômeno religioso junto às Ciências Humanas. E, na perspectiva de uma educação integral, é preciso qualificar este processo pedagógico, corrigindo equívocos e desenvolvendo práticas a fim de que esta releitura contribua efetivamente não só como forma de autoconhecimento, mas como reconhecimento do sagrado e da diversidade cultural religiosa do outro. Contudo, são poucas as escolas que correspondem a esta demanda, pois o receio de perder a identidade institucional, em vista de uma hegemonia cultural, por vezes, faz com que o proselitismo minimize e até subtraia uma compreensão mais coerente dessa dimensão essencial da vida humana.

Notas e referências
FEURBACH, Ludwig. A essência do Cristianismo. Campinas: papirus, 1988. p. 4
CAMUS, Albert Apud ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 2002.

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