Uma vigília mensal pela paz

Porto Alegre, 6 de agosto de 2016.

A você que vive em busca da paz,

PAZ!

Assim iniciavam as cartas de Dom Irineu Guimarães - e como gostava de escrever cartas -, mostrando para muitos de nós o começo do caminho para lermos, escrevermos, pensarmos, rezarmos e agirmos sob a mística e a espiritualidade da paz, da não-violência ativa e dos direitos humanos. Do mesmo modo, nós aprendemos com o Pastor Ricardo Wangen, e tantos outros amigos muito especiais, que havia milhares de pessoas, de perto e de longe, de ontem e de hoje, considerando esta sempre urgente necessidade. E descobrimos, então, que o próprio Jesus de Nazaré, o Cristo, sem dúvida alguma, foi um desses grandes fazedores e inspiradores subversivos da paz.

Numa de suas reflexões, Irmão Roger de Taizé pergunta-se: “Seríamos daqueles que, mesmo sozinhos, se põem a rezar numa igreja abandonada por muitos? Tantas vezes basta um só para que um dia outros recobrem o ânimo.”  E acrescenta: "Atualmente, para multidões de cristãos, não seria urgente oferecer sinais de uma ampla abertura e realizar esta alegria do Evangelho: viver reconciliado, sempre de novo? Mahatma Gandhi, por sua vez, observa: "As preces são uma verdadeira via de abundância e iluminam o caminho de todos. Quanto mais nos dedicamos a elas, mais coragem sentiremos na vida diária, pois a coragem é sinal e símbolo de autopurificação. E, ao mantermos esse ritual, estaremos lançando luz não apenas sobre a nossa cidade, mas sobre o nosso país e sobre o mundo inteiro.”

Em vista disso, convidamos você, e quem mais comungar desses ideais, para fazermos uma vigília mensal pela pazA intenção é entregar o clamor e o louvor de todos os seres do universo e receber do eterno a energia e a coragem para, verdadeiramente, sermos chamados filhos e filhas da paz, daquela paz dos corações inquietos, da ação, da luta e da reconciliação; para sermos agentes da verdade e profetas da não-violência; para insistirmos, juntos, noutro mundo democraticamente possível. Fixar dia vinte e um de cada mês, às dezenove horas e trinta minutos, parece-nos apropriado porque em setembro este é o Dia Internacional da Paz, há tempo estipulado pelas Nações Unidas, além de ser uma alternativa para amigas e amigos que têm compromissos semanais fixos e desejam achegar-se.

Segundo antigo costume da Igreja, a partir da Liturgia das Horas, a vigília é um espaço-tempo mais substancioso para meditação e oração. E o que se faz, então, numa vigília pela paz? Recordamos a dinâmica da vida, lemos algum texto pacifista, cantamos alguma música bonita, escutamos algum texto sagrado, partilhamos algum alimento gostoso e, porque não somos onipotentes, clamamos pela ajuda divina. Neste caso, tudo realizado numa perspectiva ecumênica, de maneira orante e atenta, deixando que o silêncio atinja o mais profundo dos nossos porões e um espírito festivo antecipe o que viveremos em plenitude depois. A inspiração parte da espiritualidade beneditina, da mística de Taizé, do ofício divino das comunidades, bem como da música popular brasileira e latino-americana. 

Evidentemente, refletir, orar e realizar qualquer outra ação pela paz nunca foi nem será suficiente na comoção pública e também passageira das tragédias episódicas. Há pessoas que se dedicam a tais práticas, inclusive diariamente. Outras, quem sabe, podem estar precisando de companhia, ao menos de vez em quando. E porque não implementar esta ação em sua família, em seu grupo de amigos, em sua escola, em sua comunidade religiosa, onde quer que você esteja? Não queremos exclusividade, tampouco desejamos centralizações, mas resgatar, motivar e multiplicar cada vez mais pessoas que assumam esta mística como projeto e estilo de vida. De qualquer modo, sempre é bom saber que, ao menos uma vez por mês, estaremos de braços abertos para acolher e trocar experiências com você.

Ao juntarmo-nos para fazer vigílias mensais pela paz, recordamos as Irmãs do Mosteiro Beneditino da Santíssima Trindade, em Santa Cruz do Sul, na pessoa de Me. Roberta Peluso, OSB e Me. Paula Ramos, OSB pela sintonia e testemunho de serviço ao Senhor enquanto procuramos corresponder a certas necessidades de suas criaturas, principalmente as que têm sua dignidade e seus direitos violados. Agradecemos às Irmãs do Instituto Providência, do Imaculado Coração de Maria, por abrirem tão generosamente as portas da capela de sua casa, nas palavras de sua diretora, Ir. Daniele Kosvoski: “Ir. Zita e eu conversamos com a Comunidade e com alegria as Irmãs acolheram a ideia e iniciativa de vocês. Será enriquecedor para todos nós.” E aos demais companheiros e companheiras, nosso carinho.

Fraternalmente,
Julio Cesar De Lima - Ir. Pascal, Obl. OSB
Na memória dos setenta anos de Hiroshima e Nagasaki.

DIA
21 de cada mês
Julho - Quinta-feira       Agosto - Domingo
Setembro - Quarta-feira     Outubro - Sexta-feira
Novembro - Segunda-feira       Dezembro - Quarta-feira

HORA
Das 19h30 às 21h30

LOCAL
Instituto Providência
Rua Demétrio Ribeiro, 594
Centro Histórico
Porto Alegre – RS

CONTATO
Na dúvida, contate-nos usando o formulário ao lado!

Algumas formas religiosas

Por Julio Cesar De Lima

Teísmo: do grego, theós = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença em deus’. Designa a crença na existência de deus ou deuses. Trata-se de um Deus tanto transcendente quanto imanente; o criador infinito está presente na criação finita. Deus é pessoal e providente. Ele age e interage na história. O teísmo é a base fundamental das grandes religiões monoteístas. Podemos dividir o teísmo em: politeísmo, henoteísmo, monoteísmo, panteísmo, panenteísmo.

Ateísmo: do grego, atheósa = ‘negação’ + theós = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘sem de deus’. Designa a rejeição ou a ausência da crença na existência de divindades ou de qualquer ser sobrenatural. No Ocidente, assume-se frequentemente, de forma equivocada, que os ateus são irreligiosos. Mas, estes são conceitos diferentes. Mesmo porque, o ateísmo aparece em certos sistemas religiosos ou espirituais, tais como Jainismo, Budismo, Confucionismo.

Politeísmo: do grego, poli = ‘muitos’ + theós = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença em vários deuses’. Cada divindade é considerada uma entidade individual e independente, com  personalidade e vontade próprias. Elas governam sobre diversas áreas, atividades, objetos, instituições, elementos da natureza e relações humanas. São exemplos de religiões politeístas as da antiga Grécia, Roma, Egito, Nórdica, Xintoísmo, Wicca, Dodecateísmo.

Henoteísmo: do grego, hen = ‘um’ + theós = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença em um deus’. Designa a crença e o culto a um só Deus, embora seja aceita a possível existência de outros deuses. Cultua-se um deus supremo ou especialmente escolhido ao lado de deuses secundários. Nesse sentido, uma divindade pode ser a personificação do deus supremo ou, pode-se atribuir a esse deus o poder de assumir múltiplas personalidades. Exemplo disso pode ser o Hinduísmo.

Monoteísmo: do grego, mónos = ‘um’ + theós = ‘deus’ + ismos = ‘doutrina’, ‘crença’ Š ‘crença num único deus’. Nessa concepção, Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Ele é o criador que se envolve e interfere na vida de suas criaturas. Há diferentes concepções de monoteísmo, tais como: deísmo, panteísmo, panenteísmo, o monoteísmo substancial e o trinitário. Exemplo: Judaísmo, Zoroastrismo, Cristianismo, Islamismo, Bahaísmo, Sikismo.

Deísmo: do indo-europeu, deiwos = ‘luminoso’ + ismos = ‘doutrina’ Š ‘crença no luminoso’. Deus criou o mundo e o abandonou para que funcionasse sozinho. Um deísta afirma a existência de deus, mas não pratica nenhuma religião. Tampouco nega a realidade de um mundo completamente regido pelas leis naturais e físicas. Em geral, acreditam que as ideologias religiosas devem tentar reconciliar e não contradizer a ciência.

Panteísmo: do grego, pan = ‘tudo’ + theos = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença de que tudo é deus’. Nessa concepção, absolutamente tudo e todos compõem um deus abrangente e imanente. O universo ou a natureza são idênticos a deus. O todo é Deus. Há uma identificação entre Deus e o mundo. Há uma divinização dos elementos da natureza ou concebe-se a própria natureza como deus. Deus é o todo, a universalidade dos seres.

Panenteísmo: do grego, pan = ‘todo’ + en = ‘dentro’ + theós = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença que deus está dentro de tudo’. Nessa doutrina, deus está em tudo ou tudo está em Deus. Deus está no todo da existência; ela contém, mas não é idêntica a Deus. O universo é parte de Deus. Como criador, participa de suas criaturas. Deus é tanto imanente quanto transcendente. O Judaísmo, Cristianismo e Islamismo podem ser exemplos desse tipo de monoteísmo.

Apateísmo: do grego, a = ‘negação’ + pathos = ‘emoção’ + théos = ‘deus’ + ismos = ‘crença’ Š ‘(...)’. É a total apatia ou indiferença em relação à existência de deus. Um apateísta é alguém que não considera a questão da existência de deus nem significativa nem relevante para a sua vida. Ainda que exista algum tipo de divindade, ela não parece se manifestar no destino dos seres humanos, o que torna o assunto desinteressante.

Gnosticismo: do grego, gnosis = ‘conhecimento’ + tikos = ‘relativo a’ + ismos = ‘doutrina’ Š ‘crenã relativa ao conhecimento’. Doutrina que enfatiza um conhecimento intuitivo das coisas divinas. Eu posso chegar a deus pelo conhecimento. Um conhecimento especial que faz descobrir deus em mim e nos outros. Busca conciliar todas as religiões e explicar seu sentido por meio dos conhecimentos que são transmitidos por meio de uma tradição de sabedoria.

Agnosticismo: do grego, a = ‘negação’ + tikos = ‘relativo a’ + ismos = ‘doutrina’ Š ‘crença relativa ao não conhecimento’. Doutrina que afirma a impossibilidade de provar cientificamente a existência de qualquer fato divino ou transcendental. Porém, não nega a possibilidade de sua existência. Aceita os conhecimentos adquiridos pela razão e evita, assim, qualquer conclusão não demonstrada ou comprovada. Por isso, pergunta-se: será que deus existe?

Xamanismo: do tungue, shaman – sha = ‘saber’ + no grego, ismos = ‘doutrina’ Š ‘doutrina daquele que sabe’. É a mais antiga forma de conexão do ser humano com o sagrado. Nos primórdios a humanidade descobriu que tinha o poder de “despertar” do estado de inconsciência, tal qual vive um bebe recém-nascido. Assim, detinha o poder de sair do corpo e entrar no mundo da alma. Sua missão, hoje, está em conscientizar o ser humano moderno da sua responsabilidade no trato da mãe terra, que é a grande provedora. Sua força e sua medicina está em manter o equilíbrio entre os quatro elementos da natureza: terra, ar, água e fogo. O xamanismo é encontrado entre os tungues, iacutes, mongóis, turco-tártaros, indígenas.

Animismo: do latim, anima = ‘alma’ + do grego, ismos = ‘crença’ Š ‘doutrina das almas’. Crença de que todas as coisas possuem alma, psique ou espírito, à semelhança dos humanos. Tudo tem vida própria. Não existem objetos inanimados. Essa alma seria capaz de se relacionar diretamente, em certos casos e certas condições, com os humanos. Ou seja, certas pessoas estariam capacitadas a se relacionarem com a alma das coisas, da natureza. Assim chegam a adorar os espíritos que residem nas montanhas, nas árvores, nas fontes. É uma tentativa de explicação dos fenômenos da natureza. Acredita-se na existência do grande espírito, a partir do qual, absolutamente tudo é sagrado. Encontram-se práticas religiosas animistas em diversos povos. Exemplo disso são as primeiras religiões.

Manismo: do latim, manes = ‘espírito’ + do grego, ismos = ‘crença’ Š ‘doutrina dos espíritos’. Crença em que os deuses são os espíritos dos antepassados falecidos, aos quais são oferecidos sacrifícios. Desde os primórdios da humanidade o homem adorou os mortos, acreditando que estavam envolvidos no além, na vida e no destino dos sobreviventes de sua tribo, clã ou linhagem. Assim, para o seguidor do manismo os mortos vivem entre nós, dentro dos limites do tribal e aparecem aos vivos em sonhos ou através de alucinações. São manistas algumas culturas africanas e matriarcais, alguns povos agrários na Indonésia e Melanésia. Na América, há algumas formas de manismo entre os yamana, na Terra do Fogo.

Totemismo: O termo deriva da palavra ototeman, do idioma dos índios algonquinos, do leste dos Estados Unidos. A raiz gramatical ote indica uma relação de sangue entre irmãos e irmãs, filhos da mesma mãe, que não podem se casar entre si. Crença de que a tribo descende de um animal ancestral, que por sua vez é o seu protetor. Costumam ser animais muito admirados ou temidos. É um conjunto de idéias e práticas baseadas na crença da existência de um parentesco místico entre os seres humanos e objetos naturais, como animais e plantas. O conceito refere-se a uma ampla variedade de relações de ordem ideológica, mística, emocional, genealógica e de veneração entre grupos sociais ou indivíduos específicos e animais ou outros objetos naturais, que constituem o totem. Sociedades tribais da América, da Austrália.

Fetichismo: do francês fétiche que, por sua vez, é um empréstimo do português ‘feitiço’, cuja origem é o latim facticius, significando ‘artificial’, ‘fictício’. É a crença de que os objetos ou lugares podem ser mobilizados a favor ou contra as pessoas por meio de pessoas que conhecem tais segredos. Dito de outro modo: é o culto de objetos que se supõe representarem entidades espirituais e possuírem poderes de magia. Por extensão, admiração exagerada, irrestrita, incondicional por uma pessoa ou coisa. Veneração. Fetiche é um objeto material ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, positivos ou negativos. Inicialmente este conceito foi usado pelos portugueses para referir-se aos objetos empregados nos cultos religiosos dos negros da África Ocidental.

Magismo: do persa, magis = ‘sábio’ + do grego, ismos = ‘crença’ Š ‘doutrina dos sábios’. É a prática da magia. Acredita-se numa certa força ou poder oculto que excede as forças naturais humanas, o qual pode ser captado para produzir, assim, efeitos extraordinários. O mago procura captar estas forças e colocá-las à sua disposição. A magia é também a ciência da simpatia e similaridade mútua, da comunicação direta com as forças sobrenaturais, um conhecimento prático dos mistérios ocultos na natureza, intimamente relacionada às disciplinas ditas ocultas. Para Aleister Crowley, é “a arte de provocar mudanças a partir da vontade”.  O gesto mobiliza os deuses e faz acontecer. Tais práticas requerem o aprendizado de diversas técnicas de autocontrole mental, como meditação, visualização. Ex: dança da chuva.

Messianismo: do hebraico, messias = ‘ungido’ + ismos = ‘crença’ Š ‘doutrina do ungido’. É a crença ou expectativa de um messias, de um escolhido e consagrado para libertar ou salvar o ser humano. Segundo Ana Lúcia Santana, “o messianismo  implica na vinda ou no retorno de um ser divino enviado por uma divindade, que virá libertar a humanidade.” Além disso, “Ele é uma entidade com poderes e tarefas que deve mobilizar a favor de um grupo ou de um povo oprimido. Em um sentido mais amplo, usa-se também esta expressão referindo-se a alguém investido de uma missão sagrada.” É um restaurador ou reconstrutor do utópico reino de deus aqui na terra. Judaísmo e Cristianismo, por exemplo, comungam dessa crença. Enquanto os judeus ainda o esperam, os cristãos acreditam que ele já veio, em Jesus: o Cristo.

Idolatrismo: do grego, eidôlon = ‘reflexo’ + latreia = ‘adoração’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença que adora um reflexo’. Mais conhecida por idolatria. É a adoração, culto, devoção, entrega a um aspecto ou reflexo da realidade, isto é, ausente, ilusório, mentiroso, diante de Deus. Forma religiosa que crê como absoluto algo ou alguém que é relativo. Trata como deus uma pessoa, um objeto. É endeusar e adorar quem não é deus, quem não é absoluto. Segundo o catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana, a idolatria não se refere apenas aos falsos cultos do paganismo. É também quando o ser humano presta honra e veneração a uma criatura em lugar de Deus, quer se trate de deuses, de demônios, de antepassados, de poder, de prazer, de dinheiro, de objetos, de pessoas, do Estado.

Monismo: do grego, monos = ‘único’ + ismos = ‘crença’ Š ‘crença na unidade’. Crença que existe uma única realidade. Visão em que não existe transcendente. Sistema que pretende reduzir o Universo a um único domínio, o da substância cujos atributos inseparáveis são a matéria e a energia. Tudo se explica por si mesmo. Segundo Pietro Ubaldi, “o monoteísmo viu Deus em Sua transcendência, a unidade divina que está além da criação, enquanto que o panteísmo O vislumbrou em Seu aspecto imanente, inserido em tudo o que existe. Já o monismo é a exata soma das duas visões, a transcendência e a imanência divina, unificando as duas verdades em uma única realidade. E assim o monismo reúne o Deus superior, que comanda à distância a Sua criação, com o Deus interior, que é força e lei imanente e permanente no mundo das formas.”

Ceticismo: qualquer atitude de questionamento para o conhecimento, fatos, opiniões ou crenças estabelecidas como fatos. Filosoficamente, é a doutrina da qual a mente humana não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade. É uma abordagem global que requer todas as informações suportadas pela evidência. Os céticos podem até duvidar da confiabilidade de seus próprios sentidos. O ceticismo religioso, por outro lado é a dúvida sobre princípios religiosos básicos, tais como a imortalidade, a providência e a revelação divina. É o extremo do dogmatismo. Segundo Carl Sagan, "você deve manter sua mente aberta, mas não tão aberta que o cérebro caia", e ele também afirmava que "o primeiro vício da humanidade foi a fé e a primeira virtude foi o ceticismo".

Niilismo: do latim, nihil = ‘nada’ + do grego, ismos = ‘doutrina’ Š ‘doutrina do nada’. Neste conceito, tudo é posto radicalmente em discussão. As verdades e valores tradicionais absolutizados são despedaçados. Isso não significa que não se tenha princípios éticos a serem seguidos. No entanto, é a ausência de finalidade e de resposta aos porquês da existência. Nada tem sentido na vida. Se nada tem sentido na vida, a morte é o fim de tudo. Aqui nascemos, enquanto espécie evoluímos ou não, e morremos. Não há espírito, nem seres sobrenaturais. Há o físico, a matéria. O corpo é a essência da existência. Há um declínio, um ressentimento, uma incapacidade de avançar, uma paralisia. Tudo vale. Esta compreensão é creditada a uma pequena, embora crescente, parcela da humanidade.

Irreligiosidade: é a negação ou ausência de quaisquer práticas religiosas. Nessa concepção, a pessoa afirma não seguir ou praticar qualquer religião ou tradição religiosa. Também é referida como incredulidade. O termo também pode se referir a qualquer pessoa que não se considera adepta de alguma religião formal. Contudo, não exclui a possibilidade de uma pessoa sem religião possuir uma cosmovisão religiosa. Embora pessoas irreligiosas não sigam qualquer religião, nem todos necessariamente deixam de acreditar no sobrenatural ou em deidades. Assim, uma pessoa pode ser um teísta sem religião ou ser um não praticante. Atualmente, há um número crescente de dezesseis por cento da população mundial que se considera não-religiosa.

Fundamentalismo: movimento que objetiva voltar aos princípios fundamentais do seu respectivo grupo em oposição aos movimentos modernistas. Uma comunidade religiosa, entretanto, vê os fundamentalistas como dissidentes e esta controvérsia, por vezes, tem sido a razão para formar novas seitas e religiões, com o objetivo de manter e guardar fiel e rigidamente os princípios religiosos ditos deturpado. Não raro isto se passa individualmente com religiosos mais zelosos e conscientes, que, independentemente da formação de grupos que o apoiem continua conservando os princípios fundamentais da doutrina e adotando-a como prática de vida. Passou a ser usado por outras ciências para significar uma crença irracional e exagerada, uma posição dogmática ou certo fanatismo em relação a determinadas opiniões.

Dogmatismo: do grego dogma significou primeiramente ‘oposição’. É a crença cega no senso comum. Os dogmas expressam verdades indubitáveis e não sujeitas a qualquer tipo de revisão ou crítica. Portanto, absolutas. É uma tendência em acreditar que o mundo é da maneira que aprendemos. Tratando-se assim de uma opinião centrista, isto é, algo que se referia a opinião em si. Os filósofos que insistiam demasiadamente nos princípios metafísicos não prestavam atenção aos fatos ou argumentos que colocassem em dúvida seus princípios. Esses filósofos não consagravam o principal da sua atividade à observação ou ao exame, mas sim à afirmação. Foram, por isso, chamados filósofos dogmáticos, ao contrário dos examinadores ou céticos. O dogmatismo defende que as coisas existem pura e simplesmente. O jeito é acreditar.


Fanatismo: do latim, fanum = ‘santuário’, ‘templo’ + ismos = ‘doutrina’ Š ‘doutrina que segue um culto’. Obediência extrema e cega a uma idéia, coisas, ou tema apoiado a um zelo obstinado até chegar ao uso da violência para fins de proselitismo e de punição dos opositores ou indiferentes a tal ideia ou crença. Preconceito, estreiteza mental, ódio, intenso individualismo. O fanático se opõe ao entusiasta, seguidor de uma ideia nobre e benéfica. O fanatismo se prende ao dogmatismo e, em parte, encontra adeptos entre pessoas de personalidade autoritária, que não percebem o erro ou o perigo que passam a defender. Tradicionalmente, aparece associado a temas de natureza religiosa ou política, porém, mais recentemente, ele se tem mostrado 


Referências
AYAHUASCA PERU. Disponível em: http://ayahuascaperu.redtienda.net/pag.php?id=41384. Acesso em 6.10.14.
DICIONÁRIO HOUAISS. Disponível em: http://www.dicio.com.br/houaiss. Acesso em 6.10.14.
DICIONÁRIO INFORMAL. Disponível em: http://www.dicionarioinformal.com.br/monismo/. Acesso em 6.10.14.
DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Grego-Português/Português-Grego. Porto: Porto Editora, 2008.
DICIONÁRIOS ACADÊMICOS. Latim-Português/Português-Latim. Porto: Porto Editora, 2012.
GHELLER. Erinida. (Org). Cultura religiosa: o sentimento religioso e sua expressão. 5º Ed. Porto Alegre: Edipucrs/Mundo Jovem, 2000.
KUCHEMBEKER, Valter. O Homem e o Sagrado. 5º. Ed. Canoas: Editora da ULBRA, 1998.
MEGALE, Januário Francisco. Alguns “ismos” das Ciências Sociais. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/ismos.ht. Acesso em 6.10.14.
ORIGEM DE LAS PALABRAS. Disponível em: http://www.etimologias.dechile.net. Acesso em 6.10.14.
SANTANA, Ana Lúcia. Messianismo. Disponível em: http://www.infoescola.com/religiao/messianismo. Acesso em 6.10.14.
SUPERINTERESSANTE. Revista das religiões. São Paulo: Abril, Nº 1 - Mai 2003 a Nº 23 - Jul 2005.
TRECCANI L’ENCICLOPEDIA ITALIANA. Disponível em: http://www.treccani.it/enciclopedia/ricerca/manismo/. Acesso em 6.10.14.
UBALDI, Pietro. Breve histórico do monismo. Disponível em: http://www.gilsonfreire.med.br/index.php/ubaldianos/breve-historia-do-monismo.
VÁRIOS AUTORES. As religiões do mundo. São Paulo: Melhoramentos, 1996.
WIKIPEDIA: A ENCICLOPEDIA LIVRE. Disponível em: http://pt.wikipedia.org. Acesso em 6.10.14.
WILGES, Irineu. Cultura Religiosa. 12ª Ed. Petrópolis: Vozes, 1994.

Diante da morte de um soldado

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

Disse o comandante da Brigada após a morte de um soldado: "As pessoas têm me perguntado se o PM não devia ter adotado uma postura mais agressiva, mais intimidatória na tarde de hoje. Eu acredito que sim. Mas sei que ele deixou de adotar essa postura em razão de todos aqueles que, de maneira imediatista, sem compreensão de todo o risco que se corre e de toda a complexidade que é um cenário de uma abordagem, de uma ação policial, julgam e condenam um Policial Militar, uma Instituição..." Entretanto, absolutamente ninguém deve ser condenado à morte por quaisquer que sejam os motivos! E posso, sim, imaginar os riscos que um policial corre. Sei também que esta é uma situação bastante complexa, mas não dá pra concordar cegamente com a declaração do comandante; não dá pra legitimar a truculência dessa instituição; não dá pra confundir o uso adequado da força com violência; não dá pra admitir uma polícia sucateada moral, instrumental e estrategicamente, do mesmo modo que não dá pra deixar criminosos apavorando e dominando uma sociedade. Também não dá pra concordar com "todos aqueles que, de maneira imediatista, sem compreensão de todo o risco que se corre e de toda a complexidade", agem no impulso de suas emoções e acham que o uso de armas deve ser ainda mais flexibilizado, que o investimento em programas sociais é desnecessário, que o processo todo, da prevenção e abordagem à recuperação, não precisa ser repensado. Nesse contexto de barbárie, cada vítima e cada agressor, onde quer que esteja, é um atestado de incompetência que todos assinamos.

Ser sinal de bênção e contradição

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal Obl. OSB)

O mundo atual abre-se a essa perspectiva, como se ela fosse uma novidade. Para vários segmentos da sociedade é um direito inalienável a ser garantido. Algumas tradições religiosas a consideram questão lapidada, apaziguada ou plenamente naturalizada. As igrejas cristãs, ainda que raras e a muito custo, sob a insistência de uma teologia de vanguarda, obrigam-se a refletir como já o fizeram com muitos outros temas espinhosos. E em todos os contextos este é um ponto nevrálgico, até porque as crenças e doutrinas, embora criações humanas e históricas, são elementos culturais considerados sagrados. Assim, ao escutar sábios e prudentes e ao contrapor cínicos e algozes, a realidade exige paradigmas alicerçados num maior cuidado com a complexidade humana. 

Não precisamos ir longe para enxergar a respectiva conjuntura, basta olhar ao lado e considerar nossa família ou qualquer outra instituição, da mais tradicional a mais alternativa; basta olhar para qualquer profissão e não precisa ser a mais estereotipada; basta olhar para o nosso círculo de colegas e amigos, inclusive os mais achegados; basta olhar para a nossa comunidade de fé, principalmente lá onde os discursos se inflamam, onde as decisões são monopólio e a disciplina enrijece sem reflexão. Aí estão muitos enrustidos e espalhafatosos desejando viver com dignidade. A sua esperança é que as mais profundas transformações germinam escondidas, crescem discretas, vigoram pisoteadas e maduram com o tempo para que aroma e sabor sejam apreciados, ainda que algum fruto venha a ser amargo.

Envolvidos em uma mudança de época e reféns de práticas nada amorosas, de abusos e de atentados à vida, muitas vezes em nome de um sagrado forjado o qual nem sempre é religioso, essencial e cuidadoso, quando alguém ama de livre e espontânea consciência e quer proclamar aos quatro ventos a intensidade desta boa notícia, independentemente de gênero ou orientação, nada mais profético e justo para os nossos dias que estar ali junto, testemunhando, abençoando, cuidando e confirmando tal escolha, ainda que, a princípio, estejamos na contramão. Aliás, amar, seja filos, eros ou ágape, acaso não é pura subversão? E compreendendo que abençoar significa invocar o que é belo e desejar o que é bom, apesar de todas as consequências, é necessário arriscar, ser sinal de bênção e contradição.[1] 

Se tal exigência urge, se a imensa maioria dos ministros religiosos não realiza, se algumas coisas não vêm de cima e não adianta esperar, eu e Mãe Beatriz de Iemanjá abençoamos a união de Antônio e Douglas. Até porque "quando a gente ama simplesmente ama e é tão difícil explicar".[2] Aliás, se é pra dar testemunho visível e coerente da vida abundante e do amor incondicional, onde quer que seja e cada vez mais, esta Vida Plena vai arrastando-me a estar presente. Quem legitima isso? Aquelas e aqueles que almejam do mais profundo da alma; aquelas e aqueles que sentem à flor da pele o drama e o alívio de serem diferentes; aquelas e aqueles que multiplicam sonhos ao invés de pesadelos e utopias possíveis ao invés de desilusões. Quem legitima isso é o Amor Maior de quem ama por amar.

Assim, naquela noite de festa nós declaramos: vocês já se experimentaram. No juramento que fazem está implícito: este é o meu companheiro. Companheiro é quem come junto do mesmo pão. E isso é um ato profundamente amoroso, um amor sentimental, espiritual e político. Para a nossa cultura é um ato tão sagrado quanto subversivo. Nós testemunhamos, abençoamos e anunciamos a quem, de boa vontade, possa e queira escutar, acreditando que esse mesmo amor tenha nascido da liberdade e da alegria, do desejo e da paixão, da afeição e do cuidado, da entrega e da cumplicidade, da sabedoria e da consciência para que vocês possam viver intensamente sob o axé de seus Guias, sob as forças do Universo, sob a vida do Eterno e sob a misericórdia do Divino que se deixa chamar por tantos nomes.

Notas e referências
[1] Seja sinal de bênção e contradição foi o que recomendou Leonete Cassol, via facebook, em resposta à publicação do que estávamos prestes a realizar, em 28.05.2016.
[2] Cf. BARBOSA, Marcelo; BARRETTI, Bozo. Quando a gente ama. Música interpretada por Oswaldo Montenegro.
[3] Obrigado Veroni Medeiros, Rivy Tarandach, Leonete Cassol, Vera Freitas e Vladimir Freitas por seus comentários motivarem uma reelaboração mais criteriosa deste texto.

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Até 30.06.16
Julio Cesar De Lima

Dimensões inerentes ao humano

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal, Obl. OSB)

que é inerente ao humano? Algo o torna peculiar em relação aos demais seres? Sendo sapiens, como este situa-se diante das descobertas a seu respeito, bem como de outras espécies? Qual é, de fato, a sua essência? É possível ignorar o que se sabe ou faz-se necessário redimensioná-lo constantemente? Várias abordagens podem dar-nos algumas respostas. Aliás, é imperativo que consideremos a integralidade e a complexidade humana em detrimento de concepções precipitadas, parciais e fragmentadas. Assim sendo, qual gênero humano que sabe que sabe, podemos concebê-lo sob quatro dimensões fundamentais, a saber: corporal-biológica, social-ecológica, mental-psicológica e espiritual-escatológica. Entretanto, não são verificados tais aspectos em outros seres vivos? 

Corporal-biológica - Essa dimensão refere-se ao corpo material, anatômico, fisiológico e orgânico. Compreende os sistemas motor, digestório, vascular, ósseo, respiratório, neurológico, reprodutor e hormonal, além das funções e disfunções dos órgãos e suas inter-relações; os órgãos sensoriais: pele, olhos, nariz, língua e ouvido, responsáveis pela interação com o cosmos. Aqui se pressupõe uma relação entre os átomos. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua corporalidade pela alimentação, respiração, movimentação, higiene, preservação, prevenção e tratamento de doenças, trabalho e repouso, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Social-ecológica - Essa dimensão refere-se às relações entre todos os seres e com nossa casa comum. Compreende os fenômenos que acontecem nas interações pessoais, grupais, comunitárias, étnicas, considerando-se fatores políticos, econômicos, trabalhistas, jurídicos e educacionais, bem como a afetividade, a sexualidade, a segurança pública, a não-violência e a justiça social. Aqui se pressupõe uma relação entre os seres. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua sociabilidade pelo contato físico, o companheirismo, a alteridade, o diálogo, a compaixão, a moral, a ética, a garantia dos direitos e dos deveres, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Mental-psicológica - Essa dimensão refere-se às funções cerebrais superiores e neuropsicológicas. Compreende a personalidade e o comportamento motivados por certas instâncias inconscientes, pré-conscientes e conscientes; memória, pensamento, raciocínio, intelecto; vontades, desejos, emoções e sentimentos, bem como a necessidade de realização, autoestima e pertença. Aqui se pressupõe uma relação consigo mesmo. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua mentalidade através do aprendizado, autoconsciência, resiliência, administração das emoções, superação dos vícios, inseguranças e desejos, etc. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Espiritual-escatológica - Essa dimensão refere-se ao que dá sentido ao todo da vida e da existência. Compreende a necessidade do eterno, a saudade do infinito e a busca do que está além das sensações e dos sentidos; aí se encontra o desejo de unificar-se e fazer-se parte do universo; é a experiência de uma energia arrebatadora que faz a vida fluir; é o mistério que o corpo e a mente não sabem dizer. Aqui se pressupõe uma relação transcendental. E para desenvolver-se e realizar-se integralmente, o ser humano precisa cuidar da saúde e equilíbrio de sua espiritualidade através do silêncio, meditação, oração, admiração, contemplação, confiança e esperança enquanto busca a verdade. O desequilíbrio ou exagero, para mais ou para menos, poderá trazer-lhe danos, inclusive a abreviação da própria vida.

Perceba-se que as respectivas dimensões estão precisamente interligadas e, por vezes, não se tem clareza dos seus limites. Aliás, cedo ou tarde, de maneira mais ou menos incisiva, o que acontece a uma terá repercussão sobre a outra. Contudo, caberia ao ser humano optar por ter esta ou aquela dimensão? Considerando-se o alto grau de complexidade dos fenômenos humanos, inclusive daquilo que se mostra como produção e patrimônio cultural ou como cultivo consciente e agregador de sentido, não cabe a este decidir o que lhe é inerente. Mas, no exercício do seu livre arbítrio, qual homo sapiens sapiens que é, este mesmo humano poderá decidir como administrar tais dimensões, ou seja, reconhecendo, exercitando e aperfeiçoando-as ou ignorando, interrompendo e atrofiando-as.

Notas e referências
BEKOFF, Marc. Animais têm consciência: trate-os como iguais. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/animais-tem-consciencia-trate-os-como-iguais?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_super. Acesso: 13.04.2014.
BIRCK, Bruno Odélio. Fenômeno religioso. In: GHELLER. Erinida. Cultura religiosa: o sentimento religioso e sua expressão. Porto Alegre: Edipucrs/Mundo Jovem, 2000.
CAVALCANTI, José Gilson. O ser humano como unidade. Disponível em: http://www.libertas.com.br/site/index.php?central=conteudo&id=412. Acesso em: 13.04.2014.
CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Leopoldo: Sinodal, 1987.

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e crescimento pessoal. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FERREIRA, Cristiane. As quatro dimensões do ser humano. Disponível em: http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=28108. Acesso em: 13.04.2014.

Brasil, entre piranhas e jacarés

Por Julio Cesar De Lima
(Ir. Pascal Obl. OSB)

A indignação pela unilateralidade do juiz federal Sérgio Moro e seu cardume fascista na condução da Operação Lava Jato faz-nos achar que nesse rio onde estamos só tem moluscos e piranhas, quando nele também há crustáceos, dourados, sucuris, candirus e, sobretudo, jacarés. E os tais jacarés, a essa altura, alguns autodenominando-se apartidários, novinhos e centenários, até já abrem a bocarra pra reconhecer que suas amigas piranhas também dilaceram boa parte do boi. Se as piranhas acham-se articuladas, robustas e cheias de ira e razão, em parte, por terem aumentado seu cardume nos últimos tempos e, por isso, terem que dividir privilégios entre si, os jacarés tentam camuflar-se, deixando apenas seus olhinhos de fora, pois já estão bem acostumados ao lamaceiro global dessas águas chamadas Brasil. Aliás, eles mesmos já fuçaram o fundo do leito e as encostas, já deram o giro da morte, já afogaram presas e esconderam centenas de carcaças, inclusive sob as rochas de uma questionável anistia. Nesse rio vive jacaré disfarçado de piranha, de dourado, de sucuri, de candiru, de crustáceo e até de molusco. Existe também quem não o sabe e os que juram que não são. E o mesmo pode-se dizer do resto da fauna. Mas, enquanto as piranhas e os moluscos se alvoroçam sobre uma mancha de sangue, no intuito de, ainda, decidir quem manda nessas águas, os jacarés que abocanham boiadeiros e boiadas, desde quando represaram o nosso rio, fingem ser seus legítimos guardiões e, por hora, deixam só alguns filhotes à vista na correnteza lamacenta do Brasil.
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