Afinal, quem é o meu próximo


Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Porto Alegre, sexta-feira, vinte três horas e quarenta e cinco minutos. Estação Mercado, avisou o condutor. O trem parou e eu estava com bastante pressa, voltando do trabalho. Já era quase verão e a noite estava quente, tal como foi o dia inteiro, daqueles que a gente não tem vontade nem de sair pra rua, quanto mais retornar a meia noite. Contudo, quinze minutos seriam suficientes para que eu estivesse em casa. E, a pé, apesar do longo dia, chegaria antes de qualquer ônibus que eu pegasse. Até porque, à meia noite, nenhum coletivo passava próximo à rua onde moro. De qualquer forma, mesa, chuveiro e cama era tudo o que eu mais queria e necessitava. Não nesta mesma ordem, mas gostaria que fosse assim.

Saindo da estação, a passos largos, dobrei a primeira esquina. No segundo quarteirão, uma cena inusitada, de certa forma, armou-se bem diante dos meus olhos: nem pra frente e nem pra trás, ou seja, uma frágil criatura empreendia toda a força que lhe restava para equilibrar-se, no intuito de permanecer em pé. Era uma mulher de meia idade, cujo rosto abatido, a roupa surrada e o murmúrio consigo mesma denunciavam sua embriaguez. Sem cogitar outra possibilidade, passei adiante. Altivo. Entretanto, não resisti e voltei meu olhar para trás, ao passo que ela já encontrava-se com a testa tocando o chão. Parei. E, de longe, acompanhei o que aconteceria. Apesar das condições, ela bem que tentava, sozinha, porém, seria impossível levantar-se. Ir embora ou retornar? O que eu deveria fazer?

Embora tarde, muita gente voltava para casa. Ainda bem que os carros não costumavam circular ali àquela hora da noite. Alguns debocharam, gritando de longe, enquanto muitos, como eu, continuaram passando. Uma adolescente, porém, aparentando ser uma moradora da rua, não hesitou sequer um instante, atravessou o calçadão, chegou mais perto, abaixou-se e do seu jeito perguntou àquela mulher embriagada como ela estava e o que, afinal, havia acontecido. Insistiu umas duas vezes, mas nenhuma resposta consciente obteve da pobre senhora. Também ela, então, foi embora. Quanto a mim, debulhava-me de cansaço. Além disso, era certo que outras pessoas deveriam ajudá-la. Diante da fracassada tentativa da menina, dei às costas e mais uma vez eu segui adiante. O que fazer, afinal?

Volte! Já! Imediatamente! E, de súbito, eu retornei. Pois, alguma coisa precisava ser feita, embora não soubesse o quê. Mas, qualquer coisa, àquelas alturas, já seria o suficiente. Cheguei perto, abaixei-me e toquei-a. O asfalto e o álcool haviam-lhe ferido a testa, não muito, mas um pequeno corte aparecia. Ajudei-a, então, a levantar-se. Cambaleamos juntos. Onde a senhora mora, perguntei-lhe mais de uma vez, preocupado e timidamente. Mas, só resmungos eu continuava a ouvir. E, sobre a calçada, entre um prédio comercial e uma agência bancária, encostei-a na parede onde pudesse descansar um pouco. Olhei o corte, embora sem tocá-lo, e constatei que não era grave. Apesar de tudo, achei que era disso que precisávamos, ou seja, um pouco de sono e descanso. De modo que fui embora de vez.

Se, ao menos, ela dissesse onde morava. Se alguém pudesse ter me ajudado. Se isto, se aquilo... Afinal, desculpas esfarrapadas também aliviam culpas. Aliás, em certos momentos, não sei o que é pior: dor de cabeça ou de consciência. Entretanto, o que eu havia sentido ou escutado? Alguém mandou que eu voltasse? Teria sido um Deus furioso ou minha coerência indignada? O que, de fato, foi, não interessa! O importante era perguntar-me se eu fui o próximo daquela mulher embriagada. O que mais eu deveria ter feito: encaminhado-a ao hospital ou procurado uma farmácia? Levado-a para minha casa ou pagado-lhe uma pensão? Chamado uma ambulância ou colocado-a num táxi? Dado-lhe água ou servido-lhe um café? O quê, o quê, o quê? Oh, Deus! Quanta pergunta cheia de medo!

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