Abordagens do professor de Ensino Religioso

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A licenciatura pro Ensino Religioso quase inexiste. Ela não encontra interesse das instituições de ensino superior, deixando grandes lacunas na consolidação técnica e pedagógica deste componente curricular. E isto se reflete em todas as salas de aula, de norte a sul do Brasil, por razões ratificadas pela legislação atual. Assim, a partir de minha própria experiência, identifico quatro abordagens pelas quais transitam as práticas pedagógicas dos respectivos professores. Obviamente, refiro-me a quem se dispõe a tratar com seriedade tal componente e não a quem é obrigado a complementar sua carga horária, incluindo-se aí uma gama de lideranças religiosas e seus respectivos ex-isso e ex-aquilo, muitos dos quais sem noção alguma da complexidade própria do fenômeno religioso.

A primeira abordagem é proselitista. Ela pressupõe parcialidade e coloca o professor na posição de catequista e doutrinador. Tendo por base o conjunto de crenças do próprio professor ou da instituição na qual trabalha, esta perspectiva procura fazer adeptos e seguidores de uma determinada tradição religiosa, ainda que de modo informal e inconsciente, em menor ou maior grau e sorrateiramente. Esta perigosa opção pode se dar em nível teológico, antropológico, histórico, psicológico, sociológico e filosófico, isto é, considera-se apenas uma ou outra parte das ciências que fundamentam o Ensino Religioso. Até porque fazer proselitismo significa abordar o que é confortável, de domínio e interesse do professor sem considerar o fenômeno religioso em sua inteireza e nem a autonomia do estudante.

A segunda abordagem é sincrética. Ela pressupõe mediocridade e coloca o professor na posição de bonachão e alienador. Se na primeira abordagem impõe-se uma visão unilateral e o contraditório não é discutido, nesta perspectiva tudo é válido, tudo é a mesma coisa, todas as tradições religiosas são iguais e qualquer conteúdo é interessante. Aqui não há conflitos. E a opção por esta perspectiva não objetiva, necessariamente, aumentar ou diminuir a fé, mas é descomprometida e sem crítica, nada contribuindo para a transformação dos sujeitos. Embora contribua como ponto de partida, ela revela desconhecimento, neutralidade e elevado relativismo. Esta disposição encontra-se exatamente no modelo da escola sem partido, ou seja, no final de tudo, não serve para nada ou legitima o mais forte.

A terceira abordagem é científica. Ela pressupõe conhecimento e coloca o professor na posição de crítico e observador. Tomando por base as ciências da religião, esta perspectiva procura imprimir um tratamento técnico e didático no ensino da religiosidade em vista de um comprometimento crítico e autocrítico do estudante a partir da observação, da informação e da reflexão. Ou seja, constata-se, contextualiza-se e faz-se a releitura do fenômeno religioso a partir dos aspectos exteriores e visíveis da religiosidade, da descrição da natureza empírica das experiências religiosas de um determinado grupo social, traduzidas pelas tradições religiosas ou caminhos espirituais. Aqui, nesta perspectiva, o professor não se envolve nas questões referentes à verdade e à consciência da busca transcendental.

A quarta abordagem é holística. Ela pressupõe envolvimento e coloca o professor na posição de mestre e educador. Também tendo por base as ciências da religião, esta perspectiva procura levar em consideração todos os aspectos de uma abordagem científica. Entretanto, seus protagonistas não só assumem um compromisso objetivo, crítico e acadêmico, mas explicitam suas dúvidas e opções de vida a partir da alteridade, da autonomia, do cuidado e da honestidade intelectual e espiritual. Nesta abordagem considera-se o conflito como um elemento pedagógico. Os aspectos interiores e invisíveis desta opção esclarecem e dão suporte ao diálogo no nível da ética e da mística a fim de que os sujeitos construam um projeto de vida pessoal, responsável e socialmente transformador e libertador.

Obviamente, há características comuns em todas as abordagens. Elas, porém, diferem nos princípios, meios e fins. Transitar por todas estas perspectivas é comum quando não se sabe. Contudo, a prática das duas primeiras revelam inaptidão, enquanto as duas últimas revelam habilidade e competência no processo pedagógico de quem tem o dever de educar. Perceba-se nisso um caminho de maturação pelo qual o educador precisa optar conscientemente e através do qual aprende e ensina a aprender, a caminhar e a viver. De maneira que, sob rigoroso e constante senso ético, mantenha-se coerência às exigências básicas e legais do componente curricular do Ensino Religioso, mas, enquanto educador reflexivo, não se perca de vista o espírito da própria lei que aponta sempre para um pouco mais além.

Uma vigília mensal pela paz

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

A você que vive em busca da paz, paz! Assim começavam todas as cartas de Dom Irineu (Marcelo) Guimarães - e como gostava de escrever cartas - mostrando a muitos de nós o caminho para lermos, escrevermos, refletirmos, rezarmos e agirmos sob a mística e a espiritualidade da paz, da não-violência ativa e dos direitos humanos. Do mesmo modo, nós aprendemos com o Pastor Ricardo Wangen, dentre outros amigos, que muitas pessoas, de perto e de longe, de ontem e de hoje, entregavam suas vidas a esta sempre urgente e nobre causa. E descobrimos, então, que o próprio Jesus de Nazaré foi um desses pacifistas, inspirando suas seguidoras e seguidores a subverterem a lógica da violência ao transformarem a vida na perspectiva da verdade e da justiça.

Em vista disso, convidamos você, e quem mais comungar desses ideais, para fazermos uma vigília mensal pela pazA intenção é entregar o clamor e o louvor de todos os seres do universo e receber do eterno a energia e a coragem para, verdadeiramente, sermos chamados filhos e filhas da paz, daquela paz dos corações inquietos, da ação, da luta e da reconciliação; para sermos agentes da verdade e profetas da não-violência; para insistirmos juntos noutro mundo democraticamente possível. O dia vinte e um de cada mês, às dezenove horas e trinta minutos, parece-nos apropriado porque em setembro este é o Dia Internacional da Paz, há tempo estipulado pelas Nações Unidas, além de ser uma alternativa para amigas e amigos que têm compromissos semanais fixos e desejam achegar-se.

Segundo antigo costume da Igreja, a partir da liturgia das horas, a vigília é um espaço-tempo mais substancioso para a meditação e a oração. E o que se faz, então, numa vigília pela paz? Recordamos a dinâmica da vida, lemos algum texto pacifista, cantamos alguma música bonita, escutamos algum texto sagrado, partilhamos algum alimento e, porque não somos onipotentes, clamamos pela ajuda divina. A base, de fato, encontra-se na tradição e na espiritualidade cristã, católica e beneditina, na mística de Taizé, bem como na prática da leitura orante e do ofício divino, permeados pela beleza da música popular. Ao assumirmos uma perspectiva ecumênica, deixamos que o silêncio atinja o mais profundo de nossos porões e um espírito bem festivo antecipe o que viveremos em plenitude depois. 

Evidentemente, refletir, orar e realizar qualquer outra ação pela paz nunca foi nem será suficiente na comoção pública e também passageira das tragédias episódicas. Há pessoas que se dedicam a tais práticas, inclusive, diariamente. Outras, quem sabe, podem estar precisando de companhia, ao menos de vez em quando. E por que não implementar esta ação em sua família, em seu grupo de amigos, em sua escola, em sua comunidade religiosa ou onde quer que você esteja? Não queremos exclusividade, tampouco desejamos centralizações, mas resgatar, motivar e multiplicar cada vez mais pessoas que assumam esta mística como projeto e estilo de vida. De qualquer modo, sempre é bom saber que, ao menos uma vez por mês, estaremos de braços abertos para acolher você e revitalizar nossas energias.

Ao juntarmo-nos para fazer vigílias mensais pela paz, recordamos as Irmãs do Mosteiro Beneditino da Santíssima Trindade, em Santa Cruz do Sul, na pessoa de Me. Roberta Peluso, OSB e Me. Paula Ramos, OSB pela sintonia e o testemunho de serviço ao Senhor enquanto procuramos corresponder a certas necessidades de suas criaturas, principalmente as que têm sua dignidade e os seus direitos violados. E também agradecemos às Irmãs do Instituto Providência, do Imaculado Coração de Maria, por abrirem tão generosamente as portas da capela de sua casa, nas palavras de sua diretora, Ir. Daniele Kosvoski: “Ir. Zita e eu conversamos com a Comunidade e com alegria as Irmãs acolheram a ideia e iniciativa de vocês. Será enriquecedor para todos nós.” Aos demais companheiros e companheiras, o nosso carinho.

Fraternalmente,
na memória dos setenta anos de Hiroshima e Nagasaki.

DIA
21 de cada mês

HORA
Das 19h30 às 21h30

LOCAL
Instituto Providência
Rua Demétrio Ribeiro, 594
Centro Histórico
Porto Alegre – RS

CONTATO
Na dúvida, contate-nos usando o formulário ao lado!

Diante da morte de um soldado

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Disse o comandante da Brigada após a morte de um soldado: "As pessoas têm me perguntado se o PM não devia ter adotado uma postura mais agressiva, mais intimidatória na tarde de hoje. Eu acredito que sim. Mas sei que ele deixou de adotar essa postura em razão de todos aqueles que, de maneira imediatista, sem compreensão de todo o risco que se corre e de toda a complexidade que é um cenário de uma abordagem, de uma ação policial, julgam e condenam um Policial Militar, uma Instituição..." Entretanto, absolutamente ninguém deve ser condenado à morte por quaisquer que sejam os motivos! E posso, sim, imaginar os riscos que um policial corre. Sei também que esta é uma situação bastante complexa, mas não dá pra concordar cegamente com a declaração do comandante; não dá pra legitimar a truculência dessa instituição; não dá pra confundir o uso adequado da força com violência; não dá pra admitir uma polícia sucateada moral, instrumental e estrategicamente, do mesmo modo que não dá pra deixar criminosos apavorando e dominando uma sociedade. Também não dá pra concordar com "todos aqueles que, de maneira imediatista, sem compreensão de todo o risco que se corre e de toda a complexidade", agem no impulso de suas emoções e acham que o uso de armas deve ser ainda mais flexibilizado, que o investimento em programas sociais é desnecessário, que o processo todo, da prevenção e abordagem à recuperação, não precisa ser repensado. Nesse contexto de barbárie, cada vítima e cada agressor, onde quer que esteja, é um atestado de incompetência que todos assinamos.

Sinal de bênção e contradição

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal Obl. OSB)

O mundo atual abre-se a essa perspectiva, como se ela fosse uma novidade. Para vários segmentos da sociedade é um direito inalienável a ser garantido. Algumas tradições religiosas a consideram questão lapidada, apaziguada ou plenamente naturalizada. As igrejas cristãs, ainda que raras e a muito custo, sob a insistência de uma teologia de vanguarda, obrigam-se a refletir como já o fizeram com muitos outros temas espinhosos. E em todos os contextos este é um ponto nevrálgico, até porque as crenças e doutrinas, embora criações humanas e históricas, são elementos culturais considerados sagrados. Assim, ao escutar sábios e prudentes e ao contrapor cínicos e algozes, a realidade exige paradigmas alicerçados num maior cuidado com a complexidade humana. 

Não precisamos ir longe para enxergar a respectiva conjuntura, basta olhar ao lado e considerar nossa família ou qualquer outra instituição, da mais tradicional a mais alternativa; basta olhar para qualquer profissão e não precisa ser a mais estereotipada; basta olhar para o nosso círculo de colegas e amigos, inclusive os mais achegados; basta olhar para a nossa comunidade de fé, principalmente lá onde os discursos se inflamam, onde as decisões são monopólio e a disciplina enrijece sem reflexão. Aí estão muitos enrustidos e espalhafatosos desejando viver com dignidade. A sua esperança é que as mais profundas transformações germinam escondidas, crescem discretas, vigoram pisoteadas e maduram com o tempo para que aroma e sabor sejam apreciados, ainda que algum fruto venha a ser amargo.

Envolvidos em uma mudança de época e reféns de práticas nada amorosas, de abusos e de atentados à vida, muitas vezes em nome de um sagrado forjado o qual nem sempre é religioso, essencial e cuidadoso, quando alguém ama de livre e espontânea consciência e quer proclamar aos quatro ventos a intensidade desta boa notícia, independentemente de gênero ou orientação, nada mais profético e justo para os nossos dias que estar ali junto, testemunhando, abençoando, cuidando e confirmando tal escolha, ainda que, a princípio, estejamos na contramão. Aliás, amar, seja filos, eros ou ágape, acaso não é pura subversão? E compreendendo que abençoar significa invocar o que é belo e desejar o que é bom, apesar de todas as consequências, é necessário arriscar, ser sinal de bênção e contradição.[1] 

Se tal exigência urge, se a imensa maioria dos ministros religiosos não realiza, se algumas coisas não vêm de cima e não adianta esperar, eu e Mãe Beatriz de Iemanjá abençoamos a união de Antônio e Douglas. Até porque "quando a gente ama simplesmente ama e é tão difícil explicar".[2] Aliás, se é pra dar testemunho visível e coerente da vida abundante e do amor incondicional, onde quer que seja e cada vez mais, esta Vida Plena vai arrastando-me a estar presente. Quem legitima isso? Aquelas e aqueles que almejam do mais profundo da alma; aquelas e aqueles que sentem à flor da pele o drama e o alívio de serem diferentes; aquelas e aqueles que multiplicam sonhos ao invés de pesadelos e utopias possíveis ao invés de desilusões. Quem legitima isso é o Amor Maior de quem ama por amar.

Assim, naquela noite de festa nós declaramos: vocês já se experimentaram. No juramento que fazem está implícito: este é o meu companheiro. Companheiro é quem come junto do mesmo pão. E isso é um ato profundamente amoroso, um amor sentimental, espiritual e político. Para a nossa cultura é um ato tão sagrado quanto subversivo. Nós testemunhamos, abençoamos e anunciamos a quem, de boa vontade, possa e queira escutar, acreditando que esse mesmo amor tenha nascido da liberdade e da alegria, do desejo e da paixão, da afeição e do cuidado, da entrega e da cumplicidade, da sabedoria e da consciência para que vocês possam viver intensamente sob o axé de seus Guias, sob as forças do Universo, sob a vida do Eterno e sob a misericórdia do Divino que se deixa chamar por tantos nomes.

Notas e referências
[1] Seja sinal de bênção e contradição foi o que recomendou Leonete Cassol, via facebook, em resposta à publicação do que estávamos prestes a realizar, em 28.05.2016.
[2] Cf. BARBOSA, Marcelo; BARRETTI, Bozo. Quando a gente ama. Música interpretada por Oswaldo Montenegro.
[3] Obrigado Veroni Medeiros, Rivy Tarandach, Leonete Cassol, Vera Freitas e Vladimir Freitas por seus comentários motivarem uma reelaboração mais criteriosa deste texto.

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Julio Cesar De Lima

Dimensões inerentes ao humano

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

que é inerente ao humano? Algo o torna peculiar em relação aos demais seres? Sendo sapiens, como este situa-se diante das descobertas a seu respeito, bem como de outras espécies? Qual é, de fato, a sua essência? É possível ignorar o que se sabe ou faz-se necessário redimensioná-lo constantemente? Várias abordagens podem dar-nos algumas respostas. Aliás, é imperativo que consideremos a integralidade e a complexidade humana em detrimento de concepções precipitadas, parciais e fragmentadas. Assim sendo, qual gênero humano que sabe que sabe, podemos concebê-lo sob quatro dimensões fundamentais, a saber: corporal-biológica, social-ecológica, mental-psicológica e transcendental-escatológica. Mas, não são verificados tais aspectos em outros seres vivos? 

Corporal-biológica - Esta dimensão refere-se ao corpo material, anatômico, fisiológico e orgânico. Compreende os sistemas motor, digestório, vascular, ósseo, respiratório, neurológico, reprodutor e hormonal, além das funções e disfunções dos órgãos e suas inter-relações; os órgãos sensoriais: pele, olhos, nariz, língua e ouvido, responsáveis pela interação com o cosmos. Aqui se pressupõe uma relação entre os átomos. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua corporalidade pela alimentação, respiração, movimentação, higiene, preservação, prevenção e tratamento de doenças, trabalho e repouso, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Social-ecológica - Esta dimensão refere-se às relações entre todos os seres e com nossa casa comum. Compreende os fenômenos que acontecem nas interações pessoais, grupais, comunitárias, étnicas, considerando-se fatores políticos, econômicos, trabalhistas, jurídicos e educacionais, bem como a afetividade, a sexualidade, a segurança pública, a não-violência e a justiça social. Aqui se pressupõe uma relação entre os seres. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua sociabilidade pelo contato físico, o companheirismo, a alteridade, o diálogo, a compaixão, a moral, a ética, a garantia dos direitos e dos deveres, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Mental-psicológica - Esta dimensão refere-se às funções cerebrais superiores e neuropsicológicas. Compreende a personalidade e o comportamento motivados por certas instâncias inconscientes, pré-conscientes e conscientes; memória, pensamento, raciocínio, intelecto; vontades, desejos, emoções e sentimentos, bem como a necessidade de realização, autoestima e pertença. Aqui se pressupõe uma relação consigo mesmo. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua mentalidade através do aprendizado, autoconsciência, resiliência, administração das emoções, superação dos vícios, inseguranças e desejos, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Transcendental-escatológica - Esta dimensão refere-se àquilo que dá sentido à vida e à existência. Compreende a necessidade do eterno, a saudade do infinito e a busca do que está além das sensações e dos sentidos; aí se encontra o desejo de unificar-se e fazer-se parte do universo; é a experiência de uma energia arrebatadora que faz a vida fluir; é o mistério que o corpo e a mente não sabem dizer. Aqui se pressupõe uma relação espiritual. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, esse ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua espiritualidade através do silêncio, meditação, oração, admiração, contemplação, confiança e esperança enquanto busca a verdade. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Perceba-se que as respectivas dimensões estão precisamente interligadas e, por vezes, não se tem clareza dos seus limites. Aliás, cedo ou tarde, de maneira mais ou menos incisiva, o que acontece a uma terá repercussão sobre a outra. Contudo, caberia ao ser humano optar por ter esta ou aquela dimensão? Considerando-se o alto grau de complexidade dos fenômenos humanos, inclusive daquilo que se mostra como produção e patrimônio cultural ou como cultivo consciente e agregador de sentido, não cabe a este decidir o que lhe é inerente. Mas, no exercício do seu livre arbítrio, qual homo sapiens sapiens que é, este mesmo humano poderá decidir como administrar tais dimensões, ou seja, reconhecendo, exercitando e aperfeiçoando-as ou ignorando, interrompendo e atrofiando-as.

Notas e referências
BEKOFF, Marc. Animais têm consciência: trate-os como iguais. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/animais-tem-consciencia-trate-os-como-iguais?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_super. Acesso: 13.04.2014.
BIRCK, Bruno Odélio. Fenômeno religioso. In: GHELLER. Erinida. Cultura religiosa: o sentimento religioso e sua expressão. Porto Alegre: Edipucrs/Mundo Jovem, 2000.
CAVALCANTI, José Gilson. O ser humano como unidade. Disponível em: http://www.libertas.com.br/site/index.php?central=conteudo&id=412. Acesso em: 13.04.2014.
CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Leopoldo: Sinodal, 1987.

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e crescimento pessoal. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FERREIRA, Cristiane. As quatro dimensões do ser humano. Disponível em: http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=28108. Acesso em: 13.04.2014.

Brasil, entre piranhas e jacarés

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal Obl. OSB)

A indignação pela unilateralidade do juiz federal Sérgio Moro e seu cardume fascista na condução da Operação Lava Jato faz-nos achar que nesse rio onde estamos só tem moluscos e piranhas, quando nele também há crustáceos, dourados, sucuris, candirus e, sobretudo, jacarés. E os tais jacarés, a essa altura, alguns autodenominando-se apartidários, novinhos e centenários, até já abrem a bocarra pra reconhecer que suas amigas piranhas também dilaceram boa parte do boi. Se as piranhas acham-se articuladas, robustas e cheias de ira e razão, em parte, por terem aumentado seu cardume nos últimos tempos e, por isso, terem que dividir privilégios entre si, os jacarés tentam camuflar-se, deixando apenas seus olhinhos de fora, pois já estão bem acostumados ao lamaceiro global dessas águas chamadas Brasil. Aliás, eles mesmos já fuçaram o fundo do leito e as encostas, já deram o giro da morte, já afogaram presas e esconderam centenas de carcaças, inclusive sob as rochas de uma questionável anistia. Nesse rio vive jacaré disfarçado de piranha, de dourado, de sucuri, de candiru, de crustáceo e até de molusco. Existe também quem não o sabe e os que juram que não são. E o mesmo pode-se dizer do resto da fauna. Mas, enquanto as piranhas e os moluscos se alvoroçam sobre uma mancha de sangue, no intuito de, ainda, decidir quem manda nessas águas, os jacarés que abocanham boiadeiros e boiadas, desde quando represaram o nosso rio, fingem ser seus legítimos guardiões e, por hora, deixam só alguns filhotes à vista na correnteza lamacenta do Brasil.
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