Sobre a discussão de gênero

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal. Obl. OSB)

Sobre qualquer assunto, de modo geral, dois grupos costumam manifestar-se: o que sabe e o que ignora. Receio ser bombardeado pelos ignorantes. E confesso que nem eu compreendo inteiramente essa discussão, e mais que isso, toda essa realidade que envolve as questões de gênero. Entretanto, vejo pessoas adultas infantilizadas. Sobretudo, vejo crianças manipuladas, reproduzindo discursos prontos e sacralizados como se fossem doutoras em todas as Ciências Humanas. É inegável que aposto no protagonismo delas. E acho que os mesmos adultos, tantas vezes, as subestimam. Porém, gostaria de vê-las manifestando-se quanto a sentirem-se acolhidas em suas reais dores e angústias e compreendendo que nem tudo nós conhecemos, principalmente quanto às vontades de Deus, a fim de que ninguém se autorize descontextualizadamente a falar, a julgar e a matar em seu nome. Sala de aula e exposições de arte são lugares muito sérios, mas não são salas de cirurgia. Nas primeiras, os envolvidos podem mudar de percepção e ideia cinco ou dezesseis vezes por dia. Esta é a escola com posições e posicionamentos, a escola que toma parte, aquela escola com partido, a escola de gente complexa, a escola do dia a dia, onde a paleta de cores é um arco-íris e os olhos sabem ver entre o preto e o branco, sem malícia, cinquenta tons de cinza. Entretanto, uma coisa não lhes pode ser permitido mexer: no respeito, não a tolices e intolerâncias, mas no respeito e reverência à dignidade inviolável da Outra e do Outro, coisa que os ignorantes ainda não aprenderam. E querem aprender?

Resposta a uma boa ministra

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Postagem: "O Brasil não se ajeita porque o brasileiro sempre achou que toga, farda, paletó, hábito e batina são sinônimos de integridade." Questionamento: Mas o que aconteceu com você, Júlio? Não generaliza." Resposta: Querida Renildes, continuo praticando as coisas que rezo todos os dias; exercitando os salmos que canto todos os dias; procurando compreender o Evangelho que leio todos os dias; fazendo de tudo pra viver nossas liturgias. Aquelas mesmas que muitas vezes trabalhei com vocês: a missa, o ofício divino das comunidades, a liturgia das horas, a leitura orante. E esse tal Jesus de Nazaré tá me pedindo cada coisa! Tô levando cacetadas Dele a cada versículo no qual ouso passar meus olhos. Descobri que até o assassinaram, depois de um julgamento de cartas marcadas. Ops, coincidência com nossos dias!? Mas espera aí. Impressão minha ou vocês pararam de rezar essas coisas? E se ainda rezam, vocês estão compreendendo o que fazem? Confesso que estou assustado com teus posicionamentos. Achei que o novo bispo de Cruz Alta fosse mais desafiador para a opção preferencial pelos mais pobres. Achei que Francisco estivesse nos deixando de cabelo em pé, semanalmente, para que a nossa igreja volte a ser verdadeiramente o que Jesus deixou muito claro que queria que fosse, no seu Evangelho. O que aconteceu comigo, querida Renildes? Acho que ando me convertendo, a cada dia, para as coisas que sempre acreditei. Porque, entre acreditar e viver o que acreditamos, há um abismo que, há tempos, estou atravessando. Eu pensei que você fizesse o mesmo.

Não falar é outro jeito de falar

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A filósofa gaúcha Márcia Tiburi escreveu, há pouco, como conversar com um fascista. Se ela foi incoerente ao recusar-se dialogar com Kim Kataguiri, integrante do MBL, nesta semana? Não. Surpreender os fascistas com ações é primordial. Não querer falar também é uma forma de falar. É uma provocação autêntica para que estes percebam que existe um outro, uma outra, de carne e osso. Estar eternamente à disposição não ajuda quem sempre acha que está com a razão, quem ostenta a espada sagrada do capital e golpeia quem lhe desafia. Como seguidor do pacifismo de Jesus, de Gandhi, de Hélder, para citar apenas três, ainda que não entenda tudo deles, penso que esta configura-se legítima ação não violenta. Do contrário não seria pacifismo, tampouco libertação, seria subserviência e melação. Fascistas, capitalistas e violentos sempre desejam que estejamos de braços abertos a eles. Fazem e, um dia, quem sabe, dizem ter se arrependido. Mas eles não costumam se arrepender. Por outro lado, salvo exceções, garantistas, socialistas e pacifistas confiam em demasia em suas utopias e entregam exclusivamente ao futuro suas pretensões. Entretanto, ser pacifista e resistir as pancadas  e os golpes não significa permanecer em gozo no chão. Até porque pacifismo não é passividade e nem masoquismo. E a defesa da dignidade, no concreto da vida, não se consolida botando fitinhas no braço, soltando pombinhas brancas, dando abracinhos e beijinhos, não se faz com melações. Ações não violentas são provocativas, transformadoras e exigem muito de quem se aventura a fazer a paz.

Quando se põe tempero na vida

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Ela era uma menina linda, do oitavo ano, quando fui seu professor pela primeira vez.  E, naquela turma, eu curtia a atenção, a acolhida e as tímidas discussões, embora fosse uma turma heterogênea e nem sempre contentasse todos os colegas meus. No ano seguinte, mudou de turma e, então, fez-se ponte entre os seus novos colegas e eu, pois nesta eu é que não mais me sentia tão bem. Cheia de perguntas e decidida, suave e transparente, trazia mistérios em seu olhar. Como não conheci sua mãe, arrisco dizer que a gentileza ela herdara do pai. Da querida Paulinha guardo estas lembranças, pois ao se estabelecer uma relação de confiança pedagógica, os conteúdos e a vida ganham os temperos que educadores e educandos resolvem usar. E isto vale a pena, pois extrapola a sala de aula.

"Oi Julio! Enquanto eu estudava Budismo outro dia me lembrei de ti e me bateu uma saudade. Eu queria te dizer algumas coisas que ainda não tive a oportunidade de dizer. Antes de tu ser meu professor eu não tinha quase nenhum interesse em estudar outras religiões e culturas no geral, a impressão que eu tinha sobre o Ensino Religioso não era algo positivo e eu não fazia ideia que era possível estudar etimologias e outros assuntos não focados apenas em uma religião nesse componente curricular. Mas quando tu apareceste eu sinto como se minha cabeça tivesse sido aberta para um outro mundo, uma outra visão de mundo. Eu sempre gostei muito de ter aula contigo e apreciava muito teus ensinamentos. Prestava muita atenção no que tu tinhas a dizer porque eu sabia que era algo novo e fascinante para mim. Fostes tu que com tuas aulas sobre diferentes religiões, me ajudou de certa forma a achar meu caminho. Hoje sigo o Budismo e estou muito feliz com as minhas novas descobertas. Tu sempre me impressionavas com a tua capacidade de criar um ambiente calmo em uma sala com 40 estudantes agitados e eufóricos. Além disso, eu acho incrível que tu tens a cabeça aberta para aprender com os outros e ouvir e respeitar a opinião de todos. Tu sabias algumas coisas sobre mim e outras pessoas não sabiam e eu confiava/confio muito em ti. Tu és uma inspiração para mim e foi uma honra ser tu aluna. Eu espero que esteja tudo bem contigo e que tu estejas vivendo um ótimo momento na tua vida. Beijos do coração. Desculpa o tamanho do texto."

A linguagem dos símbolos religiosos

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

No humano há um espaço do simbólico. Aí encontra-se a religiosidade. A psique e a própria linguagem passam por tal dimensão. O olhar superficial, porém, não distingue símbolo, alegoria, metáfora, parábola, ícone, marca, sinal, emblema e arquétipo, sendo este um desafio dado o entrelaçamento das nuances e tradições simbólicas. Assim, para Ione Buyst “todos os símbolos são sinais, mas nem todos os sinais são símbolos.[1] Isto porque os símbolos são subjetivos enquanto os sinais são objetivos, isto é, símbolos podem ser e sinais são o que representam. De modo que plantas e animais, tempos e lugares, objetos e pessoas, cheiros e sons, obras e ações, palavras e alimentos, fenômenos e eventos, ideias e arquétipos, emoções e sentimentos podem ser simbólicos.

Segundo Marcelo Guimarães, na antiguidade, o símbolo era uma pequena tábua de argila quebrada por dois indivíduos que faziam um contrato e num dado momento, quando necessário, juntavam-na para expressar a aliança outrora feita.[2] Neste caso, a concretude do objeto de argila era por eles reconhecida como a expressão de tal relação e compromisso. Daí a própria etimologia da respectiva palavra: sym = junto + bolon = lançado[3], ou seja, o que é colocado junto, o que reúne, unifica e congrega.[4] De maneira que, no símbolo, o invisível se faz ver, o inaudível se faz escutar, o intocável se faz tocar, o insosso se faz saborear e o inodoro se faz cheirar. Ele exprime valores, ensinamentos e cria um sentimento de solidariedade e identidade entre os seguidores de uma determinada tradição.

Na mesma perspectiva, Rubem Alves afirma que os símbolos mostram a presença de uma ausência.[5] São pontes e mediações. Sua finalidade é ajudar a desvelar segredos e mistérios, o insondável e inefável da transcendência ou das coisas do além, pois os caminhos espirituais ou tradições religiosas são, por excelência, realidades simbólicas. E, como tais, afirma Francisco Catão: “apelam para 'a parte invisível' da realidade 'lançada junto' com o que se vê, designando a parte visível de um todo não manifesto, inseparável da totalidade do real”[6]. Então, é para isso mesmo que servem os símbolos sagrados, ou seja, para unificar, juntar-nos uns aos outros, ligar-nos com a história e com o que está além de nós mesmos. E assim cumprem a função de estabelecer ligações e criar relações perceptíveis.

Por representarem mais que aparentam, os símbolos são realidades incompletas. Uma estátua de Buda, Jesus, Xangô ou Vishnu, por exemplo, reúne uma série de impressões e recordações, mas não é o que está representado. Ou seja, a foto de minha avó não é a minha avó, apesar da saudade que posso sentir dela. Não dá pra confundi-las. Os símbolos, então, servem para fazer-nos conscientes ou para lembrar-nos de coisas importantes. E esta é uma necessidade humana, pois, ainda que necessite representá-la materialmente, o ser humano acredita que há outras realidades para além dos cinco sentidos as quais enchem de sentido sua vida e existência. Por esta razão, os símbolos manifestam certo poder e acabam influenciando a vida das pessoas, em boa parte, por evocarem o desconhecido.

Embora haja símbolos universais, como toda linguagem, de tempos em tempos, de lugar para lugar, de tradição para tradição, eles podem modificar-se tanto na forma quanto no sentido. Também podem ser criados e abandonados, sacralizados e dessacralizados, entrelaçados e sincretizados por diferentes culturas e tradições. Um símbolo positivo pode transformar-se em negativo e vice-versa. O tridente, por exemplo, o qual representava o poder de Poseidon para os gregos foi reinterpretado e colocado na mão do diabo como símbolo do mal para os cristãos. A cruz, por sua vez, instrumento de tortura e morte para os romanos, passou a significar a vitória da vida para o cristianismo. Por isso, é de grande importância e sabedoria não desprezar o contexto do objeto analisado a fim de evitar algum equívoco.

Notas e referências
[1] Cf. BUYST, Ione. Celebrar com símbolos. São Paulo: Paulinas, 2001.
[2] Cf. GUIMARÃES, Marcelo Rezende. A vida é um rito. In: IPJ. (Org.). Cultivando a mística: 32 roteiros de oração para jovens. Porto Alegre: IPJ, 1998, p. 7-15.
[3] Cf. BECKER, Udo. Dicionário de símbolos. São Paulo: Paulus, 1999.
[4] Cf. DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Dicionário Grego-Português/Português-Grego. Porto: Porto Editora, 2008. 
[5] Cf. ALVES. Rubem. O que é religião. São Paulo: Loyola, 1999.
[6] Cf. CATÃO. Francisco. Símbolos religiosos: elos com a transcendência. In: Diálogo – Revista de Ensino Religioso, nº 51 – Ago/2008

Quero entoar um canto novo

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Há um ano, um grupo formado por mulheres, em sua maioria, pequeno em quantidade, mas imenso em sentido, dedica duas horas de seu tempo mensal para vigiar pela paz e a não violência. Efetivamente, juntamo-nos em sintonia com pessoas, comunidades, organizações e inúmeras realidades. Não obstante, também nossas vigílias pessoais, as quais voluntária e involuntariamente invadem ou são invadidas pelas madrugadas, são frágeis, porém perfumados grãos de incenso sobre a brasa que sempre arde por mais vida em abundância. Ou seja, esta é nossa forma de provocar e alimentar uma espiritualidade e mística que se mantenham engajadas nas causas complexas e inquietantes da paz. E se isto é novidade para uns, para outros é a retomada de um primeiro amor.

Estamos prestes a celebrar o Dia Internacional da Paz, em vinte e um de setembro, dia proclamado pelas Nações Unidas, em mil novecentos e oitenta e um, como dia de cessar-fogo e de não violência ativa em todo o mundo, cuja finalidade não é apenas que as pessoas pensem na paz, menos ainda que a considerem como uma golfada sentimental, mas que desenvolvam alguma ação e, principalmente, que repensem e retomem projetos e políticas públicas pacifistas; que suscitem, formem e subsidiem colaboradoras e colaboradores de todas as idades, para que, a partir de suas múltiplas inteligências, competências e habilidades sejam artesãs e artesãos da paz que não tem limites, tampouco aceita os métodos capitalistas que mantêm dois pesos e duas medidas e mecanismos que oprimem e excluem.

Em vista disso:

- convocamos as mulheres e homens de boa vontade, quem deixou sucumbir este sonho e quem a isto dedica-se diariamente, militando nas muitas frentes e fileiras, erguendo as muitas bandeiras da paz. E ao serem convocados, sejam também abençoadas e abençoados para que vigiem de novo, para que fiquem junto Dele mais um pouco, para que confirmem a luta dessa Gente que tem seus direitos básicos violados e também cuidem das demais criaturas constantemente feridas em sua dignidade;

- convocamos esta rede dispersa que um dia já sentiu o gostinho do pacifismo e da não violência e, hoje adulta, nem sempre lembra de sua adolescência e juventude. E pior ainda: talvez, até a sufoque quando ela teima em resistir; talvez, a mine e a exploda com seus comentários tiranos, passividade incrustada, ações descabidas e opções políticas nada coerentes com os princípios, meios e fins da paz vivida por Gandhi, Teresa, King, Margarida, Jesus, Malala, Mandela, Francisco, Sepé e tanta Gente;

- convocamos esta rede coesa, de muitas crenças por vida em abundância, de muitos sons e matizes, que um dia já sentiu o gostinho do pacifismo e da não violência e, com vigor e ternura, multiplica-se e ampara-se, embora nunca encontrando-se pessoalmente; que atua nas causas da educação, da assistência social, do direito, da saúde, da comunicação, da segurança, da ciência, da religiosidade, da arte, da política, na esfera pública e privada, como profissionais íntegros, onde e com quem convivem;

Embora pareça incoerência diante das opções políticas locais e globais humanamente maledicentes de quem governa e se deixa governar, queremos fazer uma vigília de agradecimento e louvor, tendo a consciência de que isto também brota da dor. Por isso, se queres a paz, entoa um canto novo de paz, um canto que ecoe em todas as causas elevadas em pranto e lamento nas preces e nas vigílias que precederam, tais como: o desarmamento, os martírios, o protagonismo juvenil, os direitos humanos, a cooperação entre os povos, o diálogo inter-religioso, a não violência ativa, o poder-serviço, a causa indígena, a diversidade sexual, a casa comum e o direito à cidade; um canto que ecoe na militância, no trabalho e na luta feita de sangue e suor em cada dia que chegará com suas próprias demandas.

Para começar: junte seu grupo, chame os amigos, reúna a família, motive sua comunidade, comente em seu local de trabalho, realize em sua escola, divulgue em sua paróquia e congregação. Supere a infantilidade da paz, provoque o debate, faça um silêncio livre, cante a antiga ou uma nova canção. Afaste-se da violência e dos violentos, do fascismo e dos fascistas. Leia um texto provocativo e até de consolo. Encaminhe uma denúncia, assine uma petição. Abrace sem roubar a liberdade, ofereça seu brinde ou jejum. Some seu grito ao dos excluídos, ajude financeiramente uma instituição. Ligue para alguém de outra crença, bote uma bandeira colorida na janela. Faça uma crítica verdadeira e em tudo pergunte o porquê, a fim de que tais coisas não sejam feitas em nome de qualquer concepção de paz.

Fraternal e sororamente,
Porto Alegre, setembro de 2017.

DIA
21 de cada mês

HORA
Das 19h30 às 21h30

LOCAL
Instituto Providência
Rua Demétrio Ribeiro, 594
Centro Histórico
Porto Alegre – RS

CONTATO
Na dúvida, contate-nos usando o formulário ao lado!

Um corpo além do ostensório

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Creio, Senhor! Eu creio até demais! Não, não precisa aumentar a minha fé. Intensifica, entretanto, a minha frágil empatia por tantos Corpos violados: Corpo dos pobres, o teu Corpo. Abre os meus olhos e amplia minha consciência humana, ecológica e solidária. Trava totalmente a minha língua quando detono os Direitos Humanos e falo mal de quem os defende. Abre minhas mãos e meus braços, sobretudo, hoje, na festa do teu Corpo: Corpo caído nas esquinas e encolhido debaixo de viadutos; Corpo que revira o contêiner do meu lixo diante do prédio onde moro; Corpo jogado ao relento de uma noite fria, por ordem judicial, a cinco quadras da minha cama; Corpo esfolado pela truculência infame da polícia militar que se esconde no sorriso de uma obediência tirana; Corpo debochado pelas autoridades da política nacional, estadual e municipal; Corpo que se enche de cachaça, crack, mcdonald, coca-cola e enlatados cheios de veneno; Corpo que perde vaga na escola, mas já tem garantida no presídio; Corpo que tem seu salário atrasado e parcelado por quem desgoverna e ganha até demais; Corpo indefeso e condenado à morte ainda no ventre materno-paterno; Corpo espezinhado pelo empresário que não paga o que deve ao estado e ainda quer sugar mais; Corpo alienado por lideranças que se dizem religiosas, até mesmo dentro da minha própria igreja; Corpo que é constantemente ameaçado de perder suas terras ancestrais; Corpo surrado porque se sente atraído por outro Corpo quase igual; Corpo zombado por quem acha que tem o dom de fazer graça; Corpo vulnerável às campanhas podres dos que se acham "cidadãos de bem"; Corpo que leva porrada, que leva gás na cara pra defender outros Corpos. Corpo. Corpo. Corpo. Tantos Corpos. Corpo da irmã e do irmão; Corpo de vida e de morte. Teu Corpo. Meu Corpo. Nosso Corpo. E se estes não forem o teu verdadeiro Corpo o qual desejo comungar incondicionalmente, recaia sobre mim o deboche de passear pelas ruas e praças onde se amontoam, imaginando que tu te encontras aprisionado num ostensório lindo, mas tão digno de pena, ostensório que apenas ostenta, ostensório sem teus corpos, ostensório que te obriga a estar presente apenas num mísero farelo de pão. Amém.
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