Os natais da minha boa infância

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Naquele tempo, os solteiros ainda moravam em casa e os casados iniciavam a aventura de constituir um lar. De maneira que, ali mesmo, ao redor daquela antiga morada, há tempos reduto paterno, novas casas eles mesmos idealizavam e erguiam. Quanto a terra? Ora, a terra, ainda sem muitas taipas, arames farpados e cercas, mais uma vez se dividia. Contudo, ela fazia-se suficiente para viverem a vida. Nada de luxo, é claro, nem extravagâncias, nem necessidades desnecessárias haviam. Não sem desejos, pois os desejos sempre existem. Mas, a única opção tinha que ser pelo que era preciso. Até porque, no fundo, aquela poderia ser uma simplicidade digna. Aliás, da terra provinha a maior parte do sustento e do alento àquelas famílias onde os irmãos trabalhavam juntos.

Quando, enfim, o forte do verão desbravava a serra, a lida no fumo tomava a maior parte dos esforços e do tempo. Da roça ao galpão, folha por folha passava por muitas mãos, às vezes, provocando ásperos calos que as engrossavam, deixando marcas em quem, de fato, precisava trabalhar nisso. Principalmente pelo uso de fortes agrotóxicos, o processo todo era custoso. Mas, em especial, era a colheita que melava, da cabeça aos pés, o corpo que dependia da terra e resistia cansado e dolorido de sereno a sereno. Quase que cegamente, da semeadura ao carregamento, este ciclo repetia-se até que a safra fosse toda entregue e, oxalá, vendessem bem, pois era preciso um pouco de sorte. E neste contexto de início de colheita sob um sol escaldante é que o Natal nos presenteava com sua visita. 

Apesar disso, naquele tempo havia espera e preparação. Além de trabalhar na roça, sem diferenciar-se em nada dos maridos, na véspera, as mulheres faziam doces e assavam bolachas, varriam o terreiro e esfregavam a casa, das paredes ao chão. Os homens, por sua vez, organizavam as varandas e galpões, assim como garantiam a lenha e o trato da bicharada. À meia-tarde, com a lida encaminhada e de banho tomado, reuniam-se na casa do vô e da vó. Descansavam, proseavam e gargalhavam, enquanto tomavam chimarrão. À noite, geralmente, e, às vezes, ainda de dia, esperava-se o Noel que acertava as contas com a piazada e com alguns adultos também, antes de entregar algum presente de primeira necessidade. De maneira que o clima que se criava misturava expectativa e mistério, alegria e receio.

O nosso Natal não exigia pinheirinho enfeitado. Nem presépio a gente tinha, porque nunca foi tradição da família. Não havia luz elétrica, tampouco quaisquer brilhos artificiais. O que resplandecia, realmente, era o sol nas cochilhas, o fogo nas fornalhas e a satisfação espontânea na cara da nossa gente. Quanto a mim? Sim, eu também já fazia festa e folia por lá. E, ainda que, por vezes, os irmãos brigassem, por razões razoáveis ou por burras burrices, isso nunca inviabilizava o tradicional banquete no dia do Natal. Para este almoço o vô Mimoso escolhia e carneava uma ovelha do seu mixado rebanho e, ao lado da casa, debaixo de um esparso arvoredo, juntava a filharada, noras e genros, netos e parentes, comadres e compadres próximos para confraternizar ao redor de uma mesa. 

Com isso, encerravam-se os costumes daqueles natais para que, no dia seguinte, o labor continuasse. Mas, de alguma forma, o que ali experimentava-se ficava alimentando a família inteira. Sobre Jesus, acredito que entendia-se e falava-se pouco, até porque a missa natalina já havia sido rezada semanas antes na capela à Santa Catarina, talvez, na obrigação de alguma penitência. Evidentemente, não se conhecia em profundidade acadêmica a teologia da encarnação e nascimento do Senhor, mas vivia-se um tempo sagrado, de graça, que minha memória amou e jamais esqueceu, ou seja, o calor e a colheita, a preparação e a espera, a conversa e o riso, a vara e o presente, o arvoredo e a ovelha, a comida e a mesa, a reunião e a família, o vô e a vó, o pai e a mãe,  enfim, os natais da minha infância.

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